sexta-feira, 23 de março de 2007

A Cicatriz

Uma cicatriz é uma marca. Normalmente, um sinal feio. Branca, vermelha, grande, pequena. Não escolhe raça, idade ou sexo para aparecer. Todo mundo sempre carrega uma.

Ela pode trazer diversos significados. Uma aventura na infância, daquelas de pular cerca com arame farpado ou uma queda de bicicleta. Uma mordida de cachorro, uma briga com o irmão e até uma queda na escada podem deixar marcas.

Outras cicatrizes podem não trazer lembranças saudosistas de uma infância de aventuras e desventuras. Esses sinais podem ser resultantes de acidentes mais sérios, da vida adulta. Uma batida de carro ou uma briga com conseqüências mais perigosas como uma facada.

E também tem aquela cicatriz de amor. Aquele sinal marcado dentro do peito. A que dizem ser a mais difícil de sarar, porque quando você acha que ela está fechando, algo acontece e a rasga novamente. E sangra tudo de novo.

E ainda tem as cicatrizes como a de Carlos. Aquelas que são uma mistura de todas as outras: ele carregava uma marca, um sinal no peito. Era um resquício de amor, tanto no seu sentido poético, quanto no seu sentido sexual. E também uma mistura de alegria de criança com o perigo das relações adultas.

Um arranhão. Foi o que deixou a cicatriz em seu peito. Vermelha como o esmalte pintado na unha dela na noite em que, morta de prazer, lhe apertou tanto que ficou marcado.

Ardeu, ficou ferido e depois cicatrizou, mas ele repetiria aquela noite e ganharia várias outras marcas em seu corpo se fosse possível. Não pensaria duas vezes em entregar seu corpo à flagelação dos arranhões dela se todos acontecessem da mesma maneira.

Carlos carregava aquela lembrança em seu peito. E todos os dias, em frente ao espelho, ele sonhava em ter novamente as unhas dela – pintadas de vermelho – cravadas em seu peito. Um prazer absoluto.

domingo, 18 de março de 2007

Como uma lua

Tenho fases de ser inteligente. Fases que falo “abrido” em vez de aberto. Fases que morro de manhã e ressuscito de noite. Ora fico em casa, ora saio a rua sem ter muito pra fazer. Tenho fases que prefiro a parede ao sorriso de uma bela moça. Fases de gostar mais, fases de gostar menos. Também tenho fases que não gosto. Ou melhor, fases que detesto. Momentos péssimos de serem vividos, mas que precisam ser vividos.

Tenho fases de insegurança. Em outras fases eu tenho tanta segurança que me sinto inseguro. Tenho fases de achar-te linda. Em outras quero que Deus me devolva o domínio sobre meus sentimentos e peço a Ele que me revele o quinhão de feiúra da mulher amada. Tenho tantas fases que acredito ser a lua. Mais adiante, tudo fica tão igual que penso ser o barulho do mar.

Tenho fases que sinto frio. Fases que sinto calor. Às vezes quero ser extremamente frio. Nessas fases penso em contratar um caminhoneiro ou um caixeiro para me legar uma pitada de ignorância e desprendimento. Em momentos quero afastar-me de tudo ao meu redor. Em outros quero tudo de volta, como se fosse uma criança que “ora quer o que quer, ora quer o que querem que ela queira”. Tenho fases que me orgulho de ser doce e amável. Fases que me orgulho de ser tolerante, discreto, amigo, alegre, chato, inconveniente, burro, maduro, infantil e amado. Em outras me sinto um deserto por isso. Acho que tenho fases que queria ser eu, fases que queria ser você.

Mas de todas as fases a que eu gosto mais é quando tudo parece normal. Quando nada acontece, mas há um iminente perigo no ar, como a calmaria antes da tempestade ou a excitação antes da depressão. Tenho fases de pensar na vida, fases que a deixo me levar. As vezes quero carinho, as vezes quero que percebam que quero carinho. As vezes me sinto muito caro, as vezes sou a deflação em desatino. Tenho fases de falar muito, fases de falar pouco. Tenho fases que sou o problema. Tenho fases que sou a solução. Tenho momentos de achar tudo engraçado.

Em certas fases eu te entendo. Na maioria delas não. Quando penso que te entendo, chega a fase do caminhão, que atravessa a via na minha preferencial, atropela o coração e me afasta de novo de ti. Tenho fases que sou sincero. Em outras não. Vivo momentos que te sinto de verdade. Em outros, te sinto de mentira. Tenho fases de ser exigente. Fases que detesto gente. Ontem tive a fase da desunião, que é quando o sentimento desmaia como se nunca mais fosse acordar. É apenas uma fase. Logo ele volta e reascende a fase do desejo. Hoje estou na fase da delação, que é quando fofoco pra mim tudo que penso ser e descubro que queria ser tudo que escrevi. Aí está o começo da fase da ilusão.

segunda-feira, 12 de março de 2007

A máquina de Jonas

Já reparou como o tempo passa rápido quando estamos com alguém que gostamos, ou quando estamos fazendo alguma coisa bem divertida? Aquela tarde com a namorada, cheia de beijinhos e abraços passa feito avião da aeronáutica em dia de sete de setembro. E aquele bate papo com os amigos, em baixo do bloco, em uma sexta-feira à noite...Quando vê já são duas da manhã. Isso sem falar no sono né?!?! Nunca é suficiente, sempre precisamos de pelo menos mais dez minutinhos.

E quando estamos fazendo algo chato?? Aquela aula de matemática que nunca termina. Aquela amiga chata que liga bem na hora do futebol pra chorar porque a calça jeans não cabe mais nela, ou sua avó que quer saber se você melhorou daquela dor de ouvido de seis meses atrás.

E foi pensando nisso que Jonas decidiu inventar aquela máquina. “Máquina de Inversão”, era como ele a chamava. Isso porque a sua finalidade era justamente a de inverter o tempo. Como? Trocando essas situações que falei acima.

Assim, com sua Máquina de Inversão, Jonas fazia a aula de matemática passar mais rápido que um trem bala (mesmo que ele nunca tenha visto um) e a fila do banco quase não existia. Engarrafamento então, nem pensar. Jonas fazia todas as coisas chatas correrem com os ponteiros do relógio e com isso ganhava tempo para as coisas legais.

As tardes no parque jogando bola eram intermináveis. Uma bola de sorvete durava mais que um pote inteiro, e o jogo do seu time - quando estava ganhando e jogando bonito, é claro - durava muito mais que os dois tempos de 45 minutos. Mas o melhor, o bom mesmo, aquilo que fazia Jonas botar sua máquina pra funcionar mais rapidamente era quando encontrava com ela. Fabiana! Ahh... Jonas se derretia todo. Os carinhos, cafunés, beijinhos. A máquina quase explodia de tanto que funcionava, mas para Jonas essa tinha sido a maior razão de construí – la.

Naquele momento, para Jonas, o tempo passava lentamente. Mais devagar que bicho preguiça se espreguiçando. Parecia que você, atrasado para a reunião mais importante da sua vida, parou em uma faixa de pedestres para esperar a travessia de uma família de caramujos acompanhados por sua amiga lesma. Nunca, nuca algo poderia ser tão lento. E era isso que fazia Jonas feliz. Aquele instante era algo mágico e se eternizava.

E agora você deve estar se perguntando: “Como ele construiu a tal máquina?” “Será que ele me empresta um pouquinho? Quem sabe não me vende?” E é aí que eu deixo o Jonas falar por ele: “Cada um tem sua própria máquina. Basta saber como fazê-la funcionar, e essa é a parte mais fácil. E só você pegar aquele tempo bom, nem que ele tenha durado só um segundo, e guardá-lo bem na sua memória. Pronto, você bota sua máquina pra funcionar usando a memória. Reviva o segundinho bom se lembrando o quanto foi gostoso, as sensações e tudo mais sentido naquele momento. E as coisas ruins você deve apagar da memória. Dessa maneira não precisa ficar relembrando nada que não deseje. Simples...”

Ouvi dizer que agora Jonas está tentando aprimorar a máquina. Em vez de passar o tempo devagar, vai faze-lo parar. Eita sujeitinho esperto esse Jonas! Que houve? Leu o texto rapidinho? Ah, comece a botar sua máquina pra funcionar então...

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

Sono

Ela não conseguia dormir. Rolava de um lado para o outro. Cobria-se sentindo frio, descobria-se com calor. Um travesseiro a mais na cabeça. Outro entre as pernas. Um copo d’água. Algumas páginas de um livro meio chato sobre a Revolução Francesa. Sessão Corujão na TV. Nada a fazia dormir.

Já fazia um mês que isso se repetia. Toda noite a mesma ladainha. Ela nem pensava mais em ir deitar-se. Dava boa noite à todos, entrava no quarto e lá ficava. Começou a escrever um diário. Sentada em sua escrivaninha, escrevia tudo o que havia feito durante o dia. Até poesia começou a escrever. Não era nenhuma Cecília Meireles, mas era a maneira de expressar seus sentimentos.

As noites passavam e mais seus sentimentos se esvaiam nas folhas do diário. E daquela forma ela começou a tentar achar o por que de sua insônia. Funcionava como uma terapia. Palavras, sensações, lembranças, tudo no papel para tentar adormecer. E mais de um mês havia se passado.

Até o dia em que ela o encontrou novamente. Meio sem jeito, sem saber como agir depois de tudo o que tinha lhes acontecido, ela deu um sorriso e acenou com a mão. Ele – parecendo ainda mais sem graça – respondeu da mesma maneira. Saíram, cada um para uma direção diferente. Andaram em círculo e, distraídos, acabaram topando um no outro.

Ele a segurou com um abraço, daqueles apertados, que a gente dá quando tem muita saudade. Ela não retribuiu. Simplesmente caiu no sono. E desta forma, ao acordar no dia seguinte com ele ao seu lado – vigiando os seus sonhos –, descobriu que o que lhe faltava para dormir era o peito dele para descansar a cabeça, seus braços lhe apertando, seu corpo lhe aquecendo e seu cheiro que trazia a calma necessária para uma noite tranqüila de sono.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

Quem procura...

- Oi?
- Oi. Tudo bem?
- Tudo tranqüilo. Saudade de você.
- É mesmo?
- É. Desde aquele dia no clube eu não parei de pensar em você.
- Por isso resolveu me ligar agora?
- Foi.
- Olha, Lu, você sabe que eu ainda não engoli aquela história, né? Tudo que se passou foi foda pra mim. Aquele cara era meu conhecido e você sabia disso. Meu conhecido não. Fazia alguns dias eu andava com aquele filho da puta! E ele teve coragem de pegar minha ex.
- Desculpa, Roberto. Eu tinha bebido o dia inteiro, amor. Tu sabe que quando eu bebo lembro das coisas ruins que aconteceram com a gente e começo a fazer essas merdas. Aquilo não era eu!
- Era você sim, Luciana. Pare com isso! Eu vi com os meus olhos. Eu cheguei no clube, falei com você, achava que tava tudo bem. Quando olho pro lado, você sumiu e o Fernando também. E onde você estava? Ora... na sauna!
- Você nunca mais vai esquecer isso, né?
- Nem isso, nem esse monte de besteira que você fez nas vezes que brigamos. Você só faz merda, Luciana. Essa agora foi a pior de todas. Você acha que é fácil encontrar uma namorada de três anos com as mãos dentro da cueca de um amigo?
- Ex-namorada, Roberto.
- Que seja, porra. E se fosse eu que tivesse com a mão dentro da calcinha da Julia? O que você faria? Que droga! Você tem a mania besta de só olhar pelos seus olhos. É uma ingrata.
- Me desculpe, amor, por favor.
- Tá bom, menina. O que você quer afinal? Me liga só pra me lembrar essas porcarias?
- Não, Rô. Na verdade, eu queria te avisar uma coisa. Sei que você ficou com raiva de mim por eu ter ficado com o Fernando. Então te liguei pra dizer que... que... que...
- Que o quê, Luciana? Desembucha, sua louca!
- Que eu fiquei com o Gustavo.
- Gustavo? Que Gustavo? Não conheço nem um Gustavo.
- O seu primo.
- O quê? Sua desgraçada! Como você teve coragem? Logo o Gustavo? Puta que pariu. Eu estou rodeado de filhas da puta. Todo mundo resolveu pegar minha mulher agora. Imagina se você fosse bonita e gostosa, hein?
- Olha, Roberto. Tô fazendo um favor de te avisar. Não vem me ofender, não.
- Mas é mesmo. Você é muito oferecida. Não sei como eu passei três anos namorando contigo, sua rapariga. Devo ter levado uma dezena de chifres.
- Rapariga é a tua mãe. E tu levou um monte de chifre mesmo.
- Ah! é? Com quem, hein?
- Vamos parar com isso. Vou desligar o telefone.
- Não vai desligar, não. Diz, sua gordinha de merda. Quem foram os caras?
- Gordinha de merda é a tua vó, Roberto. Não tô te reconhecendo, cara. O quê isso? Por que tá me tratando assim?
- Com quem, Luciana? Responde!
- Que saber mesmo? Então tá. Sabe aquele dia do churrasco do teu aniversário, que eu passei mal?
- O que é que tem?
- Eu não passei mal coisa nenhuma. Tava era fingindo para encontrar com o TEU IRMÃO no quarto dele.
- O QUÊ!!!! SUA...
- Seu corno...
- QUEM?!?!?!

tu. tu. tu. tu. tu. tu. tu. tu.....

sábado, 10 de fevereiro de 2007

A decepção

Nada do que se constrói é deixado pra trás. Quando Lúcio ouviu pela primeira vez essa frase, ele acabara de comprar uma lata de molho de tomate para fazer macarrão. Saiu do mercado e deparou-se com uma garota caída. Bonita, de pele limpa e olhos sutilmente puxados, ela fazia força para se levantar e comprimia as sobrancelhas reclamando de dores no pé. Naturalmente, torcera depois de quebrar o salto. “Coisas de mulher”, pensou o rapaz.

Ao pé da loja, deu a mão à garota, pegou seus livros caídos e perguntou onde ela morava. “Muito obrigada por me ajudar. Me chamo Michele”, disse. “Ah! desculpe. Sou Lúcio. Machucou muito?”. “Não, obrigada”. “Então... você mora aqui perto?”. “Na quadra sete, atrás da padaria”. “Ora, que bom. Moro na cinco. Se quiser posso te deixar em casa”. “Não, obrigada. Ainda tenho que estudar antes de ir”, respondeu, indo embora e sorrindo. “Ok, foi um prazer”.

Tempos mais tarde, o ansioso e inseguro Lúcio chega em casa e, da sacada, avista a menina dos saltos andando em direção a quadra sete. Gritou, acenou, sorriu e perguntou em que andar ela morava. “Quarto!”, respondeu. Naquela noite, fez macarrão para reunir os amigos. Ele adorava espaguete. Nos dias seguintes, buscou aproximação com Michele e em poucas semanas estavam saindo.

Em um mês começaram a namorar. Em três se amavam e em um ano a única busca do rapaz era decifrar a garota que lhe encantara e parecia tão distante. Namoravam firme. Foi assim durante um, dois, três... No quarto ano eram praticamente casados. Dividiam as mesmas amizades, falavam e gostavam das mesmas coisas, moravam praticamente juntos, mas ainda haveria muito a se descobrir.

Nada do que se constrói é deixado pra trás, pensava Lúcio, sobretudo quando comprava molho para o macarrão que tomaria com vinho tinto. Aos 26 anos, tinha um bom trabalho, boas amizades e uma boa namorada. Ela, embora reservada e misteriosa, parecia amá-lo, mas não compartilhava com ele os mesmos planos. Tinha dificuldades em se entregar totalmente. Era formada, mas não suportava o ofício. Coisas de mulher, pensava ele.

Na sexta-feira, ele combinara em sua casa com vários amigos. Comeriam macarrão e beberiam vinho. “Vou chamar a Marisa pra me ajudar a arrumar a casa”, falou Michele. “Tudo bem”, respondeu. Marisa era a única solteira do grupo. Tinha dificuldades em arrumar namorados e todos se compadeciam com aquilo. Por isso a chamavam para as festinhas íntimas. “Vou à casa dos meus pais, depois compro o macarrão e volto”, disse.

Desceu o prédio, cruzou com Marisa no elevador, entrou no carro e ligou para os pais. Eles estavam viajando. Então só foi na padaria, comprou algumas guloseimas, o macarrão, o molho e voltou pra casa. Conversou alguns minutos com o porteiro. Como sempre, avisou da festa. Subiu, abriu a porta da sala e viu um sutiã no sofá. Estranhou a bagunça. Michele sempre fora organizada. Cruzou o corredor, entrou no seu quarto e viu sua namorada apertar fortemente os seios da amiga, preparando-o para beijá-lo. A nudez tão nítida das duas empalidecia o semblante derrotado do namorado. O que era aquilo?

Ele fora traído. Sua namorada era lésbica e parecia mais excitada do que todas as transas que tivera com ele. Tudo passava muito rápido por sua mente. Lúcio buscou a maçaneta. Equilibrou-se. Michele saiu de cima do corpo da amiga e catou o canto da cama. Ela acabara de soltar um grito fino, de espanto. Puxara o lençol para encobrir os seios e apalpou a cama duas vezes. Procurava o sutiã. Estava na sala. Calou-se, então, sem conseguir se mexer. Lúcio também. A amiga solteira havia levado a mão à testa e sussurrado um caralho! como se estivesse diante do fim do mundo. Lúcio olhou calmamente para as duas e pediu: “Vou tomar um banho. Quero que vocês se vistam e saiam da minha casa”.

Deixou as compras na cozinha e entrou no banheiro. Banhou-se com água, com lágrimas e com decepção. Seu coração batia forte. “Nada do que se constrói é deixado pra trás”, lembrava da frase que já não lhe fazia sentido. Prometeu nunca mais encontrar a sua companheira de quatro anos. E assim o fez. Às sextas-feiras, quando sai da padaria com o molho para o macarrão, pensa: “Tudo que se constrói fica pra trás”. Ele modificou a frase. Deixou-a mais segura e realista. Assim pôde se apegar sem crer em eternidade. Entendeu que, na vida, nada é pra sempre.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

A vilã arrependida

A tristeza nos olhos da menina soava como um funeral em praça pública. Sentada ao lado de uma máquina de sorvete, ela parecia uma indefesa criatura solta num mundo selvagem. Mas o show naquela noite era de rock. A máquina de sorvete nada tinha a ver com aquele clima. Ela estava apenas escorada, no aparelho e em seus pensamentos. Há pouco tinha cometido um dos grandes erros de sua vida. Mas como todos os erros da vida, só percebeu a merda depois que ela aconteceu.

Ao seu lado, acomodou-se um conhecido chamado Arrependimento. Ele é vizinho da Tristeza. De porta! Estão quase sempre juntos. Na maioria das vezes, a Tristeza vai embora primeiro que o Arrependimento. Mas, naquele momento, a menina dos olhos de mel, chamada Melissa, sentia a presença do arrependimento e isso lhe causava enorme tristeza.

O fato que levou Mel a esse estágio de reflexão foi sua imatura vontade de viver bem rapidamente tudo que tinha a sua volta. Ela, uma garota de 24 anos, namorou dos 16 aos 24 com dois rapazes diferentes. O primeiro durou quatro anos. Nunca aproveitou a plenitude de sua “solteirice”, embora tivesse aproveitado bastante enquanto tinha um namorado. Mas, antes daquele show de rock, ela admirava a vida das amigas solteiras. Gostava da maneira como se sentiam livres e queria ser igual a elas.

Uma semana antes, esses efeitos foram sentidos no seu relacionamento. Foi se distanciando de André, com quem namorava há dois anos e meio. Em uma semana, estava decidida a acabar. Queria mesmo era ficar só. Tomou a decisão e avisou ao namorado. Decretou sua solteirice numa quinta-feira. Saiu na sexta e saiu no sábado. No show de rock, bebeu demais. Sentiu vontade de ficar com um “carinha” qualquer e ficou. Sem compromisso, só para testar a liberdade.

Mas ela não esperava que André passasse, acompanhado de seus amigos de sempre, e presenciasse aquele beijo tão quente. Quando Mel abriu os olhos, viu que o recente ex-namorado a encarava, com um ar de tristeza, decepção, raiva, surpresa, pavor, choque... enfim. Ele estava visivelmente abalado. Ela ficou mais ainda. Como se não bastasse, reparou que o rapaz limpava os olhos com a camisa. Eram lágrimas! Ela acabara de demolir um coração.

Mel não conseguiu tirar os olhos de André por um bom tempo. Por dentro, um sentimento de pânico e uma vontade desatinada de chorar. Ela se afastou do garoto que acabara de beijar e isolou-se na sua tristeza, pensando no que fazer. Percebeu então que André se despedia dos amigos. Ele sucumbira àquela cena. Iria para casa. Tentaria se recompor.

Foi quando Mel andou rápido, quase correndo em desespero. Segurou em um dos braços de André e o rapaz parou. Não fitou seus olhos. Silenciou e aguardou qualquer comentário da ex-namorada.

- André... olha... Eu não sei o que aconteceu comigo. Isso não teve nada a ver. Eu juro... Eu não queria.

Cada vez mais, o olhar do rapaz demonstrava irritação e decepção. Ele não a encarou em nenhum momento, como se estivesse enojado. Ela prosseguiu:

- Meu amor, eu juro. Me perdoa. Eu não sou assim. Você sabe. Não fica assim comigo. Vamos conversar.

André a interrompeu, olhou bem fundo nos seus olhos e começou a falar.

- Melissa, eu quero que você lembre de tudo que eu fiz por você, por nós dois, e se arrependa. Eu nunca quis te deixar. Você me deixou e parecia bem decidida. Agora, eu percebo o quanto imatura e desorientada você está. Você quer saber se eu te perdôo? Claro que eu te perdôo. Mas não quero você nunca mais. Nossa história acabou de vez hoje. Não me procure de maneira nenhuma. Você não merece o amor que tenho por você.

Depois da última palavra, André virou a cara e foi embora. Mel deu quatro passos e sentou numa cadeira com um pé meio quebrado. Ao lado, uma máquina de sorvete. De cabeça baixa, colocou a mão no rosto e começou a chora, chorar e chorar. André não era maleável, jamais voltaria para ela, pensava a menina. Quem passava pela máquina de sorvete imaginava o que de tão terrível poderia ter acontecido com aquela moça com seus 24 anos aparentes.

Mel perdeu um amor por um estranho. Mas ela só quis viver bem sua mocidade. Que pena, encontrou a maneira errada. Acabou virando uma vilã arrependida e triste.

Eles pensam que sabem de tudo.
Pura inconsciência!
Tim Maia

quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

Enchendo lingüiça

É o seguinte: já que ninguém atualiza esse blog mesmo – eu por falta de tempo, Felipe também e Paulinho por indignação (já que está desempregado coçando o saco) – vou acrescer esse espaço com uma reflexão quase amorosa. Essa música ai embaixo é de um compositor maranhense chamado Bruno Batista. Muito bonita. Chama-se Aço.

Então, se você é daqueles que quer alguém e quem você quer não lhe quer assim... tipo... querendo (!) de verdade (Deu pra entender, parceria?), leia ai e prestigie uma poesia nesta quinta-feira que está louca pra ser sexta.

Aço

Tá pensando que eu sou de aço?
Tá pensando que eu sou o quê?
Tá pensando em deixar-me em pedaços?
Tá pensando que eu sou de aço?
Tá pensando que eu sou o quê?

Se te quero tango em Barranquilla
És noiva na quadrilha do ipê
E se te quero Franco, és Picasso
Quando te quero régua, és compasso
Quando te quero, queres o quê?

Sou vazio por falta de espaço
Tá pensando que eu sou de aço?
Tá pensando que eu sou o quê?

segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

Cabecinhas ao vento

- Vai amor, só a cabecinha?!??!!!
- Não Maurício, já disse que não!
- Só um pouquinho, por favor...
- Não!
- Você nem vai sentir nada, prometo! Não vai doer, não vai machucar. Tenho certeza que você vai até se sentir melhor.
- Não senhor, eu sei bem como é essa história.
- Sabe nada. Você nem me deixa começar, como sabe o fim?
- Começa com a cabeça e depois, quando eu menos perceber, já foi tudo. Nem pense nisso... De jeito nenhum!
- Credo amor, você sabe que nunca faço nada pra te desagradar. Meus pensamentos são sempre seus. Faço tudo que você pede. Pensa um pouquinho em mim, vai? Queria tanto...
- Antes do casamento não, Maurício! De jeito nenhum. Depois pode à vontade. Mas até lá, a ordem é não.
- Ahhh... Não faz assim. Dá um beijinho aqui para você ficar mais doce e atender meu pedido...
- Não, sai, me larga! Não quero beijinho também não. Nem vem!
- Ai meu Deus, mas que mau-humor. Está parecendo a sua mãe.
- Não vem falar mal da minha mãe não, Maurício. Ela não tem nada a ver com meu mau-humor. Você é que tem.
- Só por causa disso? Um singelo e simples pedido de um homem apaixonado para sua mulher amada?
- É claro. Olha o que você me pergunta? Ta querendo ouvir um não e me deixar de mal com você, só pode! E nem vem com essa de apaixonado. Sabe que isso não funciona comigo.
- Ta bom, não está mais aqui quem falou. Num peço mais nada...

Cinco minutos de silêncio

- Luzia?
- Hããã...
- Luluzinha, meu docinho? Chuchu, coisinha mais gostosa.
- O que é Maurício?
- Sabia que você e a pessoa mais querida do mundo? Mais bonita, cheirosa e elegante também?
- O que você quer agora, Maurício Antunes?
- Posso perguntar outra coisa?
- Você não acabou de dizer que não ia pedir mais nada? Ô homem sem palavra, meu Deus. Fala logo...
- E o de trás, pode?
- Enlouqueceu, Maurício? Pirou na batatinha? Bebeu? Se estou dizendo não para o da frente, você acha que vou dizer sim para o de trás? Você está perdendo a noção mesmo. Minha mãe do céu! Olha o que eu tenho que ouvir...
- Só um pouquinho??
- Eu devo ter jogado pedra na cruz mesmo. Não é possível que você esteja me pedindo isso. Eu não acredito!
- Você nem tentou ainda e já está dizendo não. E se você tentar e gostar? Vai se arrepender depois.
- Você é que vai se arrepender se abrir algum desses vidros e estragar meu penteado antes de chegar ao casamento da Lurdinha. Eu sou madrinha, Maurício. Já imaginou uma madrinha toda descabelada em cima do altar? As pessoas vão perguntar: Aquela é a madrinha ou é o mico-leão dourado de estimação da noiva? E ainda quer dar beijinho pra me adoçar, olha só! Vai borrar toda a minha maquiagem. Você pirou, endoideceu, só pode!
- Ai que exagero Luzia! Eu to morrendo de calor dentro desse paletó. Você sabe que me sinto sufocado com essa gravata. Parece que vou ser enforcado pela inquisição. Já tive que usar isso no nosso casamento, agora tem o da Lurdinha, mês que vem o da Antônia e no outro o da Berenice. Não vou agüentar tudo isso não! Você sabe que odeio isso! Deixa eu abrir o vidro e por a cabeça pra fora, por favor! Já estou suando. Vou chegar lá todo empapado.
- Não Maurício. Já disse que não!
- Tende piedade de mim!
- Quem gosta de por a cabeça pra fora e tomar vento na cara é cachorro!
- Se eu abanar o rabinho e por a língua para fora, você deixa?
- Deus, por que o senhor não me fez surda? Por quê?
- Deixa?
- Não Maurício! Não, mil vezes não!!
- Saco!

Não tem jeito. Quando elas não querem, não dá nem a cabecinha...

sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

Morreu sem causa*

Depois que saía da escola, Neto, de 10 anos, descia o prédio com o irmão Thiago. Os dois iam para o gramado em frente à garagem. Gostavam de jogar bolinha de gude. Por vezes, Neto se irritava com as roubalheiras do irmão mais velho, de 12 anos. Ficava deprimido, chorava. Voltava para casa sempre tristonho. Mas nunca falava para a mãe o que acontecera.

Numa quarta-feira, ele repetiu o ritual. Mas, dessa vez, mudou de postura. Enfrentou o irmão. Os dois brigaram, rolaram no chão. Neto voltou pra casa com o canto da boca sangrando. A mãe bateu em Thiago. Neto sentiu-se livre. Espantou a submissão, embora estivesse triste por ouvir os gritos do seu irmão enquanto a mãe lhe desferia umas cintadas de correção.

Todas as noites ele perdia horas na frente da TV. Aos 10 anos, odiava desenhos animados. Preferia imagens de perseguição, programas sobre domadores de cobra, recordes dos Guinness Book e outras coisas que lhe ativavam a adrenalina do corpo. Tinha a mania de testar o que via na telinha. Desconhecia a frase: “Crianças, não façam isso em casa. É perigoso”.

Certa vez viu um camarada que enchia a boca de querosene e soltava fogo. Fascinado, Neto procurou o produto para repetir o feito. Não encontrou. Colocou álcool na boca. Como ardia muito, misturou-o a um pouco de água. Enrolou um jornal como se fizesse uma tocha e, quando ia levá-la para perto da boca, Thiago o impediu de “cuspir (ou engolir) fogo”, embora não tivesse a menor idéia do que o irmão mais novo fazia.

Porém, nessa quarta-feira, Thiago chorava no banheiro. Não queria nem papo com o irmão. Neto, nem um pouco preocupado com ele, assistiu a TV e ficou chocado com as cenas da morte do ex-ditador Saddam Hussein gravadas de um celular. Aquele enforcamento, os gritos, o aspecto sereno daquele homem barbudo lhe inspiravam naturalidade. O momento em que ele perdia o chão e ficava dependurado por uma corda, balançando levemente, fizeram o menino piscar duas vezes, assustado. Ele desligou a televisão e foi para o quarto.

Seu irmão, dono da cama de cima do beliche, ainda continuava no banheiro. Provavelmente chorando. Neto deitou. Mas a cena do barbudo lhe inquietava. Sem sono e sem ter o que fazer, ele resolveu tentar repetir o feito. Enrolou uma ponta do pula-corda na parte de cima da cama,a outra no pescoço e se jogou do beliche. Nem um gritou ressoou. O garoto morreu sem saber o que fazia. Morreu sem causa. Dessa vez, o irmão não estava lá para salvá-lo.

*Este texto é inspirado em uma história real.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2007

Muita calma nessa hora

Gente,

Como recebi muitos comentários e até ligações falando da depressão do meu último texto, vim fazer este post para explicar que isso é apenas literatura – ou uma tentativa – e não a minha vida. Eu não estou deprimido e nem penso em me matar! Podem ficar tranqüilos!!

Para acalmá-los então, segue ai um texto um tanto quanto mais esperançoso do que o meu. Ele é do colega Enrique Matute, que também é jornalista, além de fotógrafo, bom bebedor e pai da Sofia – não necessariamente nessa ordem. Aproveitem!


Querido Ano Velho,

Como vai? Está se acostumando no passado? Aqui no presente ano tudo às mil maravilhas, depois dos bailes e festas vieram a ressaca e os novos governantes... ai meu Deus, que perigo!

Saudades com certeza vão surgir ao longo deste novo período de nossas vidas, principalmente das situações boas e que nos serviram de motivação para dar seqüência aos planos e projetos.
Para 2007 surgiram promessas, desejos e muita esperança – este última eu fiz questão de não almejar, pois como você bem sabe, Esperança também é o nome de minha sogra e tenho medo do dito popular "esperança é a última que morre." Já pensou...

Desta vez a carta é pequena porque a minha passagem de ano foi entrincheirado no meio do mato, no interior de Minas Gerais, sem jornal, sem revistas semanais, sem televisão. Somente hoje assisti a umas notícias, li uns jornais e vi que pouca coisa mudou em dois dias, parece até que você, meu caro 2006, ainda não se foi de vez.

Alguns, ainda com o ranço, irão te mencionar ao assinarem o cheque, preencherem formulários com datas, etc. Nada que em dois ou três meses não se apague da memória dos mais distraídos.

Mas não deixe se abater, isso passa, assim como você passou. Assim como iremos todos passar um dia.

Despeço-me com alegria e tranqüilidade de quem teve um ano bom, proveitoso e recheado de desejos de melhoria para os próximos doze meses – para todos.

Um grande abraço e não se esqueça que você foi importante enquanto durou e marcou presença na história dos homens.

Enrique Matute

sábado, 30 de dezembro de 2006

Choque terminal

Vou dar cabo da minha vida. Puta que pariu! Vou sim, vou dar cabo dessa merda de vida! Que se foda! Eu vou dar cabo da minha vida. Que se exploda a merda daquela empresa que paga uma miséria e me explora como um burro de carga.

Eu vou dar cabo da minha vida. Danem-se a Ritinha, Mariana e todas aquelas outras vagabundas interesseiras que não me amam. Vou dar cabo da minha vida e pronto. Melhor amigo do homem uma ova, o Tico sempre foi um vira-latas preguiçoso. Não dá um latido sequer se aparecer um ladrão em casa. Vou dar cabo da minha vida.

Meus pais morreram e não tenho nenhum irmão. Vou dar cabo da minha vida sem se preocupar com família. Carro velho, desgraçado que só me deixa na mão. Quando não é motor, é roda, ou escapamento. Pro inferno! Vou dar cabo da minha vida.

Amigos-da-onça, bando de filhos-da-puta que só sabem falar mal pelas costas e fingir na sua cara. Eu não sei cobrar escanteio? Não agüento o tranco da pelada? Pra merda! Eu vou dar cabo da minha vida!

E ainda esse chuveiro fodido que mal esquenta a água. Mas para que tomar banho? Melhor morrer como um porco imundo. Definitivamente, vou dar cabo da minha vida.

Fechou o ralo com um saco plástico e deixou o box do banheiro empoçar. Segurou com a mão direita o chuveiro. Com a esquerda, o velho secador de cabelos da mãe, lembrança das tardes de sábado quando ela se arrumava para ir às compras. Ligou na tomada e morreu eletrocutado.

terça-feira, 26 de dezembro de 2006

A Ceia dos Mesquita

A ceia estava pronta. Quer dizer, pronta na verdade estava a casa, toda emperiquitada. A ceia estava quase pronta. Naquele ano, Paulinho Mesquita prometera se encarregar do peru. Mas para ele, não poderia ser qualquer peru. Ele tinha que matar, depenar e temperar. "Tem coisa mais sem graça do que comprar um peru no supermercado e esperar que o pino vermelho indique que a ave está no ponto?", questionava Paulinho para sua tia Carmella, típica italiana que fazia de tudo para participar dos afazeres, até mais do que o necessário, só para cobrar dos familiares depois. "Só eu que trabalho nesta casa".

Todo ano era a mesma coisa. Mas esse não. Paulinho proibiu tia Carmella de participar da preparação do peru. E também proibiu que ela pusesse os pés na cozinha. Desta vez ela não conseguiria beliscar as guloseimas espalhadas pelos balcões. Ele tinha que fazer tudo sozinho, afinal seria uma ceia inesquecível. Saiu cedo de Brasília, em direção ao Núcleo Bandeirante. Ao chegar na entrada da cidade, dobrou a esquerda, passou três sinais, fez o balão à direita e chegou. Não que tenha sido tão rápido assim, até porque a chuva que castiga o Planalto Central nessa época do ano fez alguns buracos naquele asfalto já desgastado pelo tempo. Mas enfim, ele chegou.

Com um facão que ele mesmo afiou antes de sair de casa, pulou para fora de seu carro e passou a porteira do sítio do seu Freire. Não precisava estar motorizado a partir daquele ponto. Os perus já podiam ser vistos. Os muitos perus que se espalhavam pelo sítio. Paulinho parou. Respirou. Fechou os olhos. Abriu os olhos e correu. Sem respirar, ele correu. Mas no meio do caminho lembrou que nunca tinha matado sequer uma galinha, imagine então um peru. Não que matar um peru seja tão diferente de matar uma galinha. Mas técnicas são técnicas e não se discute.

O velho Freire percebeu que Paulinho, de um súbito pique, havia congelado. Riu consigo mesmo, lembrando da primeira vez em que matara um peru. Não existiam sequer técnicas que diferenciavam as maneiras de se matar os diversos tipos de ave. Lembrou-se que foi ele mesmo, em pessoa, que criou as técnicas. Que foi ele quem escreveu sobre nisso. Que foi ele quem ganhou o famoso prêmio Avicultor do Ano, pela sociedade de avicultura do Núcleo Bandeirante. Paulinho desistiu. Parou. Congelou, como já havia percebido o velho. Voltou atrás e foi ao encontro de Freire.

- Seu velho viado. Nunca tinha me falado desta história de técnica. E agora, o que eu faço. Prometi, na minha casa, que mataria o peru, depenaria e temperaria.

- Mas eu não disse nada de técnica. De onde você tirou isso, menino - disse o velho, surpreso."

- Eu percebi que a curvatura angular dos perus são diferentes. Lembrei também que nunca havia matado uma galinha, mas sei que existe técnica para matar a galinha. E notei que você, com essa cara de otário, tinha um sorriso no cantinho da boca, desde que estacionei meu carro.

- Então eu acho que pensei errado sobre você. Pensei que fosse outro desses moleques que não reconhecem e nem dão valor ao meu trabalho. Posso te ensinar a matar um peru, mas isso pode demorar. Te aconselho a aceitar que eu mate o peru. Você conta para a sua família e volta aqui depois do ano novo.

Dito e feito. Paulinho aceitou. Mas acordou. E quando acordou percebeu que estava em casa com sua tia Carmella. Ela reclamava como sempre. E se certificava se o peru semi-pronto já estava com o pino vermelho levantado. Paulinho olha para o lado. Em sua cabeceira, ele lê o título do livro: Manual de um bom jornalista: técnicas são técnicas e não se discute. Na casa dos Mesquita tudo continuava o mesmo. Que sonho bizarro!

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

Dois traidores

Tudo estava normal. Amigos se encontravam num bar, bebiam feito loucos e, procurando dispensar qualquer limite, procuravam a casa de alguém para estender a noite. Dito e certo. Depois das 3h, foram para a casa do Márcio, agradável homem de fora que fazia animados encontros no seu pequeno apartamento. Todos gostavam, afinal, a casa era nossa!

Cervejas na mão, violão também, a farra continuava. Naquela noite as mulheres e homens eram todos conhecidos e, naturalmente, afeitos ao “se rolar rolou”. Fiquei sentado, tranqüilo, tomando uma latinha e conversando com amigos do trabalho. Patrícia, uma amiga feia, mas sensual, era a mais prejudicada por algumas doses de cachaça e outros muitos goles de cerveja. Dançava, rebolava e cantava, excitando os colegas.

Foi naquele encontro que percebi definitivamente que uma postura minimamente sem vergonha pode denunciar os extintos mais traidores de uma mulher. Patrícia, a feia sensual, sentou no colo do Márcio. Eles eram mais amigos que todos nós lá. Fora Paty que apresentara a namorada de Márcio, pessoa a quem ele parecia gostar muito e que não estava lá nessa noite. Paty e a namorada eram melhores amigas... de infância!

O fato, no mínimo estranho, ocorreu quando ela, ainda sentada nas pernas do dono da casa, agarrou sua mão discretamente, a apertou e rebolou em seu colo. Fez uma vez, e mais uma e mais uma... e várias vezes! Talvez ela pensasse que ninguém estivesse de olho naquele amasso no meio da sala. Mas os dois não viram que vimos.

Tempos mais tarde percebi que ambos sumiam e apareciam minutos depois. Entravam no quarto, na cozinha, no banheiro. Paty e o namorado de sua melhor amiga, cúmplices de um crime repleto de imperfeições. Num desses sumiços, resolvi investigar e entrei no quarto de sopetão. Num leve abrir da porta, escutei um leve gemido. Resolvi escancará-la rapidamente, para que não acreditassem que eu estava ali espiando. Abri a porta com força e fiz com que pensassem que tudo fora um acidente. Tudo mesmo.

E foi o que aconteceu. Com um olhar, dei-lhes segurança para que pensassem que os beijos que Márcio dava nos fartos seios da feia sensual eram frutos de um desastre. Dei-lhes firmeza para acreditarem que as calças baixas do rapaz que tanto parecia gostar da namorada era o típico imprevisto de uma noite regada a bebidas variadas. Também fui fiador da mão de Paty, que apertava forte o pênis de Márcio, parecendo querer-lhe dentro dela urgentemente.

A cena chocou-me, mas com leveza. Quando fechei a porta, devolvi-lhes a confiança para que continuassem a ejetar todo o calor que lhes consumia desde a mexida no colo ao som de funk. Recompus-me do inconveniente. Os dois saíram do quarto como se estivessem sendo presos em flagrante delito. Sorriram sem graça e tentaram incursar novamente na animação da festa.

Não durou muito tempo. O tesão foi embora para dar lugar ao remorso de terem cometido um crime “duplamente qualificado” contra uma só pessoa. E eu, definitivamente, percebi que aquele rebolado sem vergonha não era fantasia, mas, sim, um retrato do que a bebida faz com mulheres exageradamente afeitas ao prazer. Passei a noite com dois traidores.

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

Gente

Os dois no cinema. Ele lá com os pés para cima, sobre a cadeira da frente. Todo mundo entrando na sala e ela incomodada porque alguém poderia querer sentar-se ali e não sentaria por causa do pé dele. Até que ela disse: “Tira o pezão daí! Esse lugar é para gente e não para pé.”

Ele tirou, mas retrucou: “E quem disse que meu pé não é gente?” E ela: “Claro que não! Você é gente, seu pé faz parte de você, mas ele sozinho não é gente.” Depois de um minuto de silêncio dos dois ela veio com a pergunta: “Mas afinal, o que é gente? É uma pessoa inteira, com cabeça, tronco e membros?”

Ele pensou e respondeu: “Não, pense em alguém amputado? Seja um braço, ou uma perna. Não é gente?” E ela: “É, mas o seu pé sozinho não pode ser gente. Ele tem que ter movimento.” Ele, muito gozador respondeu: “Então o rabo da lagartixa pode ser gente. Você corta e o rabinho fica lá se mexendo sozinho.” Ela riu, mas não concordou e encontrou outra possibilidade: “Gente, então, é alguma coisa viva e inteligente.” E imediatamente descartou a hipótese: “Se bem que não, tem tanta gente burra e tanto animal inteligente. Essa não dá!” “Já sei, gente é quem tem consciência!”, continuou para logo desistir: “Não, alguém que esteja em coma não está consciente, mas é gente...Que questão mais filosófica essa, né? Difícil...” Mas logo o filme começou e ela esqueceu-se daquilo.

Ele não esqueceu e decidiu procurar saber o que era gente. A primeira idéia foi o dicionário: 1. Quantidade maior ou menor de pessoas indeterminadas; povo 2. Determinado número de pessoas que têm em comum certas características 3.Número indeterminado de pessoas, ou mesmo uma só pessoa, alguém 4. O gênero humano, a humanidade 5. O ser humano, homem, pessoa 6. Habitantes de determinada localidade, população, povo 7. Partidários de uma idéia, companheiro, camarada 8. Família ou empregados.

Aquilo não o deixou satisfeito. “Gente é muito mais coisa”, pensava. Foi então à internet e nada encontrou a não ser links para páginas que falavam sobre gente famosa ou sobre a definição de gente bonita. Mas nada que lhe fosse ser útil. Decidiu então fazer pesquisa de campo. Perguntou à mãe, à avó, tio, tia, primo, vizinho e cada um foi dando uma resposta diferente: “Gente sou eu, é você”, “Gente são as pessoas”, “Gente é quem vive, quem tem alguma coisa”, “Gente é tudo que é vivo. Cachorro, gato, homem, planta”, foram algumas das respostas que ele recebeu. Só que ainda não era essa a resposta que procurava

Não sabia mais onde procurar a resposta certa para sua pergunta e sentou. Cansado de não conseguir o que queria ficou ali, parado por um minuto pensando no que diria para ela. Ela que era o seu grande amor, a pessoa de quem ele mais gostava no mundo. Aquela que acordava e dormia em seu pensamento e para quem ele não mediria esforços para achar uma resposta para sua pergunta. Não podia decepcioná-la, tinha que encontrar a melhor resposta.

Pensativo, sozinho, ele ficou quieto, em um silêncio tão profundo que pode ouvir o seu coração bater. Foi aí que realmente entendeu o que era ser gente e saiu correndo e andando devagar, gritando e falando baixo, sorrindo e chorando. Dançava, pulava, gargalhava enquanto chamava o nome dela.

Ela, da janela de seu quarto, um tanto assustada com todo aquele alvoroço, perguntou: “O que é isso? O que está acontecendo?” E ele apenas respondia: “Eu já sei! Eu descobri a resposta!” “Resposta para o que, meu deus? Do que é que você está falando?” Ele pediu a ela que descesse pois assim lhe explicaria melhor.

Deu-lhe um beijo e segurou-a em seus braços. Olhava para seus olhos e via aquele brilho que sempre o deixava louco. Então, explicou que gente podia ser tudo: animal, planta, povo, alguém, ser humano, família e qualquer outra coisa que tinham lhe dito as pessoas ou o dicionário. Mas uma coisa era fundamental para ser gente. Um coração. Só com um coração se é gente. Pois só um coração nos permite amar e ser amado. E era por isso que ele se sentia gente: porque amava e era amado. Então, não importava se era uma pessoa amputada, em coma, burra ou até mesmo um rabinho de lagartixa. O que valia era o amor. Se o rabinho amasse outro rabinho e fosse correspondido, ele era gente que nem qualquer outro. Ficavam lá, os dois rabinhos apaixonados balançando sem seus corpos.

Os dois no cinema. Ele lá com os pés para cima, sobre a cadeira da frente. Ela - que agora sabia o que era gente - levantou os seus e juntou-os aos dele. Os quatro pezinhos que se amavam, com seus donos que se amavam. Coisa de gente.