sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Foi ruim

E se você vier agora me perguntar “e aí, como foi?” eu vou dizer: foi ruim. Foi bem ruim.

Foi ruim porque perdi você e tudo que você representava. Foi ruim porque na hora que foi bom, você não estava lá pra compartilhar. Foi ruim porque quando foi ruim, não tinha você e aí foi péssimo.

Foi ruim porque, claro, não foi ruim o tempo inteiro. Não dá pra dizer que todos os dias foram chuvosos, sombrios e gelados. Mas nos que foram alegres, solares, calorosos, não tinha tua gargalhada pra trazer ainda mais luz e aí, acredite, foi ruim. E penso ser desnecessário dizer que nos demais, aqueles da chuva, do escuro, do frio, não tinha teu colo e aí, foi ruim também.

E foi ruim porque deu saudade. E foi pior porque descobri que saudade não é sentir falta, mas sentir a presença. E você está aqui, em tudo. Em cada música, em cada filme, em cada restaurante, em cada viagem, em cada show, em cada livro, cada roupa, cada domingo, cada segunda, cada mês. E tudo isso foi ruim. A saudade – sua presença – foi ruim.

Mas hão de dizer que eu cresci, amadureci, vivi, conheci, descobri. Sim. Foi tudo isso sim. E apesar disso tudo ser bom, foi ruim. Porque foi na dor. Porque foi na ausência. Porque foi na raça. Porque foi quase sem respirar. Porque teve dias em que achei que ia morrer. E aí, foi ruim. Bem ruim.

Mas ano que vem vai ser bom. Mesmo que continue ruim.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Periódico

Vou publicar um jornal. Diário. Todos os cadernos. De política, passando por economia, indo às notícias locais, coluna social, esporte, cultura. Nenhum anúncio. Só as notícias. Notícias sobre a saudade que sinto de você. Em todos os setores. Em todas as editorias. Com direito a artigo de especialistas e a editorial imparcial como o meu coração.

Até o horóscopo vai bater. Touro: por que não volta logo sua doida? A lua está em Marte e seu ascendente em Júpiter, pega uma carona que já já estarão todos juntos aqui na Terra. Tua cor é o verde esperança. Teu número é o 2 (você e ele). Gêmeos: calma, cara! Não adiante querer apressar as coisas. Tua lua, teu ascendente e teu coração estão estacionados, mas logo vai ter combustível pra rodar isso aí. Tua cor é o preto luto. Teu número é o 2 (você e ela).

Cultura vai mostrar todos os lindos eventos legais em que fomos separados. Às vezes, capaz até de termos estado no mesmo lugar, ao mesmo tempo, e sem se ver. Também o roteiro de todos aqueles filmes que veríamos juntos, você choraria, eu daria risada, eu choraria, você dormiria, eu roncaria, você daria risada.

Na editoria de Política, as medidas que meu governo vai adotar para implantar programas que viabilizem nossa felicidade. Bolsa amor. Pra mim, pra você e pros filhos que vamos ter. O Congresso vai aprovar por maioria na Câmara e no Senado. Vamos unir governo e oposição. Vamos amar sem Medida Provisória.

Nos Esportes, destaque para as maratonas que venho correndo sozinho. Chamada especial para o UFC que tenho travado contra a vida. E nele não tem regra nenhuma. Vale dedo no olho, sim. Vale puxar o cabelo e cuspir na minha cara. Mas mesmo assim, tenho tido mais nocautes que todo do Team Nogueira. E por fim, a coluna do especialista que lista as possibilidades que tenho de conquistar o troféu deste campeonato, teu coração.

Para Cidades teremos o meu dia a dia, percorrendo esta cidade sem você. O trânsito solitário. As madrugadas embriagadas e os crimes que cometo contra minha sanidade, memória e patrimônio. Atos de vandalismo. Gangues de ciúme que lutam dentro do meu peito, mesmo sem saber por onde você anda.

Minha balança comercial-sentimental estará estampada em manchetes de Economia. Saldo negativo. Déficit. Devedor. Em queda. Quebrando. Auxílio do FMI. Estagnado. Todas as palavras chave, que farão parte deste texto. Se possível, todas no lead. Que é pra ninguém nem perder muito tempo lendo.

Aliás, ninguém vai querer ler lamentos. Notícias sem sentido de um futuro improvável. Fotos vazias com sorrisos sem graça. Meu periódico da saudade será daqueles que só servem pra enrolar peixe.

Será que tu tem ido à feira?

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Máquina do tempo

Oi. Calma! Sou eu. Eu sei que to meio diferente. Mas acho que você já esperava que eu fosse ficar com a cabeça branca, né? Emagreci muito mesmo. Essa cicatriz? Foi um acidente de cozinha. Sim, continuei a cozinhar. Inclusive, isso é o que eu comecei a fazer para viver depois de um tempo. Deu super certo, eu andava estressado com aquela vida de escritório. Tatuagem? Fiz também. Foi depois dessa sua, aí. Bem depois!

Obrigado. Você também vai continuar linda. Principalmente porque não vai se render à pintura de cabelo. Acho isso de uma baita coragem. Você ficará bem com o visual de uma senhora grisalha. Charmosa. Elegante como sempre foi.

Não posso falar muito disso. Mas dá pra dizer que a vida vai te maltratar um pouco. A mim também. Mais a mim que a você, mas você sabe que eu levo as coisas de uma forma bem diferente da sua. Então você vai guardar e sofrer mais. Eu tenho mais o hábito de cuspir tudo por aí e assim me libertar um pouco. Mas a gente ainda vai sofrer. Apesar das boas aparências, manteremos um tanto de dor dentro do peito. E isso é bem ruim.

Mas enfim, não posso demorar e vim pra te dizer uma coisa. Como cheguei aqui? Ah, daqui um tempo vão inventar máquina do tempo e teletransporte. Lembra o tanto que a gente desejava um pra poder correr, se ver um pouquinho e voltar? Pois é, daqui a pouco vai existir. Mas não vamos usar um com o outro.

Enfim, me escuta. Presta atenção, por favor. Eu to vindo do futuro só pra te dizer que ainda te  amo muito lá na frente. Muito mesmo. E eu sei que você também me ama. Então para com isso agora. Ainda dá tempo de consertar tudo. Bate lá na minha porta. Eu ainda não mudei de endereço. Vai, que acho até que vamos ter menos cabelos brancos se nossos corações ficarem tranquilos.

Agora deixa eu ir. Não tenho mais muito tempo. To voltando pro nosso futuro. Espero encontrar as coisas diferentes por lá. Tchau.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Pra esquecer

Tu sabes. Eu sou um guardador. Recorte de jornal, revista, tampa de garrafa, caixinha de fósforo, cartão postal, selo, moedas. Uma infinidade de coisas que eu guardo, que eu digo colecionar, mas que na verdade é só um acumular. Preciso daquelas coisas para me sentir preenchido. Como se tudo aquilo fosse a minha história.

Mas há muito fiz algo que você consideraria um pecado: joguei fora as cartas dela. Talvez eu tenha exagerado, mas o tempo passou e não dá para mais recuperá-las. Não sei se aquele sentimento descrito naquelas linhas permanece o mesmo. Nem o dela, muito menos o meu.

Hoje, atendendo a um arroubo de organização, comecei a fazer uma nova limpa em meus armários. Entre muitos objetos sem valor, algumas memórias, recados da Laura em antigos cadernos. Beijos de batom em guardanapos. Listas de compra em que ela me pedia pra trazer leite, feijão, açúcar e afeto, naquela clara menção ao Chico que ouvíamos juntos. Ela ficava linda quando cantava as letras do Chico Buarque.

Pensei em tirar fotos antes de me desfazer de tudo, mas com alguma melancolia eu simplesmente joguei no lixo. E foi como se cada marca de batom daquela fosse tatuada na minha pele e, agora, arrancada. Escalpo. Senti dor.

Os cadernos desfolhados, como se me arrancassem os cabelos. A lista de compras no lixo, como uma completa reciclagem. De embalagens, de sentimentos.

O mundo é duro e exige força da gente. Certas memórias me lembram que sou fraco, então tento esquecê-las.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Ela X Ele*

*Por Rafania Almeida

Ele curtiu o que eu escrevi.

Em minha cabeça, milhares de minhocas auxiliam no processo de adubagem e as ideias e conspirações vão germinando.

Ele está interessado. Ou não. Acho que só fez xixi no território mesmo, para que nenhum outro roube mais uma integrante de seu vasto harém. Mas pode ter feito isso só mesmo pra me testar, saber se estou interessada...

Espera! Esse post foi feito há cinco horas e trinta e sete minutos. Isso significa que ele só pode estar fuçando minha página. E deve ser do celular ainda, tamanha a ansiedade dele. Sim, porque, a essa hora, ele está no trabalho e lá não tem acesso ao facebook.

O que eu faço? Ele nem comentou. O que significa o curtir? Eu respondo? Quer saber, se ele me quisesse mesmo, teria comentado e não curtido. Ele não está nem aí. Vou bloquear esse babaca! Se não quer, tem quem queira!

…

Quanto tempo sem abrir o facebook!

Agora percebi o motivo: sempre mais do mesmo. Três dias se passaram e o assunto principal ainda é o quadradinho de oito. Quem faz, quem não faz, teorias da relatividade baseadas nele, o que o Sheldon disse sobre o quadradinho...

Caramba! E em meio a isso tudo, ela faz um post divertido, que me faz rir e ter saudade de quando minha maior preocupação era desvendar os mistérios do Mestre dos Magos ajudar aqueles garotos a fugirem do Vingador e voltar pra casa. Curti! Garota interessante.

Gosto de gente que me faz sorrir e que não tem tanta preocupação na vida. Assim que os vômitos dessa maldita quimio pararem, eu a convido pra sair. Ela vai me fazer bem...

*O Blog Alguns Momentos publica, uma vez por mês – sempre na última semana –, um texto de um amigo do blog. Tem uma história para contar? Quer escrever também? Mande seu texto para blogalgunsmomentos@gmail.com

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Dúvidas

- Oi, Duda! Quanto tempo que não te vejo!
- Verdade, tia. Ando meio ocupado.
- Tô sabendo. Namoro! Coisa boa!
- É... o Teta tá aí?
- Não foi o nome que eu dei pra ele, mas tá sim... Lá no quarto, vai lá!
- Obrigado.


- Comassim???
- É. Ela disse que preferia deixar do jeito que tá.
- Mermão, mulher é tudo louca! A gente acha que o sonho delas é namorar. Aí pede em namoro. Aí elas dizem não! Loucas! Malucas!
- É. Eu também não entendi ainda. Ela falou que tinha medo. De virar cobrança e num sei que lá.
- Louca.
- Não quer rótulo.
- Lou-ca.
- E aí, as coisas vão continuar do jeito que já estavam...
- Eu acho que ela tá afim é de galinhar por aí!
- Teta, larga de ser mongol.
- Mongol? A mina não quer assumir o compromisso pra continuar aparecendo pros outros que é solteira e que tá no mercado. Mulher é foda. Puta merda!
- Tu acha?
- Claro. Porque ela nem chamava atenção de ninguém. Aí vocês começaram a ficar, nego sabendo já botou olho grande. Aquele Cezinha, mesmo. Mané! Outro dia eu vi ele falando que ela “é até gostosinha. Muito pro Duda”. Se acha pegador, mas é um cuzão!
- Caralho! Tu tá falando sério?
- Tô!
- E por que tu não me disse isso antes?
- Porra, nada a ver. Tu tava feliz, de boa. Não vou ficar colocando caraminhola na tua cabeça. Mas tenho certeza que ele já deve ter ido lá azarar, falar que tu era pouco pra ela, se exibir e tal.
- Cacete.
- Tu não devia era ter aceitado isso. Ou namora ou não namora, porra!
- Nem consegui pensar nisso na hora. Acho que a resposta dela me deixou sem reação.
- Pois tu devia era terminar isso. Dar um ultimato!
- Não sei...
- Por quê?
- Eu tô gostando dela. Acho que vou esperar mais um pouco pra ver se ela sai do susto e se toca.
- Tu é muito trouxa, Duda. Mané!
- Cala a boca. Vim aqui desabafar e tu só tá me deixando mais confuso.
- Tô te dando a real!
- Será?
- Bom, se tu quer um mundo de Poliana, eu te digo qual é: tu também pode sair pegando geral por aí, afinal, não tão namorando, né? Vai lá azarar a Luana, agora! Ela já sabe que tu tem pegada. Certeza que a Jana disse algo. Deve tá se morrendo de inveja e aí tu pega! Lembra do que te disse do meu primo Carlos?
- Que se tu pega uma amiga com muito gosto, ela faz propaganda e deixa as outras todas afim de te pegar só pra saber se aquilo que a outra disse era mesmo verdade?
- É! Isso! Sua hora é agora. Se a Jana é uma mina como as demais, ela falou tudo pra todas, fez tua fama. Agora vai pegar todas.
- Até parece! E outra, a Luana e a Jana são melhores amigas. Sabe que dia vou pegar a Luana agora? Nunca. Eu não acredito nesse seu papo.
- O Carlinhos fala com propriedade. Te garanto.
- Ok. Mas não vai funcionar pra mim. Luana nunca me quis, não vai ser agora que eu namoro a melhor amiga dela que vai me querer.
- Vocês não namoram.
- Você entendeu.
- Você é um trouxa.
- Valeu, Teta. Foi muito bom ouvir suas palavras de incentivo.
- Meu incentivo é pra tu não se foder, trouxa!
- Vai se foder você. Tchau.
- Cuzão! Vai chorar na cama!
(Porta batendo!)


- Tchau, tia Sílvia!
- Você e o André já brigaram de novo?
- A gente não briga, a senhora sabe!
- Eu ouvi! Hunft... Tchau Duda, manda um beijo pros seus pais!

E agora a cabeça de Duda ficava ainda mais confusa. Será que Teta tinha razão? Será que a Janaína queria ser solteira, ir pra pegação? Será que a Luana ia querer ele agora? Será que tinha algum sutiã pra ele abrir nesse mundo!??

Este texto faz parte da primeira tentativa deste blog de criar uma história longa e não apenas um conto. Acompanhe a continuidade dele pelo marcador #desenvolvimento

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Sei lá

Até suas amigas já não aguentam mais eu falar de você. As minhas também não. Elas acham que eu tenho que ir logo de uma vez, olhar na sua cara e dizer que você tem que ser minha, que nascemos um pro outro e te dar aquele beijo apaixonado de cinema até os letreiros subirem e o filme chegar ao fim com um “felizes para sempre”. Mas é que eu acho que não sei muito bem fazer isso, sabe?

Elas dizem que, talvez, se eu escrevesse sobre você podia sensibilizar. Fazer das minhas palavras não ditas um lindo texto onde eu pudesse dizer tudo o que sinto, o que pretendo e todo aquele papo de futuro e nascemos um para o outro que vocês mulheres adoram. Mas, sei lá, acho que eu também não sou muito bom com isso. E, ainda que fosse, não seria meio golpe baixo? Ok, sei que poetas utilizam dessa técnica há muito tempo, mas não sei mesmo se surtiria efeito vindo de mim.

Então, sei lá. A verdade é bem essa: sei lá. Sei lá o que fazer pra você perceber que estou aqui. Sei lá o que fazer pra você se dar conta que eu sou o cara. Sei lá o que fazer pra você parar com esse papo de amigo. Sei lá o que fazer para você notar que não tem melhor partido que eu. Sei lá, sabe.

Acho que suas amigas – e as minhas – vão cansar de me ouvir, me ignorar e eu continuar nessa. Sei lá, sou meio assim. Só espero que não demore pra você entender isso.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Amor de graça: aqui

Ando distribuindo amor por aí. Não que antes isso não acontecesse. Pelo contrário. Eu sempre tive muito amor pra dar. E dei. Mas é que uma grande parcela desse amor era reservada só pra você.

Agora ele está ali, deslocado. E, por isso, estou distribuindo ele aos outros. Um “eu te amo” pra um amigo. Um “tô com saudade” pra outra amiga. Abraços fora de hora para todos.

Dia desses dei um beijo numa mulher casada. Assim, sem mais nem menos. Ela estava triste. Era visível a dor em seu olhar. Eu perguntei e ela confirmou com os olhos cheios d’água. Fui lá e beijei. Não me importei com a aliança em seu dedo. Beijei como se fosse minha primeira vez. Cheio de vontade, de amor, de desejo. Foi constrangedor. Mas beijei. Dei amor. E ela agradeceu.

Esse amor que era todo seu está aí, sendo espalhado, a esmo. Sem destino certo. Sem CEP. Ser ordenamento. Simplesmente saio de casa diariamente com uma boa quantidade dele e vou distribuindo aos que encontro pelo caminho. Alguns aceitam de bom grado. Outros recusam. A maioria usou por um tempo e devolveu.

O amor que era seu está por aí. Quem sabe você não abre a porta e acha um pouco dele em alguém. Quem sabe você não tropece num montinho dele pelo chão. Quem sabe você não o encontre naquele chocolate que você adora. Naquela música que era só nossa e de mais ninguém. Naquele restaurante. Naquele espumante. Naquela viagem.

Só não o recuse. Ele é seu. Apesar de ser visto por aí, vagando, sem saber ao certo por que e para onde.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Pedido – O outro lado

- Alô!
- Oi amiga, tudo bom?
- Oi Lu, tudo bem e você?
- Joia. Vai fazer o que hoje?
- Ah, menina, to aqui me arrumando que o Duda ficou de vir aqui pra gente ir lanchar.
- Huuuummm... coisa mais linda esse casal de namorados!
- Lu... para!
- Que foi, Jana? Você estão namorando ou não?
- Não!
- Ah, mas só porque ele não pediu ainda. Que você tá doidinha pra dizer que é namorada dele por aí...
- Não to, Luana. E nem brinca de falar isso.
- Nossa, Jana. Que mau-humor! Vai dizer que se ele te pedir em namoro você não aceita? Vocês já tão namorando... só não teve pedido.
- Não sei se aceito, amiga. Não sei.
- Como assim? Por quê?
- Lu, você sabe porquê.
- Ai amiga... para! Você sabe que não tem nada a ver. Eu to muito feliz de vocês dois estarem juntos. Pode parar de besteira. Ele vai pedir e você vai aceitar!
- Hum...
- É sério! Não faz isso. Você gosta dele e ele de você. Não vai dar esse vacilo.
- Tá.
- Então se veste aí bem bonitona. Arrasa que é pra ele nem pensar duas vezes!
- Pode deixar, Lu!
- Beijos, depois me liga contando como foi!
- Beijo!


- Jana, filha! Eu e seu pai estamos saindo, você vai sair também?
- Vou, mãe. Mas vou só lanchar com o Duda. Nada de demais. Volto rapidinho.
- Tá bom. Nós estamos indo ao teatro. Que cara é essa?
- Nada, mãe.
- Tá tudo bem?
- Tá sim.
- Eeeee... tá não! Que foi, brigou com o Duda?
- Não! Tá tudo bem mesmo.
- Filha, fica tranquila. Eu tenho certeza que o Duda gosta de você.
- Eu também, mãe. Não é nada.
- Olha lá, hein. Não te quero triste por conta de namorado.
- A gente não tá namorando...
- Então é isso? Você quer na...
- Não, mãe. Não quero!
- Tá bom. To saindo se não me atraso. Depois a gente conversa mais sobre isso, tá?
- Tá. Boa peça!
- Obrigada. Bota um sorriso no rosto, pode ser?
(Sorriso)
- Bem melhor! Você fica linda com essa roupa e mais linda sorrindo! Tchau!
- Tchau, mãe. Tchau Pai!!


- Jana?
- Oi, Dudinha! To aqui no quarto. Vem cá!
- Oi... nossa, como você tá linda!
- Obrigada! Você também tá bem gatão.
(envergonhado)
- Por que você tá parado aí e não veio me dar um beijo?
(beijo)
- Jana, queria te falar um coisa...
- Quê?
- Eu nunca fui muito bom nisso, mas acho que o que tá acontecendo é o que chamam de “se apaixonar”... E aí queria saber se... se você... vocêquernamorarcomigo?
(silêncio)
- Duda, eu não sei o que dizer.
- Como assim? É sim ou não. Meu Deus, você não quer...
- Não, calma. Não é isso. É só que... é... as coisas estão tão legais que tenho medo, sabe?
- Medo de quê?
- De mudar. De ficar diferente porque é namoro. Da gente passar a se cobrar.
- Então é um não.
- Mas é que eu não queria que fosse um não de acabou tudo. Eu queria que fosse um não de vamos continuar do jeito que tá. Será que dá?
- Mas você não acha que a gente já tá “namorando”?
- Não sei. Mas é que o rótulo é meio pesado. Vamos continuar assim, “ficando”. Do jeito que as coisas vão a gente pensa nisso depois. Só tem um mês que a gente tá nisso.
- Então a gente continua do jeito que tá, mas não é namorado?
- É. Pode ser...
- Acho que pode, sei lá.
- Você tá chateado?
- Não sei.
- Como assim?
- Não sei, ué.
- Me dá um abraço?
(abraço)
- Você ainda quer ir lanchar?
- Quero. To com fome. Minha mãe nem fez nada pra comer aqui porque eu disse que a gente ia sair, eles também iam.
- É. Encontrei com eles antes de saírem.
- Você tá com fome?
- Acho que sim.
- Então vamos?
- Vamos.


Jana estava apaixonada por Duda. Sabia que Duda gostava dela. Mas sabia que Luana sempre gostou do Duda e fingia que não. Depois da primeira vez que ficaram, Jana percebeu que Luana foi embora da festa irritada. Mas não conseguia entender por que, já que a amiga a encorajava a ficar com Duda.

Tentou conversar uma vez sobre isso com Luana e a resposta que teve foi mais irritação, o que deu a ela mais certeza que ela e a amiga eram apaixonadas pelo mesmo rapaz.

Agora, a dúvida consumia a cabeça de Jana. Ela não queria largar Duda. Não queria perder a amiga. Mas também achava que um namoro, oficializado, poderia deixar as coisas ainda mais difíceis.

“Enquanto não tiver namoro oficial, pelo menos, parece que é só curtição e que vai acabar a qualquer momento. Assim a Luana fica menos irritada com tudo isso e eu ganho tempo pra decidir o que faço”, pensava a garota.

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sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Lua de mel

*Por Maria Carolina


Ele escolheu muito bem. Tantos anos de amor inventado a fez desenvolver um sexto sentido especial. Conhece tudo sobre ele. Cada detalhe da personalidade. Pelo jeito que ele aninhava em seu colo nas poucas vezes que o encontrou na juventude, sabia se estava preocupado com a saúde, família ou trabalho. Com o olhar, era fácil identificar o que temia, afligia, irritava. Conhecia seu medo da morte e a vontade de morrer para encontrar o pai. Todos seus temores.

A comida preferida -lasanha bem quente- música, amigos, comportamento, sentimentos. Conhecia de cor os livros preferidos, seu fascínio pelas histórias da ditadura, a vontade de conhecer a Polônia. A paixão pelo Flamengo. Onde ele estava no título de 1992. Com quem estava no título de 2009.  Que roupa usou na formatura, onde passou e com quem estava nos carnavais de 2004, 2006, 2010, 2011, 2012 e 2013. Viu sua sobrinha crescer, a irmã casar, a mãe quase morrer, fazer cirurgia, emagrecer, voltar a viver. Conhece bem todos os seus transtornos. Todas as suas vontades. Como gosta de ser beijado, tocado e amado.

E foi ali, no meio do mundo,  27º 10' latitude Sul e 109º 25' longitude Oeste que seu mundo desabou. Ele, na insistência de realizarem um romântico passeio noturno, a deixou notar que não conhecia seu maior temor: extraterrestres.

Como pôde dedicar tantos anos a um homem que não sabia disso? Cinco minutos de reflexão e notou que era uma desconhecida para o marido. Não conhecia o medo de ET, o medo de ratos. Nem sua obsessão por organização, horários, datas, compromissos. Não sabia do seu sonho de viver na Alemanha, seu amor pela cidade natal, a mania de comer laranja, o vício por omeprazol, os gritos que solta quando sonha que está se vendo presa à cama, a ansiedade que a impede de dormir antes de viajar. Ele nunca, sequer uma vez, notou como ela anda a esmo pela casa praticando seu mal humor matutino.

Nunca percebeu suas frases soltas. As frases soltas das suas milhões de músicas preferidas. Não parou para prestar atenção nas suas entrelinhas tão bem amarradas. Nunca havia sorrido, criticado ou comentado a sua psicótica mania de querer entender e explicar todos os comportamentos com base em padrões.

Não se sentiu estranha por ter casado com um homem que não a amava e que não odiava seus defeitos. A verdade é que nem ela permitiu se conhecer. Fez as malas e seguiu para o aeroporto. Ainda fez questão de contar toda a história ao taxista.

Ele ficou por ali, apreciando moais.

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sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Pedido

- E aí, Tetinha? To bonito?
- Tá bem gay, isso sim.
- Vai se foder. Ta bom ou não?
- Mano, tu tá saindo com ela tem um mês, tu acha que faz diferença se tu tá feio ou bonito?
- Claro que sim, idiota! Eu vou pedir ela em namoro hoje...
- Como se vocês já não estivessem namorando.
- Não estamos!
- Ah, tá. Vai na casa dela todo dia, virou melhor amigo do pai dela, a mãe dela te adora. Sua mãe e seu pai adoram ela. Passam o intervalo da aula juntos. Voltam pra casa juntos. Não joga mais bola com a galera na sexta porque vai pro cinema com ela. Não assiste mais jogo domingo porque tá na casa dela estudando... E quer me dizer que não tão namorando? No cu!
- Tu tá com ciúmes?
- Meu ovo.
- Então dá ele aqui pra eu fazer um carinho, vem... vem...
- Vaza, Duda! Sai fora seu prego! Tudo isso aí e num ganhou nem uma pegada no pau ainda.
- Caralho, Teta! Calma, velho. Tô brincando contigo. Po! To feliz, cara. Vou pedir a Jana em namoro hoje. - Não to com pressa de nada.
- Tu não tá com pressa pra comer ela?
- Claro que to afim. Mas deixa acontecer. As coisas tão caminhando muito bem...
- Moleque! Rolou alguma coisa e eu não sei? Me conta, viado!
- Não rolou nada. Nadinha!
- Tu tá me zoando...
- Juro que não. Mas ó, quando rolar vou te contar. Só que tu tem que largar de ser punheteiro. Num vou ficar te dando detalhe de nada não. Vou dizer “rolou” e pronto.
- Nem fudendo! Vai ter que contar tudinho. Quero saber cada detalhe.
- Nem a pau! Não vou contar pra tu ficar no banheiro depois pensando na minha namorada.
- Tu podia ver se ela não quebrava um galho pros teus amigos, né? Hahahahahahaha!
- Vai tomar no cu!
- Então, tu podia quebrar. Tá me devendo aqueles 50 conto do dia do sorvete até hoje.
- Vem cá que tu vai ver o que eu vou quebrar!
- Hahahahahahaha! Sem apelar, Dudinha!
- Tá bom, Tetudo. Deixa eu ir. Tá na hora.
- Boa sorte, moleque. Vou torcer pra ela dizer “não” e tu voltar a ser o velho Duda.
(dedo do meio)
- To zoando, viado! Torcendo pra ela dizer sim e te dar logo, seu cabação! Treinou o sutiã hoje?
- Não.
- Não vai tremer na hora, hein?
- Relaxa. Eu sei o que to fazendo.


- Oi, seu Reinaldo!
- Oi, Duda! Entra aí. A gente tá saindo, mas a Jana tá terminando de se arrumar lá no quarto dela. Vocês vão pra onde?
- Só lanchar ali pelo shopping mesmo.
- E você tá bonitão desse tanto por quê?
- Obrigado, dona Fátima! Não é nada demais, não.
- Tá certo. Vamos, Reinaldo. Se não perdemos a hora do teatro. Tchau, Duda, qualquer coisa liguem pra nós. Vamos estar na rua. A peça acaba daqui 2h.
- Tá bom. Bom teatro pra vocês!


- Jana?
- Oi, Dudinha! To aqui no quarto. Vem cá!
- Oi... nossa, como você tá linda!
- Obrigada! Você também tá bem gatão.
(envergonhado)
- Por que você tá parado aí e não veio me dar um beijo?
(beijo)
- Jana, queria te falar um coisa...
- Quê?
- Eu nunca fui muito bom nisso, mas acho que o que tá acontecendo é o que chamam de “se apaixonar”... E aí queria saber se... se você... vocêquernamorarcomigo?
(silêncio)
- Duda, eu não sei o que dizer.
- Como assim? É sim ou não... Meu Deus, você não quer...
- Não, calma. Não é isso. É só que... é... as coisas estão tão legais que tenho medo, sabe?
- Medo de quê?
- De mudar. De ficar diferente porque é namoro. Da gente passar a se cobrar.
- Então é um não.
- Mas é que eu não queria que fosse um não de acabou tudo. Eu queria que fosse um não de vamos continuar do jeito que tá. Será que dá?
- Mas você não acha que a gente já tá “namorando”?
- Não sei. Mas é que o rótulo é meio pesado. Vamos continuar assim, “ficando”. Do jeito que as coisas vão a gente pensa nisso depois. Só tem um mês que a gente tá nisso.
- Então a gente continua do jeito que tá, mas não é namorado?
- É. Pode ser...??
- Acho que pode, sei lá.
- Você tá chateado?
- Não sei.
- Como assim?
- Não sei, ué.
- Me dá um abraço?
(abraço)
- Você ainda quer ir lanchar?
- Quero. To com fome. Minha mãe nem fez nada pra comer aqui porque eu disse que a gente ia sair, eles também iam.
- É. Encontrei com eles antes de saírem.
- Você tá com fome?
- Acho que sim.
- Então vamos?
- Vamos.


Duda não tinha se preparado para aquilo. Na cabeça dele, as coisas iam tão bem que nem pensou que Jana poderia reagir daquele jeito.

Pensou em Teta. Queria ligar pro amigo e contar tudo, mas agora ia lanchar. Estava confuso. Não sabia bem como reagir àquilo tudo.

Jana o abraçou pela cintura e guardou a mão no bolso de trás da calça dele. Parecia que nem tudo estava perdido.

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sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Cortiça

E no meio de tanta mudança, tanta caixa, tanta coisa pra tirar da vista, uma que chacoalhava chamou minha atenção. Não chegava a pesar, mas já estava prestes a transbordar. A curiosidade, claro, venceu. Aberta, trouxe uma enxurrada de memórias. Nossa vida toda retratada em rolhas.

A ideia, até meio piegas, confesso, era ornar um vaso na nossa casa. E ali, rolha a rolha, ver nossa história sendo construída. Cada vitória comemorada a base de espumante. Cada jantar romântico regado a vinho. Os novos empregos, as reuniões com os amigos, as viagens, os aniversários e até os dias à toa em que o vinho era só uma desculpa ou uma culpa.

A caixa me trouxe tudo isso dos nossos cinco anos de vida.  Cada uma, com sua identificação, nomes de pessoas, locais, desenhos. E me fez lembrar de cada momento daquele. E me fez pensar em quanto nós crescemos juntos e quanto vamos deixar de compartilhar daqui pra frente. Quantas outras conquistas não beberemos juntos. Quantos goles solitários ainda teremos.

Nossa história pode ser revisitada em rolhas. É uma documentação impressionante. Dava para ter um museu do nosso amor todo à base de cortiça. Mas a dessa garrafa que bebo enquanto escrevo será minha só minha. Minha história sem você, que não sei quantas garrafas vai durar.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Do carro

Sabe do que eu sinto falta?

De te levar pra casa. Por mais que aquilo fosse uma despedida, te levar em casa era sempre um momento nosso. A gente nem precisava conversar. E isso era uma das coisas legais, a gente se entendia no silêncio, não tinha aquela ânsia por falar algo, com medo de que o silêncio estragasse as coisas. Não existia aquela vergonha do nada, quando é melhor dizer alguma bobagem do que suportar a mudez.

Eu e você dentro do carro. Ouvindo nossas músicas, às vezes mais minhas que suas. Às vezes mais suas que minhas. E no trajeto você acariciava minha nuca. A mão delicada, suave, me fazendo cafuné. E eu sempre pedia pra você parar, mas querendo que continuasse, sob a alegação que ia me fazer dormir. Você não parava, mas em pouco tempo quem dormia era você. Eu queria parar o carro, deitar teu banco e cochilar contigo, mas me mantinha atento porque ainda precisava chegar com você em segurança.

Eu e você dentro do carro. E eu repousava minha mão cansada na sua coxa. Quando usava saia ou vestido, puxava um pouquinho pra poder sentir tua pele. Ta aí, acho que também sinto falta da tua pele. A textura, o cheiro, o gosto. E o calor da minha mão nos fazia suar. Era estranho, mas quer saber, era bom. Sentir minha mão grudada na tua coxa, como se não mais pudesse sair dali.

Eu e você dentro do carro. Minha irritação com o trânsito. E eu xingava, encarava os outros motoristas. E você me dizia pra ter calma. E eu resmungava, respirava e me continha. Sabia que você estava certa, mas você sabe que o trânsito sempre me irritou.

Eu sinto falta de parar debaixo do teu bloco, te dar um beijo rápido e te mandar subir, apesar da vontade de passar mais infinitas horas te namorando ali. Mesmo assim, te mandava embora. E ficava lá a esperar a portaria fechar e te observar sumir escada acima. Enquanto manobrava, você chegava lá em cima e mandava um último beijo pela janela.

Eu sinto falta. Sua companhia me faz falta.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Memories*

*Por Iêda Campos Vilela

Dentro da gente existem varias caixinhas e caixonas.

Tem as caixas das boas lembranças, das más, das de infância...

Tem aquelas que vc deixa num lugar acessível para poder pegá-la, a qualquer momento, e recordar. Tem outras que é melhor deixar bem no fundo, pra nem ver a cor.

Eu ando fazendo uma limpa nas minhas caixinhas e caixonas. Como de costume, as com coisas ruins to jogando fora, sem nem pensar duas vezes. Em outras, pego, abro, relembro, revivo, rio, choro e jogo fora o que não vale a pena.

Mas aí, no meio de tantas caixas vi que é preciso jogar fora até algumas que são cheias de coisas boas. É melhor não lembrar, não reviver, não ter. Porque elas não voltam mais e esse misto de saudade, vontade e impossibilidade me matam.

Ta, não vou jogar fora nunca. Confesso. Mas vou guardar no fundo. E só vou deixar uma etiqueta: “Não abra! Bons momentos que não voltam mais, por mais que vc queria.” Nessa caixa vou aproveitar e colocar alguns sonhos de verão e expectativas de vida também.

Deixa ela lá. Tem outra aberta aqui, bem grandona, pronta para ser preenchida por uma monte de outras coisas e pessoas legais.

*O Blog Alguns Momentos publica, uma vez por mês – sempre na última semana –, um texto de um amigo do blog. Tem uma história para contar? Quer escrever também? Mande seu texto para blogalgunsmomentos@gmail.com

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Baile

Dia desses me peguei pensando um daqueles pensamentos que eu sei que não devia pensar. Mas fazer o quê? A gente só se dá conta que não deveria ter pensado aquilo depois que pensou. Depois que o pensamento está lá na nossa cabeça é que a gente se pega pensando que não devia perder tempo pensando naquilo. Mas, afinal, quem controla nossos pensamentos?

Enfim, me peguei pensando que você devia estar dançando por aí.

E fiquei feliz. Aí me questionei que, bem, no fim eu devia sim pensar aquilo, mas não interessa agora o que devo, ou não, pensar.

Mas fiquei feliz de pensar que, sim, você devia estar saindo e dançando por aí. Feliz porque isso é uma vitória. Sua. Mas também minha. Eu lutei tanto pra te fazer dançar. Quantas vezes tentei te guiar pela pista de dança enquanto você fincava os pés debaixo de uma mesa e grudava a bunda na cadeira. E eu querendo ver teus pés descontrolados no salão, sua bunda rebolando descompassada.

Eu sei que ritmo nunca foi seu forte. Assim como matemática. Talvez até tenha uma certa relação nisso. Eu nunca fui muito bom com detalhes. Nem com desenho (e pode ser que também exista alguma relação aí). Fazer o quê? Mas eu nunca deixei de tentar. Quantos papéis com desenhos toscos te entreguei? Quantas vezes não tentei te detalhar cada passo do meu dia?

Enfim, a gente estava falando de dança. E, sim, eu fiquei muito feliz de te imaginar dançando por aí. Eu espero mesmo que você não esteja ainda tão resistente e envergonhada. Até fiquei com vontade de estar em lugar desses por onde você têm andado, pra ficar ali no cantinho escondido, só te observando.

Só não quero te ver controlada, ensaiada, coreografada. Quero você louca, rodando, pulando, balançando os braços. Quero você solta como nunca esteve. Não era essa a promessa quando você se foi? Então, solte-se. Sorria. Invente. Dance como se não tivesse ninguém te vendo. Dance com você mesma. Dance sem culpa. Dance sem preconceito.

Aposto que quando você se der conta da alegria que isso traz, você perceberá que estará dançando comigo. Mas para de pensar nisso agora e vem dançar. Pensa não, que esse é daqueles pensamentos que não se deve pensar assim do nada. Deixa de pensar e dança. Pode pisar no meu pé, não tem problema.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Era uma carta, mas...

Fui escrever teu nome, mas só saiu saudade.

Engraçado, né? Houve um tempo - longo, gostoso e real - em que eu ia escrever teu nome e só conseguia rabiscar amor.

Antes disso, minhas mãos só guiavam o lápis pra escrever ansiedade. De te ver de novo. De te fazer sorrir. De te mostrar coisas novas. De poder te tocar e sentir tua mão passeando pelo meu corpo.

E antes ainda, tudo que eu conseguia era escrever desejo. Da tua boca. Das tuas histórias. Dos teus sorrisos e olhares.

Mas agora, agorinha mesmo, eu ia começar esse texto como uma carta endereçada a você. Te vi na minha mente. Você sorria e teus olhos brilhavam como sempre. Você estava naquele vestido que eu te dei no ano passado. Linda! Você ficava deslumbrante com ele. Lembra até que o Luiz me mandou mensagem pra te elogiar?

Pois. Te vi assim e ia começar a “carta”:

“Querida S... Sau... Sauda... Saudade”

Teu nome não veio. Travou. As letras se confundiram. Sei lá. Mas acho que aquela imagem na minha cabeça me trouxe isso: SAUDADE.

Daquilo tudo. De você sorrindo pra mim. Dos teus olhos brilhando ao me ver. Dos meus amigos vendo o quanto você era feliz e bonita ao meu lado. E de mim mesmo. Do cara legal que eu era com você. Das gentilezas que aprendi a fazer pra te agradar. Das horas que passava pensando em como te surpreender.

E aí, a sua “carta” morreu. Virou isso aqui. Mesmo assim, vou terminar como sempre terminei tantas outras cartas que te escrevi:

Te amo.
Beijos do Seu Paulo.



sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Pra liberar espaço

Era tanta coisa que não cabia ali. Parecia que o espaço era pouco. Curto. Apertado. E ele era bem maior que aquilo tudo. Tanto sentimento. Tantas ideias. Tantos sonhos. E aquilo tudo apertado, lá dentro. Umas coisas empilhadas sobre as outras pra ver se ficava tudo mais organizado e, ainda assim, não dava.

E o pior é que ele sabia que ainda tinha muito por vir. E que as coisas só ficariam mesmo entulhadas ali. Sobrepostas, sem utilidade, sem uso. Até porque, ele mesmo não conseguia achar algumas coisas quando procurava. Cadê aquele sorriso? Cadê aquela saudade? Onde foi que colocou aquele plano de passar um ano de férias viajando pelo mundo?

Não sabia mais. O tempo tinha passado. Outras bagagens foram chegando. A pilha estava cada vez mais alta. As boas lembranças soterradas pelas dificuldades da vida. Os amores perdidos por sabe-se lá o quê. E todo aquele acúmulo só o deixava mais angustiado.

E aí, parou. Olhou bem lá no fundo. Catou uma vassoura, a pá, o álcool e o pano. E faxinou. Botou pra fora tudo que não prestava mais. Jogou fora recordações que só faziam mal. Lustrou aquelas que eram mesmo memoráveis e as reorganizou na estante. Colocou em caixas aquilo que poderia um dia ainda usar. E achou o riso. Reencontrou o choro. Brincou com a saudade. Espanou a tristeza.

E abriu a caixa do amor. Agora tinha espaço suficiente pra colocar um monte de novas histórias lá dentro.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Visita*

*Por Maria Carolina

Moço. Não me deixa ir. Diz pra eu ficar só mais um pouquinho, vai? Esse negócio de ir pra ficar pra sempre de outra forma é coisa de covarde. Mas agora é tarde. Já virei a esquina aqui do ministério das coisas que não sei o que vão acontecer e aquela sensação gostosa que alguém especial estava muito perto ficou lá no seu carro. Ficou com você. Droga! Arrisquei com a intuição e errei.

Não sei. Quem sabe alguém apareça? Quem sabe eu volte a sentir isso quando toda essa confusão estrelar passar, não é?

Eu posso entrar na sua casa escondida. Então o tempo verbal muda.

Prepara aí qualquer coisa pra eu comer? Agora é tarde pra café, mas eu aceito um espumante se você tiver.

Quero palpitar sobre seus novos livros. Deixa eu te falar também sobre uns autores que são a sua cara? Quero ouvir sua nova cantora melódica preferida e te mostrar aquela outra latina que você ainda não teve tempo de ouvir.

Posso me aninhar na tua cama e mais tarde te pedir um banho daqueles. Por falar nisso, como sempre foi, se a gente dormir não vai ser direito. Eu ainda tenho várias coisinhas pra mostrar. Certeza que você vai adorar. Vou tentar te acordar daquele jeito que prometi. Eu não prometi?

Eita que agora tenho que ir. Mas faz um café pra mim? Tenta me manipular só um pouquinho. Vamos ver se relaxada com a noite eu não resolvo te contar aquelas verdades que só saem assim, por escrito. Te contar que é pra você que eu canto aquele clássico brega que você pensa que é pra outro. Te contar que meu ciúme é medo bobo da nuvenzinha da minha intuição se instalar por aí em um lugar errado.

*O Blog Alguns Momentos publica, uma vez por mês – sempre na última semana –, um texto de um amigo do blog. Tem uma história para contar? Quer escrever também? Mande seu texto para blogalgunsmomentos@gmail.com

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Não tem nem título pra isso

E quem entende? Quem consegue mesmo vir aqui e explicar pra mim e pra você por que é que as coisas são assim? Não tem regra. Não tem manual. Não tem classificação. Não tem padrão. Não tem rótulo. Não tem porra nenhuma, pra ficar bem claro, que diga o que é certo e o que é errado agora.

Você pode ter seus princípios e eu os meus. Você tem seus anseios, eu tenho meus sonhos. Tu te escondes dos teus medos e eu abro os braços pra qualquer droga que pinta na minha frente, porque quero mais é experimentar mesmo. Você se lança em novas aventuras e eu quero terminar de ler meu livro. Teu passado te formou e eu adoro isso. Quero ouvir o que posso e ignorar o que não importa. Meu passado me construiu e eu gosto ainda mais disso.

E nisso tudo, estamos aqui. Lado a lado. Mãos dadas. Lábios incansáveis, sedentos, famintos. Corpos queimando ao mínimo toque. Roupas voando na menor possibilidade de acontecer. Planos feitos sem saber se vão mesmo acontecer. E quem é que entende? Quem explica o que é isso tudo? Quem diz o que vai acontecer daqui pra frente?

Eu não sei. Acho que você também não faz a menor ideia. Mas eu vou em frente. Batalho, tento, brigo, discuto, reclamo, explico, ouço, canso. Volto atrás, mudo de ideia, concordo, discordo, refaço pensamentos, busco palavras, releio frases. E continuo aqui pra ver onde vai dar. E você?

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Volta no tempo

Se eu pudesse voltar no tempo, voltava lá naquele dia da cerveja, Minha cerveja, sua água. Aliás, eu nem sei por que você escolheu um bar. Engraçado que também nunca te questionei isso. Enfim, voltava naquele dia para poder dizer as coisas mais incompatíveis com você. Fingir que eu era outro. Pra falar qualquer outra coisa diferente do que eu disse e que fez você gostar de mim.

Quem sabe assim as coisas tinham caminhado de forma diferente. Você disse tantas vezes que eu apareci na sua vida na hora errada. Que você ainda tinha tanto pra fazer antes de mim. Precisava terminar os estudos, passar num concurso público, comprar sua casa, ganhar dinheiro, ajudar seus pais, fazer mestrado, ter seu próprio negócio. Tudo isso antes de se apaixonar por alguém como você se apaixonou por mim.

E eu me pergunto se tivesse dito as coisas erradas naquele dia. Se não tivesse te mandado um e-mail no dia seguinte. Se não tivesse ido te visitar só pra bater papo debaixo do bloco. Se não tivesse te beijado no dia do cinema. Se tivesse deixado tudo acabar quando você achou que era melhor porque éramos muito diferentes. Se não tivesse voltado bêbado e falado um monte de verdades na sua cara. Como teria sido?

Será que você tinha vivido tudo o que não viveu? Será que você teria vivido tudo o que viveu? Será que hoje você estaria pronta para ser minha? Será que agora você teria suas conquistas e estaria pronta pra se apaixonar e deixar as coisas caminharem com tranquilidade?

Não sei. Mas acho que se eu pudesse voltar no tempo, pensando bem, voltava mesmo no dia em que você me disse tchau. Pra te abraçar e dizer que, sim, eu tinha aparecido na sua vida na hora certa. Era você quem tava indo embora na hora errada.