sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Voyeur

Ele gostava mesmo era de observá-la. Perdia incontáveis minutos, horas, dias, só admirando cada reação dela às coisas do dia-a-dia. Cada traço de admiração por algo novo, de espanto por algo estranho e de felicidade por alguma vitória. Cada sorriso a cada encontro. Cada desânimo a cada despedida.

Ele gostava de vê-la comendo. Pouquinho a cada vez. Mas degustando as garfadas como se fossem as últimas. Lambendo os dedos com vontade. Sentindo o aroma, testando o sabor, em separado, de cada ingrediente.

Ele enlouquecia ao vê-la sorrindo. Principalmente se fosse dele. Ou pra ele. Ou com ele. Ou de qualquer coisa. O importante era que ela sorrisse. E ele fazia muito para que isso acontecesse sempre que possível.

Ele adorava vê-la se arrumando. A toalha molhada enrolada no corpo. O cabelo pingando. Os pés entrando, delicadamente, pela calcinha. A bagunça de suas maquiagens. O olhar compenetrado pro espelho enquanto passa o lápis no olho. O sutiã abraçando os seios. O vestido que, definitivamente, veste seu corpo como se não houvesse nada mais apropriado.

E, ainda, gostava também de vê-la falar, contar suas histórias. Desabafar sobre seu dia. Relembrar um acontecido. Revelar um segredo. Abrir mais uma página do seu livro. Ele gostava de observá-la e, assim, se sentia mais próximo a ela.

Mas, mais que observar, ele gostava mesmo era dela. Todinha.



sexta-feira, 25 de julho de 2014

Passou...*

*Por Aninha Ulhôa

Morro quantas vezes achar necessário. Pra depurar a alma, pra esmiuçar a dor. Mas por você não morro mais.

A transitoriedade de tudo, que sempre me causou certa angústia, hoje me consola...bom saber que tudo passa. Apesar de ter certeza que certas coisas duraram mais do que deveriam.

Se bem que é irônico falar que você passou. Porque a palavra é essa mesma...você PASSOU pela minha vida, nem se dignou a entrar. Como alguém que passa pela porta da sua casa e lhe acena um cumprimento de bom dia que não denuncia a cumplicidade que ali existe.

Existe? Já não sei se existe mesmo...se algum dia existiu. Outro capricho da transitoriedade é que quando se finda um ciclo você olha pro passado e se questiona se aquilo tudo foi fato ou invenção. A mente da gente prega peças...o coração então, pff...

Eu tenho um código rígido. As pessoas que fazem parte da minha vida têm que me fazer me sentir melhor. Porque sozinha eu estou ótima, de má companhia já me vacinei. O bom de você ter infringido minha lei básica de auto proteção é que finalmente conseguiu a atenção que cobrava. Sim...eu prestei atenção no tanto que você me fez mal.

Contrariando Paulo Leminski decreto que você, na minha vida, passou...basta. E pra evitar a saudade burra, que só se lembra das coisas boas, resolvi passar para o papel tudo que remoí o dia inteiro. O papel, diferente da saudade, registra a mágoa. E eu, diferente de você, sou fiel a mim mesma e me prometi que por você não morro mais.

*O Blog Alguns Momentos publica, uma vez por mês – sempre na última semana –, um texto de um amigo do blog. Tem uma história para contar? Quer escrever também? Mande seu texto para blogalgunsmomentos@gmail.com

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Buffet

Já provei diversos corações. Degustei como as maiores iguarias que existem no mundo.

Alguns vieram bem temperados, com bons acompanhamentos, mas que serviram apenas para esconder a má qualidade da carne. Outros, bons, porém em pequenas porções, não me serviram nem de entrada.

Outros, servidos em bandeja e fatiados com talheres de prata, me foram apresentados com tanta pompa que me empolguei. Mas não passaram de mero confete. Espuminha de canapé. Muita pompa pra pouca sustância.

Muitos foram doces. Saborosos, daqueles que dão vontade de não parar nunca de provar. Derretiam na boca. Borbulhavam o estômago ao sentir o cheiro. Acalentavam a alma depois de comê-lo. Mas acabaram-se, sem direito a repetir, tampouco a sobremesa.

Também vieram os corações surpresa (ruim). Uma bela e apetitosa casca, mas um horrível e amargo recheio. Desses não cheguei nem a terminar de comer a casca. Na primeira garfada do recheio já senti que era melhor trocar de prato.

Mas agora, o que me farta, o que me satisfaz é devorar você. O seu coração, cru, carne viva, sangrando. É dele que eu quero mais. É ele que me deixa satisfeito. Entrada, prato principal, sobremesa. Assim mesmo, sem tempero, sem preparo, sem criação. Puro, limpo, simples. Servido ao natural, como uma fruta arrancada do pé e mordida no mesmo instante.

Não quero prato. Não quero talher. Não quero guardanapo. Vou te comer com as mãos e me lambuzar.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Dia dos Namorados – Parte II

- Oi.
- Oi. Que bom que você chegou! Entra...
- Você tá linda!
- Ah, bobo! Para! Tô normal, calça jeans blusinha. Nada de demais.
- Mas é isso que é mais lindo. Você não precisa de muito.
- Nossa, melhor presente de dia dos namorados que eu podia ganhar!
- Ah, é? Então deixa eu jogar fora essa sacolinha aqui.
- Não! Eu quero. O que é?
- Abre...
- Ah, que ursinho lindo. Eu adoro ursinhos!
- É, percebi. Aquele dia que acordei no seu quarto foi a primeira coisa que eu vi. Aliás, as primeiras!
- Ele vai pra lá, junto dos outros. Obrigada!
- Eu também tenho um presente pra você. Tá lá no meu quarto, depois eu pego. Vamos comer primeiro? Tô morrendo de fome.
- Vamos!
- Minha mãe deixou uma lasanha aqui... e tem refri na geladeira. E sorvete!
- Huuumm!
- Que filme você quer ver? Eu aluguei uns 4 dvds na locadora.
- Quais são? Deixa eu ver!
- Me dá um beijo antes?
- Só um.
- Só. Mas um daqueles!
Beijo (quente!)
- Você nunca tinha passado a mão na minha bunda... Assim, sóbrio. Tirando o dia do porre!
- Desculpa. Me empolguei! Não queria...
- Ei! Desculpa o quê? Quem disse que eu não gostei?
- Sério?
- Claro. Inclusive, vem cá apertar mais!
- Você não tava com fome?
- Duda...
- Eu sou bem trouxa na maioria do tempo, né?
- Não. Você é lindo. Um lindo que vai, agora, me beijar e apertar minha bunda.

CONTINUA

Este texto faz parte da primeira tentativa deste blog de criar uma história longa e não apenas um conto. Acompanhe a continuidade dele pelo marcador #desenvolvimento

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Aos prantos

Diziam que ela era chorona. Manteiga derretida, frágil, facilmente abalável. Várias expressões eram usadas para defini-la. Mas ela não se importava. Ela chorava mesmo. Sem constrangimento ou qualquer tipo de vergonha. E fazia porque sabe que cada vez que a gente segura o nosso choro, um pedacinho da gente morre afogado em mágoas.

Então, que molhasse o rosto, a camisa, o lenço. Que ficasse com olhos vermelhos, inchados. Antes qualquer uma dessas coisas a se afogar naquelas dores. Ele foi embora porque quis. Ela sentia falta. Não ia esconder de ninguém.

Melhor botar pra fora e deixar que o choro escorra. Que as lágrimas se esvaiam. O que ela não quer é matar afogado, dentro dela, um pedacinho do seu coração. Ele tem que estar inteiro, pronto para um novo amor.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Pra ler você*

Por Priscila Sales*

Ah, menino...Se soubesse que entre tantos papéis ainda tenho tempo de pensar em você! Que uma promessa me fez ter vontade de escrever para você ler. Que de tão longe se faz presente e que, em poucos detalhes - como um comercial de tv - me dá vontade de conversar e ouvir sua risada!

Menino, se soubesse o quanto sou irônica e destemida, não tinha me jogado nesse mundo tão distante de escrever. Meu mundo são os números e eles vão aparecer aqui quando eu contar há quanto tempo não te vejo.

De tão distante, o que me resta é esperar para poder ler você.

*O Blog Alguns Momentos publica, uma vez por mês – sempre na última semana –, um texto de um amigo do blog. Tem uma história para contar? Quer escrever também? Mande seu texto para blogalgunsmomentos@gmail.com

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Ele sempre volta

E quem foi que te disse isso, menino? Quem foi que te botou tamanha ilusão dentro do peito? Quem te fez acreditar numa tremenda besteira dessa? Espero que você não tenha, nem por um minuto, pensado em espalhá-la por aí. Acreditar é, certas vezes, até aceitável. Mas você é a prova viva de que tudo não passa de uma mentira.

Por que ele volta. Sempre volta. Às vezes demora mais, outras vezes menos. Um dia, dois. Uma semana, um mês, dois anos. Quem sabe? Ninguém. Talvez teu coração. Ele é o real relógio. O Cronômetro que corre reverso para definir o tempo certo pra ele voltar. Mas é certo que ele volta.

Teu cronômetro zera e o amor volta. E te enche de novo de alegria. Te enche de novo de vontade. De planos, sonhos, novidades. Te deixa louco de paixão e esperança.

Ele voltou. Viu como ele voltou? O amor voltou. Aproveite, garoto. E nunca, jamais, acredite no que dizem por aí. Atravesse os desafios e confie. O amor volta. Ele sempre volta.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Dia dos namorados

- E aí, Dudinha! Qual a boa de hoje moleque?
- Pô, Teta. Dia dos namorados. Vou ver um filme com a Jana.
- Huuuummmm... mas tá muito pau mandado mesmo, hein?
- Cala a boca, véi. Nada a ver.
- Hahahaha! Tá certo moleque. Aproveita e vê se come ela logo. Fica namorando e não come ninguém, nunca vi isso!
- Como se tu comesse alguém, né?
- Não comi. Mas tô mais perto que você, que namora e num passa a mão nem na bunda dela.
- Tu não vai namorar nunca com essas ideias, tá ligado, né?
- E quem disse que eu quero? Eu quero é trepar! Hahahahahahaha!
- Mané!
- Sério, Duda... não tá rolando uns amasso forte, não?
- Teta, não vou ficar falando disso.
- Porra! Eu sou teu melhor amigo e tu não vai falar disso?
- Não vou expor minha namorada, porra!
- Eu não quero saber se ela depila a porra da buceta! Só quero saber se vocês tão esquentando, porra! Se, pelo menos, parece que ela tá animando em transar com você.
- Tá. Tá sim.
- Aaaahhhh!! Agora eu vi vantagem, moleque! Já rolou aquela mão boba e tal?
- Já.
- Porra nenhuma. Tivesse rolado tu não tava nesse desânimo.
- Não tô com desânimo nenhum. Tô nervoso!
- Por quê?
- Porque ela chamou pra ver o filme. Mas não é no cinema. É na casa dela. E eu acho que vamos estar só nós dois!
- CARALHO!! Então, hoje tem!!!!
- Não sei se tem. Mas tô nervoso!
- Aaaahhh Dudinhaaa, vai rolar demais, moleque!
- Eu preciso treinar a abertura do sutiã.
- Moleque! Cala a boca. Tu não esqueceu essa bosta ainda? Tu vai transar. T-R-A-N-S-A-R! Esquece esse sutiã.
- E eu vou transar sem tirar o sutiã dela?
- Velho, deixa que ela tira...
- Eu quero tirar!
- Então vai se foder. Relaxa, que na hora dá certo.
- Tomara.
- Vai sim. Relaxa.
- Tá.
- Tu tem camisinha?
- Não!
- Porra! Tu é burro? Toma essa aqui.
- Tu nunca ia usar mesmo, né?
- Vai se foder.
- Valeu, moleque.
- Se joga, Dudinha. Mete rola!
- Tu é um escroto mesmo.
- E tu um viadinho apaixonado.

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sexta-feira, 6 de junho de 2014

Difícil odiar

Eu estava pensando aqui um dia desses, entre uma rajada de vento e outra de fumaça de ônibus que recebia na cara, enquanto observava da janela, o quanto deve ser difícil pra você me odiar assim, né? Porque você poderia ter mil motivos pra me detestar depois que fui embora. Seria muito simples ter raiva do cara que te deixou só por este fato.

Mais fácil, ainda, seria se tudo aquilo que você imaginava que eu fosse, acontecesse de verdade. É simples detestar um homem rico, bonito, cheio de futuro e que te deixou, assim, ao que parece, sem motivo algum, né? Você poderia estar, agora mesmo, usufruindo de toda essa riqueza, beleza e sendo parte do futuro brilhante que eu teria pela frente, segundo você mesma.

E é por isso que pensei que deve estar sendo complicado, né? Detestar um cara pobre, jogado na sarjeta, morando de favor na casa de um primo que nunca nem foi muito próximo, mas era o alento e o teto que lhe sobraram. Detestar um cara sem emprego, magro-esquálido-amarelo, porque mal come de tanta vergonha de si mesmo. Não é simples ter ódio de alguém assim.

Mas, mesmo assim, consegui ver, por trás do azul cintilante dos teus olhos, o vermelho brasa da raiva. A tua vontade de agarrar minha barba por fazer e encher minha cara de tapas. O teu peito inchando de vontade de gritar um sonoro FILHODAPUTA! Sim. Eu percebi tudo isso. Você sabe que desde o primeiro momento eu sempre soube ler você.

Mas olha, fica com raiva não. Eu tô aqui, assim. Desse jeito que você viu na esquina. Eu não tô nem perto do brilho que você esperava de mim. Então, nem vale a pena guardar esse ódio por algo que nunca aconteceu ou vai acontecer.

Aliás, pra sanar sua dúvida de vez, foi por isso que fui embora. Pensando bem, eu prefiro até tua raiva que a tua decepção. Prefiro que você queira me bater e cuspir na minha cara a se desiludir com o tempo e virar uma sombra daquela mulher viva com quem eu tive o prazer de conviver.

Então, vem cá. Bate. Descarrega a raiva toda e segue em frente. Que você continua linda e não merece um fracassado feito eu.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Ceder é difícil!*

Por Marcella Mota*

A distância entre a teoria e a prática, muitas vezes parece longa!

Há um discurso pronto afirmando que em uma relação é preciso ceder… que é necessário abrir mão, algumas vezes, do que você quer em função do outro.

Tudo funciona bem no texto, mas na execução a coisa muda.

Ceder nem sempre é fácil… e não estou me referindo apenas às questões mais difíceis, mas também às situações simples do cotidiano.

Você quer o último iogurte de morango e não quer ficar com o de ameixa… mas cede pois o outro também prefere o de morango.

O seu lado da cama é sagrado… chegar no quarto e encontrar o outro dormindo nele, é ceder com raiva.

Não importa se vocês combinaram, mas ceder o controle remoto, na maioria das vezes, é muito chato.

Ninguém é obrigado a gostar do amigo insuportável do outro… ceder e ter que ir almoçar com essa pessoa, é estragar um domingo que poderia ter sido muito bom.

Deixar de ir à um lugar que você queria para ir ver um filme que só interessa ao outro, é mais que ceder… é prova de resiliência!

Ceder é difícil… não é para os fracos!

Abrir mão de coisas que você gosta, quer e prefere para agradar alguém, nem sempre é tão romântico.

Mas você cede… sabe por quê?

Porque a alegria do outro é muito mais gratificante que qualquer iogurte, filme ou controle remoto.

Não é pelo amigo insuportável, é pelo fato de estar perto de quem você ama e sentir que está fazendo essa pessoa feliz, por esse simples gesto.

Somos seres individualistas na essência… o que nos faz ceder, nem sempre é o fato de sermos bonzinhos, mas é o amor… o desejo de ver feliz quem você ama.

Você não cede por ser compreensivo, altruísta ou coisa que o valha… cede por achar que não há nada mais interessante que ver o sorriso de quem ama ao realizar uma vontade dessa pessoa.

Ceder é complicado… e não venham me dizer que é simples. Somos donos das nossas vontades e queremos que elas sejam respeitadas sempre… temos o nosso lugar preferido no sofá, a xícara que é só nossa, as séries que assistimos, as músicas que ouvimos… misturar tudo isso com as vontades de outra pessoa, é prova de amor.

Mas não importa se é difícil… o importante não é saber ceder, é saber amar.

*O Blog Alguns Momentos publica, uma vez por mês – sempre na última semana –, um texto de um amigo do blog. Tem uma história para contar? Quer escrever também? Mande seu texto para blogalgunsmomentos@gmail.com

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Sorrindo

Olha, pequena. Eu nem sei como dizer, mas... tá vendo aqui meu sorriso? Então. É isso. Essa leveza, esse bem estar, essa vontade. Tudo tá relacionado. Comigo, meu momento, minha vida, a ordem das coisas, o caminho que elas tomam. E com você. Claro, você está 100% relacionada a tudo isso. Como não poderia?

É difícil falar e sorrir ao mesmo tempo. Mas é isso. Esse sorriso aqui. Ele é seu. Ele é meu pra você. Por você. E enquanto você estiver por aqui, ele também vai ficar. Então, aproveita. Fica o quanto puder que eu não me importo de ter cãibra na bochecha. Eu viro boneco de cera, com sorriso eterno se for pra você ficar.

Fica que ainda tem muita cerveja, muito vinho, muita soneca e preguiça. Tem chocolate, tem espirro. Ainda tem um monte de músicas e seriados. Também tem café na cama e almoço que vira jantar. Tem abraço, orgasmo e beijo, não necessariamente nessa ordem. Tem muito de mim e um tantão de você. Tem tudo isso e o que mais a gente quiser inventar.

Então, tá vendo esse sorriso? Transforma ele num beijo que o agora é nosso e o amanhã também vai ser.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Dedicatória

Esses dias tirei um livro da estante. Lembrei que tinha sido um presente seu. Abri temeroso em ler a dedicatória. Temi pelas palavras bonitas que você teria deixado ali e, principalmente, pelo efeito delas em mim. Nessa altura do campeonato confesso que não estou mais tão afim de surpresas sentimentais.

Mas, veja você, o livro não tinha dedicatória. Um dos meus preferidos. Um daqueles que valem a pena guardar pra sempre. Um daqueles que, tenho certeza, qualquer pessoa que me conheça minimamente vai ler e lembrar de mim. E você não foi capaz de escrever nada.

Confesso que, de início, fiquei feliz. Afinal, a ausência de palavras suas significava que aquele meu medo inicial era desnecessário. Mas depois percebi que isso mexeu comigo da mesma forma - talvez mais - que qualquer escrito com tua caligrafia poderia fazer.

E que loucura, né? A gente nunca sabe mesmo como vai reagir às coisas. E, sabe, eu fiquei foi com raiva. Por que você não escreveu nada? Por que não deixou uma lembrança? Por que não me fez sentir saudades com umas poucas palavras de carinho?

A raiva passou, mas eu quase coloquei o livro no correio, endereçado a você, cobrando um pouco mais de consideração pela minha saudade.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

GPS

Londres é fria. São Paulo é cinza. Roma é velha. Buenos Aires é sentimental. Lisboa é escura. O Rio de Janeiro é suado. Sidney é longe. Santiago é saudosa. Nova York é muito agitada. Curitiba é sem sal. Pirenópolis é mal estruturada. Vitória é chata. Dubai é extravagante. Belo Horizonte é claustrofóbica. Goiânia é bagunçada. Bangkok é perdida. Rio Verde é escondido. Governador Valadares é uma panela de pressão. La Paz é alta.

É só aqui na nossa Brasília que meu coração bate sem pressa, sem medo. Em condições normais de temperatura e pressão. Sem medo de se perder, sem medo de te encontrar. Bate sem saudade. Bate ritmado.

É aqui, entre as asas, debaixo das árvores que ele vive sem problemas. Entre a ponta do meu avião e o miolo do teu cruzeiro do sul, no céu. Seja azul ou estrelado. É aqui que ele se orienta com sul, sudoeste, noroeste e que a bússola aponta sempre pra você, o norte.

Meu destino é sempre você, ainda que encontre atalhos por aí. Ainda que pare para um pastel com caldo de cana na Rodoviária. Ainda que breque a cada sinal vermelho; a cada pardal de 60 km/h. A moça do GPS me diz: seu destino está próximo.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

O Sim

- Duda?
- Oi, Jana.
- Você pode sair um pouquinho agora?
- Claro. O que você quer fazer?
- Eu to aqui fora. Quero falar com você.
- Aqui fora? Como assim?
- Aqui Duda, do lado de fora da sua casa. Sai que eu preciso conversar com você.
- Aconteceu alguma coisa?
- Aconteceu, Duda! Vem aqui fora.
- Mas eu não fiz nada.
- Duda, vem!
- Tá to indo.
- Oi. Que foi? O que aconteceu?
- Duda, olha só. Eu tava conversando com a Luana. A real é que ela sempre foi afim de você e, sabe lá Deus por quê, ela me incentivou a ficar contigo. Fiquei gostei e to apaixonada. E ela ta chateada. Foi por isso que eu não aceitei seu pedido de namoro.
- Gente, como assim? A Luana afim de mim?
- Escuta, Duda. Escuta tudo.
- Eu fui lá agora conversar com ela sobre isso. E ela ta bem chateada. Eu não queria perder a amiga por conta de um cara. Mas eu to muito afim de você.  E agora eu não sei o que eu faço mais. Se continuo contigo e perco a Luana. Se mantenho minha amizade com a Luana e perco você. Se não faço nada e acabo perdendo os dois. Por que as coisas têm que ser tão difíceis? Alguém me explica?
- Calma, Jana. Calma. Vem aqui, calma. Não chora.
- Eu não sei mais o que fazer. Todo mundo quer alguma coisa de mim. Mas nada é o que eu quero!
- E o que você quer, Jana?
- Você como meu namorado. A Lu como minha amiga.
- A primeira parte você tem. Desde o primeiro dia em que te beijei.
- Sério?
- Você acha que te pedi em namoro por nada?
- Não sei. Não sei de mais nada.
- Bom. Eu só sei que você quer duas coisas. E uma delas está resolvida.
- Como assim resolvida?
- Você não quer namorar comigo? Eu também quero. Então, pronto. Estamos namorando.
- Você ta falando sério?
- Muito.
(beijo)

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sexta-feira, 25 de abril de 2014

Quem ama bloqueia

Por Tadeu Rover*

Oi meu amor, desculpa se não li aquela indireta que postou no Facebook. Queria contar que já faz algum tempo que deixei de acompanhar suas publicações. Isso não significa que eu não gosto mais de você. Foi apenas uma opção.

É que suas postagens me incomodavam. Não as indiretas – essas eu adorava e sinto falta. Mas aquelas que você ficava falando de assuntos que não são de meu interesse. Não, eu não quero emagrecer, nem saber qual é a dieta da moda que está funcionando. Muito menos o resultado do jogo de futebol.

Também não quero ver aqueles posts que beiram ao ridículo sobre política, fazendo comparações que não condizem com a realidade. Pior é ver você querendo Joaquim Barbosa para presidente, sendo que nem o Supremo ele consegue comandar. Imagina o país.

O problema da internet é que algumas pessoas, e aí você está inclusa, acham que precisam opinar sobre tudo e todos. E assim, sem muito conhecimento das causas falam muita coisa. Por não entenderem, falam muita besteira. E isso quando feito ao longo de todo o dia cansa. Por isso não te sigo mais.

Mas fica tranquila. Na vida real ainda te quero ao meu lado no bar, falando mal das pessoas que passam e rindo da vida. Quero você no cinema assistindo aquele filme bobo, sem se preocupar em quem vai curtir ou comentar. Quero a verdadeira você. E não aquele perfil do facebook.

Ah, antes que eu me esqueça. Eu não te bloqueei. Apenas deixei de ver suas publicações. Sendo assim, ainda pode me mandar a letra daquele pagode que ouviu e lembrou de mim.

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sexta-feira, 18 de abril de 2014

Bala de goma

Engraçado como a gente se pega, vez em quando, relembrando dos outros por coisa tão boba e simples, né? Mas é isso mesmo. O amor tá aí nessas coisas bobas e simples. Tá naquela mania que ela tinha de só dormir balançando. No ritual dele de entrar no carro, girar a chave, ligar o som, abrir os vidros, colocar os óculos, apertar o cinto e só depois partir. Tá no desejo dela por nuggets no meio da madrugada. Tá no choro dele por um jogo de futebol.

E foi numa dessas que me peguei pensando em você. No sinaleiro, me veio o menino oferecendo “bala, chiclete, halls”. Eu perguntei pela jujuba. “Três pacotes por dois” foi a resposta dele. Me vê seis, mas deixa eu escolher, respondi. E pouco antes de abrir a passagem pros carros, vi aquele pacotinho com apenas uma jujuba vermelha e quatro verdes! Quatro verdes, dentre as dez do pacote.

Não tive dúvida em levá-lo junto dos demais. Qualquer um acharia isso bem ruim. Todo mundo adora a balinha vermelha. Menos a gente. A gente sempre brigou pra ficar com a verde. Nossa alegria era o pacotinho que vinha com duas verdinhas, que ninguém ficava sem. E aí só veio você na minha cabeça. A jujuba verde me fez lembrar de ti.

O amor tá aí nessas coisas bobas e simples, né? Deixei o pacote ali, como quem espera o momento adequado pra comer. E quando abri, comi todas as jujubinhas. Mas deixei as quatro verdes guardadas, como quem espera alguém pra poder dividir o tesouro. Mas você não vem, né? Você ainda gosta da jujuba verde? Eu não sei. O amor também está aí nessas coisas de um conhecer o outro, né? Eu não sei mais se te conheço.


Joguei as quatro jujubas verdes fora. Comi uma única que tinha no outro pacote. Era só minha, não precisava dividir. Você não está mais aqui.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Teu texto

Ah, menina, se você soubesse! Se soubesse o tanto que desejo e quero bem. Vem! Se entrega aqui pra mim. Escreve tua história que eu leio e digo que sim, que não, que talvez, mas vou ler e reler até que meus olhos se cansem. Das letras. De você não tem como cansar.

Ah, menina, se você soubesse! Sou desses que morre de inveja daquele que tá aí. Mas eu espero você sair. Sai e traz tudo. Tua boneca, teu travesseiro e aquele teu vestido lindo. Ou traz nada e a gente inventa tudo aqui de novo. O importante é que você venha.

Ainda tô no capítulo um da tua história, mas já sei que tá faltando enredo, aventura, personagem. Vem pra gente criar junto. Ainda não cansei de ler e tô querendo mais é criar novos capítulos. Vem que pode ser ficção e amanhã tu volta pra realidade. O importante é que você venha porque de você não tem como cansar.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Pra não morrer de saudade

- Alô

- Oi.

- Oi! É você? Que número é esse?

- Ah, é um telefone novo do trabalho. Tô sem bateria no meu e acabei usando ele pra ligar.

- Agora tá com agenda compartilhada entre os aparelhos? Antes você não usava...

- Não. É que eu ainda sei o seu telefone de cor.

- Ah... e aí? Tudo bem?

- Tudo. Tudo sim. Tô pra te ligar há uns dias. Cheguei a discar teu telefone outro dia, mas era dia da mentira  e achei que ia soar falso. Mas é que li uma coisa que me fez pensar em você o tempo todo.

- O quê?

- Dizia assim: quem vive de orgulho, morre de saudade. Por isso tô te ligando. Por isso tô deixando todo meu orgulho de lado e não tô nem aí pro que você vai pensar. Também nem quero saber o que você vai fazer com o seu, mas a real é que eu não quero morrer de saudade, mas já tô morrendo.

- ... Eu não sei o que dizer.

- Não precisa falar nada. A situação aqui é sobre o meu orgulho. É ele quem tá indo embora. Então liguei pra dizer que ainda te amo, sim. Que ainda sofro. Todo dia. De saudade, de falta, de ausência, de não saber o que fazer, de querer te ouvir, de querer te ver, de querer te abraçar. Sofro por fazer coisas que eu sei que você adoraria, mas não está comigo. Sofro por entender os seus motivos e ainda assim não aceitar.

- Calma, não fala assim. Eu achei que tava tudo bem já...

- Eu também achei. Mas não tá. Não tá mesmo. Tá ruim. Bem ruim, aliás. Eu sinto sua falta.

- Eu também sinto.

- Então larga essa droga desse orgulho! Vai morrer de falta!


sexta-feira, 28 de março de 2014

Detalhes tão pequenos de nós dois*

*Por Maria Carolina


Dois personagens protagonizam uma novela do amor que acaba: aquele que tem coragem e aquele que espera o outro ter coragem. A posição deles não faz diferença, ambos sofrem. No nosso caso, calhou de ser eu a pessoa com coragem. Poderia ter sido você.

A trama segue, as coisas vão se ajeitando, a nova rotina toma seu lugar. Às vezes tem ódio, rancor, desilusão, ingratidão. Às vezes tem carinho, afeto, saudade. Esses sentimentos compõem o enredo dessa novela que todos nós vivemos.

O alimento ao ego daquele que esperou é sempre uma notícia, uma carta, um indício que prove que o outro lembra. Tem saudade.

Pois aí vai tua comida: eu lembro. Tenho saudades nas noites de domingo enquanto limpo a casa, vou ao mercado e compro minhas maçãs.

Tem mais: às vezes fico enrolando pra sair do trabalho. Não quero chegar em casa e não te encontrar. A sua não presença, tão necessária à minha vida agora, me incomoda de vez em quando.

Lembro quando decoro a casa, quando ajeito meus sapatos, quando a casa está suja, quando está limpa, quando cozinho. Lembro quando recebo as visitas que você adorava e quando recebo as pessoas que não podia receber porque você odiava.

Nessas horas, o meu refúgio é o quarto. Ao contrário do que cantou o rei Roberto, você não habita a cama. Me desculpe se sua vingança não vai ser completa.

Mas se quer saber, eu realmente duvido que alguém tenha tanto amor.

*O Blog Alguns Momentos publica, uma vez por mês – sempre na última semana –, um texto de um amigo do blog. Tem uma história para contar? Quer escrever também? Mande seu texto para blogalgunsmomentos@gmail.com

sexta-feira, 21 de março de 2014

Escolhas

- Oi, amiga!
- Oi, Lu.
- Você tá com uma cara...
- É. Tô precisando falar sério com você. Papo de melhor amiga.
- Que foi?
- Eu não quero perder sua amizade, Luana. Mas eu to apaixonada pelo Duda. Ele me pediu em namoro e eu recusei, disse que era melhor a gente continuar como estava e só fiz isso porque fiquei com medo da sua reação sobre tudo isso.
- ... Ai, Jana... Nem sei o que dizer...
- Eu sei que você gosta dele. Não é de hoje. A gente já falou sobre isso tantas vezes, né? Mas, eu não sei, de verdade, por que você me incentivou a ficar com ele. Nem por que eu topei, mesmo sabendo de tudo. Mas aconteceu e agora essa é a situação.
-...
- Fala alguma coisa!
- Eu não sei! Eu também tô confusa! Eu também não sei por que botei essa pilha. Eu não sei por que isso passou pela minha cabeça.
- Mas o que eu faço agora?
- Não sei, Jana! A vida é sua. Faz o que você quer!
- Eu quero namorar o Duda.
- Então namora, vai lá! Se entrega pra ele. É o que você quer. É sua vida!
- Mas eu não queria isso. Essa sua reação.
- Eu também gosto dele! Eu também queria estar com ele. Como você quer que eu reaja?
- Por que você me pilhou pra ficar com ele?
- Porque eu sou burra! Porque eu sou medrosa. Porque eu achava que ele era lindo e legal, mas podia beijar mal. E aí queria te usar pra fazer um teste! Queria que você fosse lá, ficasse com ele, dissesse que era bom, mas não se apegasse. NEM VOCÊ, NEM ELE!
- Você tava me usando de isca? É isso? E agora ta me culpando por ter me apaixonado? Eu não tenho controle sobre isso.
- MAS VOCÊ SABIA QUE EU QUERIA FICAR COM ELE! VOCÊ NUNCA QUIS!
- Para de gritar, Luana! Conversa que nem gente. Eu vim aqui pra resolver o problema, não pra criar outro.
- Então tá resolvido. Você vai namorar o Duda. Eu vou seguir sozinha. Pronto. Pode ir embora.
- Eu não quero deixar de ser sua amiga.
- Eu não quero minha amiga namorando o cara que eu gosto. Se sua escolha é namorar, não vou poder ser sua amiga.
- ...
- Não dá. Como você acha que vou me sentir com você contando sobre vocês? Sair com vocês? Ir ao cinema com vocês?
- Do mesmo jeito que foi até agora, ué?
- E você acha que eu não sofri até agora? Você acha que eu me senti bem com você contando que seus pais adoram ele? Que ele até já dormiu na sua casa?
- Não rolou nada do que você tá pensando.
- NÃO INTERESSA! AGORA VAI ROLAR. VOCÊS VÃO NA-MO-RAR!
- Luana, olha só...
- Jana, melhor você ir. Vai lá, namora ele. Me deixa aqui. To nervosa já. Deixa pra lá... deixa eu pensar, absorver.
- Lu, você sempre foi e sempre será minha melhor amiga. Não quero perder você por causa de um cara, por mais que eu esteja apaixonada pelo Duda.
- Jana, é o seu momento. Eu to muito nervosa, chateada. Mas não é só com você. É comigo também. Com as ideias imbecis que eu tenho. E eu não quero que você perca isso. O Duda é muito legal e você merece. Eu vou ficar chateada? Sim. Mas passa. Eu me acostumo. Só me dá um tempo, por favor? Vai embora.
- Lu...
- Vai!

Este texto faz parte da primeira tentativa deste blog de criar uma história longa e não apenas um conto. Acompanhe a continuidade dele pelo marcador #desenvolvimento