sexta-feira, 6 de maio de 2011

Como Fantasia

A vida de todo mundo daria um livro. Esse é meu trabalho. Conhecer tua história e transformá-la num épico, num grande exemplo de vida. Ou mesmo numa grande tragédia, vai da tua escolha.

Transformo teus medos em virtudes, tuas dores em vitórias, tuas lágrimas em sangue e tuas derrotas em força. As baratas que matou na cozinha viram leões mortos a golpes de espada de prata na savana. Os impropérios que disse numa briga de trânsito soarão como ensinamentos de um mestre calmo e sábio.

Transformo tuas letras em palavras, palavras em frases, frases em períodos, períodos em parágrafos e parágrafos em lendas. Meu trabalho é este. Fantasiar tua vida. Dar a ela o sentido que você não conseguiu na realidade. Realizar teus sonhos, bater tuas metas.

Tuas conquistas serão heróicas, tua vida será rica, tuas idéias serão brilhantes e teus amores serão eternos. A admiração virá desde as primeiras páginas e todos, ao findar a leitura, dirão: quero ser como você.

Mas, sinceramente, ao te verem com estes olhos marejados, não haverá palavra que disfarce a saudades que sentes dela.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Na memória dos bons sentimentos

Lembra do dia em que te conheci? Às vezes me pego lembrando disso, com um sorriso meio bobo na cara. Aquele que você nunca entendeu quando me via te observando durante suas atividades rotineiras de casa. E quando me pego pensando em você, não sei bem o que sinto. São tantas coisas. Meio confuso, sabe?

Não que eu ache isso ruim, pelo contrário, acho interessante o fato de pensar que foi tudo tão esquisito e ao mesmo tempo ver que foi da melhor maneira que poderia acontecer. Lembrar que você não me dava muita bola, seu jeito durona de ser típico de leonina. E eu todo interessado, fazendo de tudo pra você me querer, sendo eu mesmo, mas dando ênfase nas qualidades, que eu não sou bobo de apontar meus próprios defeitos. Apesar de menino, já tinha lido “Arte da Guerra”. Sun Tzu tinha que servir para alguma coisa.

Mas valeu porque consegui te conquistar, eu acho. Nem que tenha sido por pouco tempo. Na verdade, às vezes penso que, talvez, você tenha me aceitado mais pelo esforço que fiz do que pelas qualidades propriamente ditas. Mesmo assim, me senti muito feliz. Era um reconhecimento.

Àquela época eu pensava ser você a coisa certa, quem me faltava. Ver seu sorriso era tudo que eu poderia querer. Pensava, imaginava, criava, inventava todas as possibilidades de uma vida eterna entre nós dois. E de repente o encanto se desfez.

Por um bom tempo fiquei sem saber como viver sem você. Sofri, chorei. Mas passou e hoje entendo que você era, sim, o melhor na minha vida naquele momento. Aprendi, cresci, amadureci. Foi bom pra mim e guardarei pra sempre este sentimento. Espero que você também tenha tirado boas lições de tudo aquilo. Te amei. Muito obrigado por isso.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

AA

Meu nome é Pedro, tenho 27 anos. Sou viciado.


No começo, confesso que entrei por diversão. Tava ali de bobeira, fazendo nada e fui apresentado a ela por alguns amigos. Gostei de cara. E passei a querê-la diariamente. E ela estava sempre por perto quando a procurava, então não tive dificuldade nenhuma em me viciar mais.

E a onda foi crescendo. No começo eram festas no final de semana, contatos rápidos, mas ela estava com meus amigos sempre. Aí passou a ser festa todo dia e, desde então, ela estava comigo e não mais com os outros. Eu a tinha pra mim. Só pra mim. De manha, de tarde, de noite. Eu não conseguia mais ficar sem ela.

Gastei dinheiro, me meti em encrencas, briguei por ela e com ela. Me diverti muito, passei pelas mais maravilhosas sensações, fiz viagens eternas e inesquecíveis. Ganhei novos amigos, me afastei de outros. Conheci uma nova família, um novo caminho.

Depois de tudo isso, cheguei aqui. E hoje digo feliz que o meu vício continua comigo. E continua a me proporcionar as melhores coisas da vida.

Meu nome é Pedro Saldres, tenho 27 anos e estou há 2 anos e 10 meses apaixonado pela minha mulher.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Primeiro e Melhor

Eu ainda me recordo perfeitamente da cena. Só faz uma semana, mas nesses tempos de velocidade em tudo, parece que já se passaram anos.

Você vestida naquele meu moleton cinza-surrado, cabelos completamente desgrenhados, parada no meio da cozinha lá de casa lendo a receita de bolo de cenoura da minha avó. “Queria te preparar um café legal, mas não sei onde encontrar os ingredientes”, você me disse quando percebeu que eu te observava. Depois me beijou. Teu beijo, àquela hora da manhã, era doce como a calda de chocolate que depois fizemos para o bolo.

Foi a primeira vez que você dormiu comigo e acho que por isso nunca esquecerei. Podia ter na memória outros detalhes daquele dia. O jantar que te preparei na noite anterior, o vinho que bebemos, as músicas que dançamos, mas sei lá... acho que aquele momento foi marcante. A intimidade de te ver como parte integrante da minha casa – mesmo que perdida entre os armários – me fez sentir que era você mesma. Tua completa falta de vaidade em me deixar te ver daquele jeito, maquiagem borrada, descabelada me fez sentir que você era minha.

Tua preocupação em me agradar com o bolo de cenoura quentinho logo cedo me cativou ainda mais. A tua cara de “não sei bater massa de bolo” foi que me mostrou o quanto você precisava de mim. E eu de você. Mas foi nosso diálogo após o primeiro pedaço de bolo que me fez ter certeza de que não podia te deixar mais sair da minha vida. “Foi o melhor bolo de cenoura que já fiz”, você disse. “E quantos você já fez?”, perguntei. “É o primeiro. Logo... hahaha!”

Ah, bom humor logo cedo. Como não te amar? Como não querer ter mais despertares como esse? E por isso te digo: aquele também foi o primeiro dia em que você acordou aqui. E sem dúvida, foi o melhor. Mas eu quero mais.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Amor e morte

Só você ainda não percebeu que não falo contigo por medo de você me achar burro. De não dizer algo inteligente que vá te marcar ou de fazer alguma piada imbecil e você me odiar. Só você ainda não entendeu que não chego perto de ti por temor de não estar suficientemente perfumado, ou estar perfumado demais e te causar alergia. Aliás, só você não se deu conta de que passou a receber lírios, e não mais rosas, quando contou – e eu ouvi – que as achava lindas, mas não podia levá-las pra casa, pois te causavam espirros.


Você ainda não percebeu que sou eu quem deixo água geladinha na sua mesa. Sou eu quem levo o café quente na caneca. Os biscoitos, também sou eu quem levo e faço, diariamente, em casa pensando no seu sorriso ao comê-los. E na sua expectativa por tentar descobrir quem é seu admirador secreto. Tal qual uma colegial querendo saber quem enviou o correio elegante na festa junina.

Aliás, só você ainda não se tocou de que não é coincidência que subimos juntos, diariamente, no elevador. E muito menos que eu passo os oito andares prendendo a respiração com medo de estar com bafo. Mas é tão bom estar ali ao seu lado. Nem sei o que faria se um dia ficássemos só nós dois lá dentro. Provavelmente teria um ataque de pânico.

Você também ainda não se deu conta de que nas aulas de ginástica laboral eu sou o único que não forma par com você. Medo de te quebrar em algum daqueles movimentos. De perder o controle ao massagear seu pescoço. Medo de sentir sua pele e surtar de vez, sabe?

Uma pena você não ter percebido nada disso até hoje. Uma pena você não descobrir e não me convidar para sentar à sua mesa. Fico triste. Aliás, de triste passei a ter raiva. Tenho me sentido muito enfurecido com isso. Sua falta de gratidão me machuca.

Mas ela não vai mais acontecer. Uma pena que hoje você vai comer meu último biscoito. Uma pena que você morrerá comendo. Espero que o sorriso pela surpresa ainda esteja em seu rosto quando te encontrarem morta. Eu amo o seu sorriso.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Sorte ou Azar

Tudo que tentei foi infrutífero. Todos os lances que dei resultaram em nada. Para os que me entreguei demais, virei utensílio de luxo descartável. Para os que me mantive sóbria, fui taxada de frígida. Quando tentei o equilíbrio, acabei como a desequilibrada que não sabe o que quer. Bipolar.

Tentei médicos ricos, motoboys pobres. Até professores que não são nada além de chatos. Os engraçados que me divertiam, mas não davam prazer. Os gostosos que me davam prazer, mas não sabiam rir. Altos, baixos, gordos e magros. Preto, branco, mulato, índio, cafuzo, mameluco, caboclo. Cearenses, amazonenses, goianos, paranaenses, cariocas e até os chatos dos paulistas. Aliás, já pensou em um professor paulista? Tédio.

Tentei de tudo e nada de certo. Uns dizem que não tive sorte. Outros dizem que tive azar. Mas se azar no jogo quer dizer sorte no amor, chegou minha hora de apostar, ganhar dinheiro, quebrar a banca do cassino. Quem quer girar a roleta?

sexta-feira, 25 de março de 2011

Nossas manias

Ai, você me liga em plena madrugada achando que vou te atender. Esqueci de te dizer. Não deixei só você. Deixei também todas as manias que adquiri contigo. Era isso ou a tua lembrança a cada ato corriqueiro do dia.

Não tomo mais sorvete de menta. Não peço mais café com leite vaporizado. Voltei a comer pizza com borda de catupiri. Agora começo a leitura do jornal pelo “caderno 2”, que é pra programar o cinema, o teatro, o show ou qualquer outra coisa que eu queira fazer mais tarde. Sem essa de ficar em casa vendo novela.

Deixei de beber vodca com schweppes citrus. Voltei a tomar minha cerveja estupidamente gelada. Voltei a fazer a barba diariamente em vez de manter aquele ar desleixado. Voltei a ouvir o Roberto Carlos e não mais aquele tumtumtum seco que você gosta. E, veja você, deixei de dormir com o celular ligado. Precisava conter meu desejo de te ligar.

Só não perdi aquela mania boba de te desejar. Ainda bem que não te atendi. Ainda bem que você bateu à minha porta. Ainda bem que te recebi.

Agora levanta que teu café com leite vaporizado está pronto. E o caderno de economia está debaixo da bandeja pra tu ler. Bom dia e até mais tarde. Prometo que te trago sorvete de menta pra sobremesa do jantar. Te amo.

sábado, 19 de março de 2011

Inacreditável

“Você está, sem dúvida, na lista das pessoas mais interessantes e insanas que já conheci.” Foi assim que ela se dirigiu a mim depois de uma semana de convivência. Confesso que por alguns minutos não soube dizer se a frase, misturada ao seu constante tom ameaçador, era um elogio ou uma ofensa. Mas o longo beijo que me deu ao se aproximar, sem dúvida, deixou claro que era um elogio. Ou uma ofensa. E um beijo de piedade. Não sei. Até porque, ela me beijou e foi embora.

Era um beijo de despedida e um agradecimento pelos sete dias passados? Ou era um beijo de dó e uma certa pena pela pessoa que ela viu em mim? Capaz de nem ela saber me explicar. Mas o tempo foi todo calculado para a frase, aproximação, beijo e a entrada no táxi que a esperava. Meu “tchau, volte sempre que puder” só foi ouvido pelo gari que varria a rua naquela hora.

Depois de uma semana intensa vivida lado a lado ela simplesmente saiu de mim, assim como entrou. Num acontecimento fortuito. Numa passagem da vida que poderia passar despercebida por qualquer um. Assim como nos conhecemos na tentativa de embarcar em um táxi no aeroporto de Brasília, ela se despediu de mim antes de entrar em outro e voltar ao aeroporto. Voltar ao seu frio e solidão (imagino eu) seja lá onde ele for.

Porque não acredito que lá ela vá entrar em outro táxi já ocupado, meio sem querer. Não acredito que esse táxi terá outro passageiro tão “interessante e insano” quanto eu. Não acredito que ela vá estar sem um hotel reservado. Não acredito que a cidade não terá quartos disponíveis. Não acredito que ele vá sugerir que ela fique na casa dele. Não acredito que eles vão descobrir tantas afinidades. Não acredito que ele vá pedir uma semana de licença no trabalho para ficar com ela.

Não acredito que ela vá passar outra semana recheada de sexo, de paixão, de histórias. Não acredito que ela viverá outra semana de bons restaurantes, bons filmes, boas músicas, bom vinho. Não acredito que ela terá outra semana de bons sonhos, bons despertares e bons bate-papos no escuro do quarto.

E, principalmente, não acredito que ela tenha coragem de arrumar suas coisas, chamar um táxi e esperá-lo do lado de fora enquanto ele foi à rua buscar mais daquilo tudo de bom de antes. Não acredito que ela... eu não acredito nela. Eu não acredito. Não acredito que sou tão interessante.

Mas acredito que sou um insano por ter feito tudo isso. E acredito em amor à primeira vista.

sábado, 12 de março de 2011

Antes de dormir

De tudo o que a gente vive ao longo do dia minha parte preferida é a do escuro do quarto. Não to falando de sexo. Nem de dormir. Muito menos de silêncio.


To falando daqueles minutos que antecedem o adormecer, quando ficamos ali, deitados lado a lado, conversando. Não é que o sexo seja ruim, pelo contrário. Você sabe que, pra mim, sexo é fundamental e não estaríamos juntos há tanto tempo se não fosse bom. Meu sono também é ótimo e você, mais do que ninguém pode atestar isso. E o silêncio, bom... o silêncio tem seus momentos de valor.

Mas é que te ouvir contar sobre seu dia, entrar no teu mundo, ouvir teus lamentos sobre o trabalho, tua preocupação com a saúde do teu pai e as bobagens das tuas amigas me faz bem. Me sinto mais integrado. Sabe aquela coisa matemática de primário, dos grupos, do que pertence e não pertence; está contido e não contido? Pois é, me sinto assim, feito menino no primário descobrindo o mundo. Contido nas tuas histórias, pertencente aos teus planos.

E é ali que eu também sinto você comigo, partilhando minhas dúvidas, meus medos, minhas idéias mirabolantes de fazer 300 coisas ao mesmo tempo. E em seguida caindo na real de que não farei nem duas. É ali que me pego fazendo planos para nós dois. Aquela viagem, o restaurante que ainda não conhecemos, o espumante que está na geladeira e ainda não tomamos.

Você bem sabe: o sexo, um dia, vai acabar. Não há azulzinha que aguente. Pelo menos não pelo tempo que quero estar ao seu lado. O sono vai rarear, ou você já viu velho que durma mais que 5 horas por noite? O silêncio vai permanecer tendo seu valor nas horas certas. Mas essa conversa, seus contos, suas preocupações. Essas tenho certeza que ainda persistirão a me embalar os sonhos.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Na quarta-feira virei cinza

Eu já te observava bem antes da sexta-feira, mas só naquela noite, embriagado, com os sinos do lança-perfume tocando na cabeça, foi que tive coragem pra chegar perto de você. Você já sabia, eu era um grande covarde. Fama de franguinho que foge quando outro galo canta no terreiro. Mas ainda acredito que foi justamente por isso que te surpreendi. Entre todas as passistas daquele baile, você era a que mais chamava atenção. Teu colorido exalava. Sabia que tinha todos os olhares, do rei, do arlequim, do pierrô, do pirata, do marinheiro, do capitão, até do Clóvis Bornay. Mas não esperava a aproximação do bobo da corte. E de gracinha em gracinha eu ganhei o branco do teu sorriso.

No sábado, segui teu ritmo. Teu gingado me levou à diferentes blocos. Teu passo me fez percorrer toda a avenida. Tua ginga me fez sambar de trás pra frente. E no fim da noite teu rebolado me levou ao prazer infinito. Eu já me sentia seu. E te sentia minha. Mesmo com o rei do pandeiro a te paquerar. Mesmo com a bateria parando pra você passar. Mesmo com o mestre-sala a te fazer reverências. Eu sabia que o vermelho dos teus lábios me pertenciam.

Veio o domingo e continuei na tua cadência. Meu coração já fazia feito tamborim toc toc tum toc tum toc tum no seu ritmo. E no meio do pagode você me puxou pro canto da quadra e me transformou em reco-reco, em cuíca gemendo alto. O preto da tua pele me extasiava.

Na segunda e na terça, a gorda terça-feira de carnaval, me senti feito Rei Momo. Satisfeito com teus beijos e carícias. Mas querendo provar mais do doce que você me dava. Seria o Rei Momo mais obeso e estenderia meu reinado por infinitos carnavais pra poder comer do seu prato. Beber do teu gole. Me colorir com todas os brilhos da tua purpurina, com todas as cores dos teus paetês.

Na quarta-feira teu bloco não saiu. No meio da rua vazia, no meio da ressaca contida, entre restos de latas e cheiro de urina não ouvi teu apito a comandar a batucada do meu peito. Na quarta-feira eu virei cinza sem você.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Mais um tchau

Definitivamente, eu acho uma pena. É uma pena, depois de tantas idas e vindas, de encontros e desencontros, de amores e desamores, eu ainda sofrer por perder você. É mesmo uma grande pena depois de tantos anos eu ainda não ter aprendido a lidar com meus erros – sempre os mesmos – e com as consequências deles.

Sabe, eu fico triste mesmo. Nem é por você ter ido. Isso aconteceria uma hora ou outra. Afinal, quem acredita em “viveram felizes para sempre”, além das crianças que dormem ao som da leitura de uma Cinderela ou Rapunzel? Só naqueles embalados sonhos o para sempre é real. Depois que crescem, vivem a realidade. Aliás, não era Cinderela sua história favorita quando pequena?

Eu fico triste é por mim. Por não perceber que estou numa eterna volta: conquista, namoro, erros e o fim. Triste por não me dar conta que meus erros não feriram só você, mas também a Marisa, a Fernanda, a Tatiana, a Maria Clara... e por não ver que o problema não foi você, nem elas. O problema sou eu.

Muitos usam desse papo de “não é você, sou eu” para terminar um relacionamento. Só que comigo é sempre o contrário. Foi você (e todas as outras) que me disse, ou deixou a entender que o problema não era você, mas eu.

Eu fico triste por não ver que eu sempre caminho para o mesmo buraco. Para a mesma vidinha simples e sem aventuras, para a mesma rotina medíocre que acredito ser o suprassumo da existência humana.

Psicologia, psiquiatria, hipnose, acupuntura, terapia holística, exercícios físicos, menos álcool, voto de solidão. Sei lá o que pode me fazer mudar. Qual a sua sugestão? Quer dizer, você nem tem que me dar nenhuma sugestão. A essa altura já deve estar bem longe. De volta àquele apartamento que você dividia com as amigas. Me deixe mesmo aqui. É melhor pra você.

Quanto a mim? Bom, o ciclo recomeça. Vejamos quanto tempo dura o próximo. Bom que estes escritos já ficam aqui, à mão para o próximo cartão de despedida.

Boa sorte pra você. Espero que goste das flores.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Fórmula Dove

Eu até estava indo bem, sabe? Já tinha saído daquela fase de madrugadas chorosas e bêbadas, já tinha passado aquela impressão de ver seus olhos em cada espelho, de ver teu carro em cada estacionamento. Já tinha conseguido até passar o aspirador de pó em casa, pra ver se não sobrava nenhum fio de cabelo teu escondido por aí. Também já não tinha mais aquela vontade de te ligar a todo momento, implorando pra você voltar pra mim e que eu vou mudar e que nós ainda podemos ser felizes. Tudo isso já tinha passado.

Já tava de volta a rotina do trabalho. Reconquistei a confiança do chefe. Retomei projetos que tinha deixado parado. Até mesmo o futebol no domingo. Voltei a fazer gols! O primeiro foi lindo, até cheguei a levar o anelar esquerdo à boca para dar um beijo, quando senti que não tinha mais aliança. Mas foi rápido, passageiro, logo recebi outra bola e esqueci disso.

Até umas paqueras novas já estavam rolando. Trocas de mensagens aqui. Uns olhares ali. Beijos acolá. Percebi que não tinha me esquecido como ser conquistador. Mas todas garotas de uma noite só. Boas noites, inclusive.

Mas aí veio a primeira viagem a trabalho. Lembra? Daquelas que eu ia num dia pela manhã, fazia reuniões o dia inteiro, passava a noite e voltava no outro dia pela manhã. Pois é, retomei isso também. E já em arrependo.

O dia tinha sido bom. Reuniões produtivas, projetos encaminhados. Happy hour divertido. Uma garota passou a noite me dando bola. Até me permiti trocar olhares e por fim, alguns beijos no estacionamento. Voltei ao hotel e entrei no banho. Ao abrir a saboneteira, você me invadiu novamente. Em vez do meu tradicional sabonete glicerinado, encontrei aquele teu dove. Você dizia que eu tinha que usar dele, pra poder hidratar minha pele. Mal sabia você que todos são iguais, meros detergentes da pele.

Teu cheiro estava guardado nele. Aquele cheiro doce, de pele macia – não por conta do sabonete, mas por conta da natureza que te fez assim mesmo –, de saudade. Aquele teu cheiro de aconchego, aquele teu cheiro de me deixar com tesão. Aquele teu cheiro de me fazer cafuné, aquele teu cheiro de me fazer dormir.

Debaixo do chuveiro eu chorei. Lá fiquei até o sabonete derreter por completo entre meus dedos. E depois adormeci sentindo teu cheiro em minha mão. Como se você estivesse ali. E foi assim que descobri a fórmula perfeita pra te ter sempre comigo.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Faxina Geral

Nada como um bom pedaço de pano e uma garrafa de álcool para fazer uma limpeza. Não, não. Não to falando da mesinha de centro da sala que você limpa com um paninho perfex e um litro de álcool Guarany.

To falando do pano, do linho do lenço Presidente que você me comprou para eu usar no casamento daquela sua amiga. Eu achei brega. Lembra que você bebeu além da conta, vomitou e acabou usando meu lenço para se limpar? Pelo menos a breguice teve bom uso. E foi pro lixo. Mas no dia seguinte você fez questão de me dizer que tinha comprado uma caixinha. Ainda sobravam dois. Ficaram guardados na gaveta das cuecas.

To falando do álcool que se bebe, da cana ardente da cachaça ruim que você comprou para fazer quentão em fevereiro, já que você estava com desejo. Onde já se viu desejo de não grávida? Mas você disse que não tava encontrando gengibre. Sem gengibre não tinha graça. Tomou a garrafa do malbec argentino - que eu guardava pra uma ocasião especial - com sua amiga que três meses após o casamento pegou o marido com uma sirigaita no clube. Esqueceu do quentão e a garrafa ficou lá no canto do armário, tomando poeira.

Pois é esse mesmo lenço brega e essa mesma garrafa de cachaça ruim que fazem minha faxina hoje. O linho que eu esfrego no meu rosto, secando as lágrimas, arrancando essa pele velha e desgastada. A aguardente que desce rasgando a garganta, queima o esôfago, faz eco no estômago e estremece o fígado.

Mas eu to me limpando de você. Me desinfetando do seu cheiro que ainda ficou no lençol. Arrancando todos os micróbios da sua boca que ainda possam estar espalhados pelos copos, pela caneca de cappucino, e até na taça de vinho. Me desfazendo das suas lembranças, das suas manias, dos seus pedidos. É faxina geral, livre de você.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Teoria da Relatividade

“Tudo é relativo”, dizem por aí. Não tenho certeza, mas deve ter sido Einstein, com sua teoria da relatividade, que criou essa blasfêmia e a transformou em conhecimento público. Acredito mesmo que o que ele queria dizer era que até essa frase – “tudo é relativo” – é relativa. Porque não dá para tudo, realmente, ser relativo.

O meu amor por você, por exemplo, não é relativo. Mesmo tendo na etimologia da palavra relativo o significado de relação, o termo tornou-se algo como “pode ser que sim, pode ser que não”. E é aí que falo que não. Não há nenhuma relatividade na excitação dos nossos corpos ao se encontrarem, no suor de nossas mãos, segurando umas as outras, sabendo que ali haverá sempre um porto seguro, não há relatividade nos seus olhos que me encaram e me dão a certeza de um futuro.

Não há “pode ser que sim, pode ser que não” nos nossos planos, nossas viagens, nossos desenhos, nossas provas e marcas de amor. Não há relativismo nas tuas mãos percorrendo meu corpo, muito menos na tua boca dizendo um baixinho e suave “eu te amo” na minha orelha.

Pois então, te digo que nosso amor, não. Ele não é relativo. Não cabe qualquer hipótese relativista, pois no nosso amor só há concretismo, só há realismo, só há futurismo.

sexta-feira, 19 de março de 2010

É impossível ser feliz sozinho?

Sexta-feira, 23h, chuva torrencial lá fora e ele já se sentia mal. Banho tomado, roupa vestida, perfume no cangote e a notícia, via twitter – direto no seu blackberry, de que a festa estava cancelada por conta da chuva. Afinal, onde já se viu luau na praia com aquela tempestade?

Mas sexta é dia de balada. Dia de pegação. Ficar em casa e ver TV estava fora dos planos. Nem uma das garotas da lista se dispôs à ir a casa dele. E não rolou nenhum convite a ir à casa de ninguém. A fome bateu. Nem o hot dog da barraquinha na praia ia rola hoje. E agora?

Agora que ele se deu conta de que podia ficar sozinho. Podia cozinhar pra ele mesmo e beber aquele vinho guardado pra um momento especial com a ex-namorada que nunca chegou e agora não ia mais chegar.

Colocou uma música no som, foi pra cozinha ver o que tinha na geladeira. Massa era uma boa pedida para acompanhar o vinho. Mas não tinha. “E daí? Vou comer o que eu tiver vontade.” E um mexido de ovo, arroz, feijão, cenoura e queijo nunca harmonizou tão bem com um malbec argentino.

Som rolando, comida na mesa, vinho na taça. Ele até dançou sozinho. E relembrou que é, sim, - desculpa Tom Jobim - possível ser feliz sozinho. Nem que seja só por alguns instantes. Afinal, amanhã é sábado e tem mais balada à vista.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Quando dois se bastam

- Por quê? Por que tanta alegria, tanta risada? Você consegue me explicar?

Foi o que me disse a vizinha assim que abri a porta. Era domingo e nós terminávamos um almoço tardio – como sempre são os almoços de domingo – regado a muito vinho e um delicioso risoto de funghi preparado pela Clarinha.

Não sei se foi o vinho, mas não me recordo de estarmos rindo tanto assim, a ponto de incomodar a vizinha. Aliás, desde quando alegria incomoda alguém?

- Como?

Foi a única reação que tive.

- Eu quero saber, Sr. Tiago, a razão de toda essa euforia, toda essa alegria, todas essas gargalhadas. Por quê? O que traz a vocês dois tanta felicidade? Vocês são sozinhos! Não tem amigos, não tem filhos, não tem família. Estão aí, só os dois, e parecem que estão na maior festa do mundo. Dá para explicar? Nem um cachorro vocês têm!

Eu e Clara havíamos nos mudado a pouco tempo para aquela casa. Assim que nos estabelecemos, a vizinha – Neide é o nome dela – veio bater à nossa porta. Trouxe um cartão de boas-vindas feito pelos seus dois filhos. Os meninos deviam ter entre 5, o mais novo, e 10 anos, o mais velho. Eles desenharam em uma folha de papel um casal, que presumi sermos nós, e uma família com pai, mãe e dois pequenos meninos de cabelos arrepiados, que imaginei como sendo eles. No alto da folha, em letras de forma estava escrito: BEM VINDOS VISINHOS VIZINHOS.

Ela foi simpática e disse que estaria à disposição para tudo que precisássemos. Perguntou sobre nossos filhos – os quais ainda não estamos pensando em ter –, convidou Clara a conhecer o grupo de ginástica do bairro, indicou uma diarista para ajudar com os serviços domésticos. E prometeu um filhote de Pastor Alemão da próxima ninhada de seu casal de cães. São premiados os bichinhos.

Mas o que mais me assustou foi a relação que ela criou entre sermos sozinhos X sermos felizes.

- Como assim, sozinhos?

Foi tudo o que consegui retrucar. A essa altura, o gênio cricri da Clara já estava atrás de mim na porta, bufando e querendo saber o que estava acontecendo.

Tá certo que a casa era muito grande para só nós dois. Mas isso não tem nada a ver com nossa família e amigos. A mãe da Clara – sogras! – passava sempre por lá. Minha mãe – sogras, de novo! – não deixava passar uma semana sequer sem dar o ar de sua graça. Meus irmãos e uma amiga-irmã da Clara – ela não tem irmãos de sangue – já dormiram várias vezes no quarto de hóspedes. E nossos amigos também sempre aparecem para um jantar, ou almoço, ou só mesmo pra jogar conversa fora. Não tinha essa de sozinhos.

- Sozinhos! S-O-Z-I-N-H-O-S. Sem ninguém para fazer companhia. Sem crianças correndo e gritando para preencher o vazio dessa casa. Sem um cachorro para fazer guarda. Sem uma empregada para varrer e lavar suas roupas. Sós. Vocês não são uma família normal. E ainda assim estão aí nessa algazarra, rindo, ouvindo música, cozinhando e bebendo vinho. Como vocês fazem isso sem ter alguém pra partilhar?

- Acho que a gente se basta, dona Neide. É só isso. Um faz companhia pro outro e não precisamos de muito mais que isso. Crianças serão benvindas, quando for o momento certo. Cães serão ótimas companhias, quando quisermos ter outra companhia. E nossas famílias, bem... nossas famílias estão sempre por aqui. Mas acho que a resposta mais direta para a senhora é só mesmo essa: a gente se basta, se completa e assim tá muito bom. Não precisamos de uma vida tão cheia e tão completa. Pelo menos não no sentido que a senhora diz. Não com essas coisas que a senhora considera importantes.

Ela murchou e começou a chorar. Chorava como há muito tempo não via ninguém chorando. Soluços doloridos, um choro raivoso. Clarinha ofereceu sua taça de vinho. Ela recusou, virou as costas e saiu andando. Um pouco mais à frente virou-se, balançou a cabeça e pediu desculpas.

Uma semana depois, também já no fim de um almoço – com amigos, registre-se – veio nova batida na porta.

- Boa tarde. Vim buscar a mudança da dona Neide.

- Dona Neide? É a casa amarela. Aquela ali do outro lado da rua.

- Desculpa! A dona ligou tão aperreada que nem anotei o endereço direito. Pensei que fosse casa 12.

- Tudo bem.

- Boa tarde pro senhor. Muito obrigado.

- Por nada. Bom trabalho pra você.

Neide tinha descoberto que o marido a traía. Viu ruir toda a estrutura de boa família que ela vinha construindo. E surtou. Parece que agora está morando lá do outro lado da cidade e se consultando com um psicólogo para poder entender que é possível ser feliz sozinha. Ou com alguém que se ama.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Com o tempo passa

“Como pode ser gostar de alguém e esse tal alguém não ser seu? Fico desejando nós gastando o mar. Pôr-do-sol, postal, mais ninguém...” A Vanessa da Mata tocava no som do carro enquanto ela dirigia e, chorando, lembrava que lhe disseram que com o tempo passaria. Na primeira semana – recheada de dor, desespero, solidão e intermináveis lágrimas – ela acreditou piamente naquilo.

No mês que se sucedeu – trinta dias cobertos de indagações como “será que eu volto atrás?”, “será que ele ainda me quer?”, “será que se eu enfiar o dedo na tomada morro eletrocutada?” – ela ainda tentou acreditar naquilo. Pensou que seria questão de dias para esquecer tudo.

“Peço tanto a Deus para lhe esquecer, mas só de pedir me lembro...”, continuava a cantarolar o rádio. E o tempo passou e o sentimento permaneceu. Batia ali aquela dúvida, aquele medo, o receio de quem fica só. Soprava em seu ouvido a melodia da tristeza, o uivo do lobo solitário. Ressoava em seu peito o eco do isolamento.

Dois meses, três. Algumas tentativas de recomeçar de outro jeito. Viagens para esquecer, tentativas de novos affairs, novos amigos, nova vida. Mas tudo voltava a ele. “Sinto que você é ligado a mim. Sempre que estou indo, volto atrás. Estou entregue a ponto de estar sempre só esperando um sim ou nunca mais...”.

Mas ali, em meio ao trânsito e às lágrimas, ela percebeu que não, não passaria com o tempo. Que não sumiria o desejo, o respeito, a parceria e muito menos o seu sentimento. O seu amor. De supetão entrou no primeiro retorno e tomou o caminho que há muito não fazia. O caminho dele. Ela precisava voltar. “É tanta graça lá fora passa o tempo sem você. Mas pode sim, ser sim amado e tudo acontecer. Quero dançar com você. Dançar com você. Quero dançar com você.Dançar com você êêêê”.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Cíclico

Ela não sabia ao certo quando, nem como, nem por que, mas tinha certeza que já não sentia da mesma forma. As piadas não tinham mais a mesma graça. O beijo não tinha mais o mesmo gosto. O abraço já não era tão apertado.

Ela não sabia quando, nem como, nem por que, mas sabia que algo estava diferente. E era o sentimento. Aquilo que ela já não sentia mais. Algo que ela precisava voltar a sentir e, com certeza, não era mais com ele.

Ela sabia que precisava dizer tchau. Só que também não sabia como, nem quando. Sabia por que. E acabou por fazer da forma mais simples e direta: “Não te amo mais. Pra mim já acabou.”

O peito doeu. Os olhos choraram. A cabeça girou. O sentimento de perda foi inevitável. E a cada lembrança o coração palpitou. Mas depois de um tempo a leveza voltou a tomar conta dela. Aquela leveza de quem anda nas nuvens, de quem canta sozinho, de quem ri de tudo.

Não sabia como, não sabia quando, não sabia por que. Mas sabia que era uma nova paixão.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

CLIPPING

Pois então, tem uma rádio bem bacana na Internet chamada Elo FM. Lá, o Alexandre Lanna Lins tem um programa chamado Blog da Vez, que nas palavras do próprio é um "espaço para quem produz conteúdo de qualidade na internet." O programa apresenta, diariamente, um blog legal.

E nós, aqui do Historias de um Momento, fomos protagonistas de um programa na semana passada. Pode entrar lá e ouvir o que ele diz. Bom proveito!

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Arco-Íris dos relacionamentos

É difícil relacionar-se com outras pessoas. Fica ainda mais difícil quando você gosta de alguém que não gosta de você. E por que ela não gost de você? Por que gosta de outra? Dizem que é a diversidade. Que gosto cada um tem o seu. "O que seria do vermelho se todos gostassem do azul?" é o que dizem alguns.
Bobagem. Bom mesmo seria se todos gostassem do azul. Assim não haveria tantos traumas, tantas dores, tantas desilusões. É azul? Gosto! Não é? Não gosto. Fácil e simples. Mas a vida não é assim. Há, claro, os que gostam do azul. Mas também há os que preferem o verde, o vermelho, o amarelo, o preto com listras rosas, o lilás com bolinhas douradas...
E para sobreviver nessa brincadeira de caixinha de lápis de cor o mais importante é descobrir a variedade de tons. Porque pode acontecer de você gostar do vermelho sangue, vivo, forte, aquele que chama muita atenção e ele não gostar do seu azul-céu (por mais sentimentos de paz e infinitude que ele possa trazer).
E é aí que vale buscar por outro tom: um vermelho mais claro, mais escuro, com bolinhas, xadrez, mais puxado para o rosa, puxado para o salmão. Enfim, a aquarela é enorme e há uma imensidão de tonalidades possíveis para se criar no mundo das cores. Com certeza uma vai te agradar. E você também agradará alguém. Mesmo que esteja em um daqueles seus dias desbotados.