sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Indefinição

- Oi. Tudo bem?
- Oi!
...
- Tudo bem. Tudo bem, sim. E você?
- Tudo bem também.
...
- Tá sozinha? Procurando lugar?
- É... tá cheio hoje, né?
- Tá sim. Mas eu to só. Se você não precisar de mais de um lugar, pode sentar aí.
- Ah, obrigada. Sou só eu mesmo.
- Fica à vontade.
...
- Haha...
- Que foi?
- O quanto algumas coisas são engraçadas né? Até meio ridículas...
- Como assim?
- Até bem pouco tempo atrás eu poderia estar aqui sentado, mas só pra te esperar enquanto você fazia seu pedido. Ou nosso pedido. Ou você aqui enquanto eu pedia. E não estaríamos aqui nessa situação embaraçosa, feito dois estranhos que não se conhecem, mas tentam ser educados um com o outro. Isso é muito, muito estranho. E até triste.
- É. De certa forma é muito triste. Mas confesso que não sei o que dizer. Minha cabeça tá fervilhando de coisas: de vergonha, de palavras, de tristeza, de pedidos, de vontade de levantar e correr, de vontade de te perguntar como anda a sua vida, de saber por que você está aqui hoje, por que está sozinho, por que está comendo crepe... mas ao mesmo tempo não sei o que dizer.
...
- Não chora, Pedro! Fala alguma coisa.
- Acho que a única coisa que tenho pra te dizer, Larissa, e é bom mesmo eu dizer antes que isso vire um câncer aqui dentro do meu peito daqui 30 anos é que eu te amo. Te amo desde sempre. Não deixei de te amar nenhum minuto e, não sei se feliz ou infelizmente, não acho
que vou deixar de te amar tão cedo. Talvez depois que o câncer me consuma. Ou talvez também não.
...
- E agora é você quem está chorando. E toda a praça de alimentação nos olhando.
- Eu não me importo com os olhares, Pedro. Aliás, acho que é o que mais ganho desde que nos separamos. Olhares de todos os lados. Os que olham com pena. Os que olham com cobiça. Os que olham com desdém. Os que olham para rir. Mas um olhar eu não tive mais. Esse! Esse que eu to vendo agora. De amor, de desejo, de reconhecimento. Esse olhar é o que mais me faz falta.
- E por que você não volta?
- Porque ainda não posso. Não estou pronta pra você.

E foi embora comendo o resto do sanduíche na mão.

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