vou contar uma história. outro dia fui a casa de amigo. rolava lá um samba, pagode, quebradeira... sei lá! sei que tinha banda. com tan tan, cavaco, pandeiro, microfone... essas coisas. o som estava legal. minha galera do colégio, como sempre, gente boa e animada. tocavam todo tipo de samba e pagode. ai, o vocal puxou um... "Deus está aqui nesse momento..."
ao som do do cavaco ficou interessante. gosto dessa música há pelo menos uns quatro anos. achei estranho, inadequado (os chicleteiros que me perdoem) para aquele momento, mas... "beleza, é festa, uuh!!". Ele prosseguiu na "pregação": "Deus te trouxe aqui/ Para aliviar os seus sofrimentos ô ô ô". eu até cantava junto. chegou o refrão, cantei de novo (é a parte mais bonita da música).
mas o foda começa agora: o bicho esqueceu o resto da letra e começou a solfejar e inventar uns trechos lá: "fulano de tal, me traz um cervejaaaaa ô ô ô". ah! não.. perai! ai eu fiquei puto. pô, tudo bem que o cara toque uma música religiosa num antro de cachaça, pagode e, acidentalmente, onde a putaria comportamental pode rolar solta (leia-se pegação). mas zombar da palavra de Deus já é sacanagem.
explico. não sou um exemplo de conduta. mas costumo ir a igreja quando posso. não sei explicar por que. mas gosto de estar lá. essa música é um símbolo. mas, bonita e triste, teve a infelicidade de ser alçada pela galera do chiclete com banana (acho que foram os caras que gravaram). ai, banalizaram a coitada e reverteram totalmente a função social que ela se propunha.
no meu carnaval, por exemplo, fui comprar uma cerveja numa conveniência e lá tinha um carro parado, com a mala aberta, escutando essa música. ao redor dele, um monte de bêbados, cantando e dançando. o motorista dava tavas na bunda da namorada enquanto entoava "ô ô ô". minha silenciosa indignação começou ai.
e ela se traduz num lado quase-religioso-social e noutro pessoal. mais uma vez, explico: a primeira vez que escutei essa música ao som do violão, eu acompanha o cortejo que levava o corpo da jovem maria clara (cês lembram dela) até o local onde seria enterrado. naquele momento, mesmo lá como repórter, não tive como não me comover, sobretudo, com essa parte: "e ainda se vier noites traiçoeiras/ se a cruz pesada for/ cristo estará contigo/ e o mundo pode até fazer você chorar/ mas Deus lhe quer sorrindo".
por isso adquiri um carinho especial por ela. de lá pra cá, a escuto sempre com muito respeito. ai vem o chiclete com banana (demolidor que me perdoe) e esculhamba com tudo. agora, a música virou um hit para animar as cachaçadas. repito: não sou um poço de religiosidade, muito menos sei interpretar a palavra de Deus como se deve, como meu amigo dieguito amorim. mas acho um desrespeito. e tô puto!