A vida é feita de histórias. Boas e ruins. Surpreendentes ou não. Você nunca estará livre de histórias marcantes.
segunda-feira, 27 de julho de 2009
porra! tô puto!
ao som do do cavaco ficou interessante. gosto dessa música há pelo menos uns quatro anos. achei estranho, inadequado (os chicleteiros que me perdoem) para aquele momento, mas... "beleza, é festa, uuh!!". Ele prosseguiu na "pregação": "Deus te trouxe aqui/ Para aliviar os seus sofrimentos ô ô ô". eu até cantava junto. chegou o refrão, cantei de novo (é a parte mais bonita da música).
mas o foda começa agora: o bicho esqueceu o resto da letra e começou a solfejar e inventar uns trechos lá: "fulano de tal, me traz um cervejaaaaa ô ô ô". ah! não.. perai! ai eu fiquei puto. pô, tudo bem que o cara toque uma música religiosa num antro de cachaça, pagode e, acidentalmente, onde a putaria comportamental pode rolar solta (leia-se pegação). mas zombar da palavra de Deus já é sacanagem.
explico. não sou um exemplo de conduta. mas costumo ir a igreja quando posso. não sei explicar por que. mas gosto de estar lá. essa música é um símbolo. mas, bonita e triste, teve a infelicidade de ser alçada pela galera do chiclete com banana (acho que foram os caras que gravaram). ai, banalizaram a coitada e reverteram totalmente a função social que ela se propunha.
no meu carnaval, por exemplo, fui comprar uma cerveja numa conveniência e lá tinha um carro parado, com a mala aberta, escutando essa música. ao redor dele, um monte de bêbados, cantando e dançando. o motorista dava tavas na bunda da namorada enquanto entoava "ô ô ô". minha silenciosa indignação começou ai.
e ela se traduz num lado quase-religioso-social e noutro pessoal. mais uma vez, explico: a primeira vez que escutei essa música ao som do violão, eu acompanha o cortejo que levava o corpo da jovem maria clara (cês lembram dela) até o local onde seria enterrado. naquele momento, mesmo lá como repórter, não tive como não me comover, sobretudo, com essa parte: "e ainda se vier noites traiçoeiras/ se a cruz pesada for/ cristo estará contigo/ e o mundo pode até fazer você chorar/ mas Deus lhe quer sorrindo".
por isso adquiri um carinho especial por ela. de lá pra cá, a escuto sempre com muito respeito. ai vem o chiclete com banana (demolidor que me perdoe) e esculhamba com tudo. agora, a música virou um hit para animar as cachaçadas. repito: não sou um poço de religiosidade, muito menos sei interpretar a palavra de Deus como se deve, como meu amigo dieguito amorim. mas acho um desrespeito. e tô puto!
quinta-feira, 23 de julho de 2009
Tudo azul
Foi quando, num belo dia, a noite, que já era escura, ficou confusa. E ela pegou-se olhando uma blusa azul, no meio de uma festa toda vermelha e preta. Baile de tradição. Coisa de gente que gosta das mesmas coisas e das mesma gente. Não era bem o caso dela. O que será aquele ponto azul no meio daqueles espantalhos? Não sabia. Aproximou-se. Não devia. O azul sumiu. Ela ficou sem saber aonde ia.
Esperou e nada! Resolveu embrenhar-se por pensamentos vermelhos ou pretos. Era bem mais fácil se dar bem. Parou, bebeu, sorriu, dançou, sentou e... sentiu um braço forte por trás a abraçá-la. Beijaram sua nuca. Ela avistou o braço, a camisa azul. Sorriu, cerrou os olhos, passou o queixo naquela pele delicada, mas forte. Entregou-se, de olhos fechados. Sentiu uma força a virar-lhe o rosto. Entregou-se mais ainda. Sentiu lábios. Primeiro no rosto, depois na boca. Beijou. Beijo demorado. Isso é coisa de homem apaixonado, imaginou.
Olhos ainda fechados, estendeu o beijo a um abraço. Resolveu acordar. Viu, apertou os olhos. Pra que? Não era o que imaginava. Aquilo era uma mulher. Não tinha nada com nada. Asfastou-se. Recebeu um sorriso malandro de uma mulher sem muito a perder. Viu o azul desaparecer. Estava chocada, revoltada, evergonhada. Mas encantada. Nunca receberá um abraço daqueles. Bebeu pra esquecer. Dormiu e acordou. Tudo estava azul.
sexta-feira, 3 de julho de 2009
Não deu valor
E agora, o que eu vou fazer?
Doía como costumam doer as grandes decepções, mas aquela tinha algo de diferente. Porque ela é quem havia se decepcionado. Ela tinha jogado contra ela própria, achando que o teria no momento em que quisesse. “É um guri bobo. É só chamar que vem correndo”, pensava. E assim fez por várias vezes. Chamado atendido, ela recebia o afago que queria, divertia-se com o rabo abanando do seu cachorrinho e depois o botava para dormir do lado de fora. E a música ainda trepidava as caixas de som do seu veículo.
E agora como posso te esquecer?
Doía como costumam doer os choros silenciosos, mas aquele tinha algo diferente. Porque o silêncio de suas lágrimas era rompido por um leve soluçar e pelo eco de seu próprio pensamento que gritava “Burra! Burra! Burra!” a cada lembrança de um bom momento vivido ao lado dele. Momentos que não se repetiriam mais. Porque agora ele havia achado um lar. Alguém que o queria de verdade. Alguém que não o via como um brinquedo para horas de monotonia.
Espero que o tempo passe
Doía como costumam doer as despedidas inesperadas, mas aquela tinha algo diferente. Porque ela poderia tê-la evitado, mas não o fez. E agora sabia que não o veria de novo, mesmo após acabar a semana. E no carro, foi-se embora. Sem saber como não percebeu que ali estaria sua alegria, que ali poderia repousar seu futuro.
E agora como posso te perder?
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
Ficou pra trás
Ontem, por exemplo, te vi entrando naquele café e pedindo o mesmo chocolate quente acompanhado de biscoitos. Outro dia te vi na porta da banca de jornais, com o dedo a enrolar o cabelo – o maior indício de sua dúvida – analisando duas capas de revistas daquelas que prometem dar dicas de como enlouquecer o homem na cama, ou alguma dieta mágica que te faça perder 10 quilos em dois dias.
Sei também das festas que você vai. Sei dos porres que toma. Das surras que leva da vida e até das alegrias que tem tido. Teu gato novo, aquele angorá, é bem bonito, por sinal.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Obrigado
- O que? Como assim?
- É. Obrigado por te esquecer. Foi melhor assim mesmo.
- Que mesmo? Que assim?
- Obrigado por não pegar na minha mão quando precisei, por calar quando queria te ouvir, por dançar quando te queria ao meu lado e por parar quando eu queria dançar. Obrigado por fugir, por só ficar, por não estar. Obrigado por nunca me agradecer, nem sorrir e me chamar para sair. Valeu mesmo por me atender e me despistar com aquela desculpa sorridente. Obrigado por me levar a sério só quando lhe foi conveniente. Por gostar de mim apenas nas tuas noites vazias e saber fazer só o que pra mim você não devia. Obrigado por ser assim. Agradeço-te pela falta de carinho, de consideração. Ter-te é um espinho. Obrigado por não teres flores na mão. Com você, aprendi qual o meu caminho. Falta agora ensinar a meu coração.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
Parceria
Mesmo em silêncio era possível notar a cumplicidade entre eles. Sentados, um ao lado do outro, trocando carinhos. O papo devia variar entre o clima, a vida, as notícias do jornal que ele carregava debaixo do braço. Enfim, aquilo não interessava. O importante para os dois era estar lado a lado.
Vez ou outra levantavam-se do banco e davam um passeio. Esticar as pernas era importante para os dois. Não estavam mais em idade de muitas aventuras e uma breve volta pelos arredores já devia cansá-los. Por isso a brevidade das caminhadas
Mesmo com todo esse ambiente de alegria e cumplicidade, ao vê-los, meu maior pensamento era sobre a morte. Sobre qual dos dois ela visitaria primeiro. Qual dos dois ficaria sozinho. Qual deles tentaria levantar e sentar no velho banco sem a companhia do companheiro.
Cumplicidade, amizade, parceria, companheirismo, amor. Tudo isso faz parte de um relacionamento. Ainda que seja como a dos dois. A bela relaçãao entre um velho homem e um velho cachorro.
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
Argolas
Ele as encontrou uns dois dias depois que ela foi embora. Estavam debaixo da cama, caprichosamente caídas, como se tivessem sido postas ali por alguém. Uma ao lado da outra. Ela gostava tanto daqueles brincos que ele não podia imaginar como ela os tinha esquecido ali, justamente naquele dia em que fizeram amor pela última vez. Feito meio que como uma despedida, ou uma forma de reconciliação. Ele não sabia ao certo. Tudo agora era incerteza entre eles.
Mas ele sabia que ela não iria embora sem suas argolas. Se elas ficaram ali, tão bem posicionadas é porque queriam dizer algo. Às vezes, ela mesma poderia tê-las deixado ali como um sinal de que voltaria para buscar seus tão queridos brincos. Talvez, pudesse ser apenas um presente de recordação para ele. E o seu “fio de cabelo no paletó”, naquele momento, era sua única esperança em revê-la.
Um par de argolas prateadas. Tão bonitas em suas orelhas, que tantos beijos deu. Ele só esperava que ela quisesse usá-los de novo. E que não os encontrando, lembrasse de onde estavam e fossem ao seu – dele e não dos brincos – encontro.
quinta-feira, 25 de setembro de 2008
Banho de dor
E não foi diferente no dia em que ela ligou dizendo que não dava mais. Sentado em seu computador, ele atendeu ao telefone já prevendo que aquela não seria apenas uma ligação cordial. As palavras até que não foram fortes, mas só a idéia de tê-la perdido fora suficiente para que as primeiras lágrimas lhe rolassem pela face sem nem esperar pelo chuveiro.
Depois do tchau – um adeus tão triste que parecia ter uma mão em seu peito apertando seu coração com toda a força possível –, encaminhou-se direto para o banheiro. Era uma reação instantânea, não premeditada. Acontecia naturalmente, como acordar, esfregar os olhos e espreguiçar-se.
Estava, então, no banheiro. Agachado, a água caía do chuveiro e a enxurrada de lágrimas escorria pelos olhos. Era possível que ele desligasse o chuveiro e, ainda assim, parecesse que este permanecia ligado, tamanha a intensidade do choro. Já sentado, sem vergonha por aquela situação, deixou que o fungar de seu nariz e a respiração ofegante de quem chora fossem ouvidos por todos.
De que importava agora ser forte, não mostrar aos outros que de seus olhos também escorriam lágrimas? Ele queria mesmo era chorar, expelir cada gota daquela água salgada que lhe mareava a vista.
Vista que, talvez, não fosse mais vista. Porque não sabia se seus olhos, depois de tantas lágrimas, conseguiriam encarar os dela novamente. Mas sem dúvida, chorariam de saudades suas a cada banho.
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
Ho Ho Ho
Sabe aquela sensação de alegria, bem-estar, satisfação e tantos outros bons sentimentos que nos acometem lá para dezembro e que as pessoas costumam chamar de “espírito natalino”? Pois é. Era assim que ele se sentia com ela. Como se qualquer dia, qualquer mês fosse Natal.
A alegria era intensa, como a de uma criança que ao acordar na manhã do dia 25 de dezembro descobre o tão sonhado presente debaixo da cama. Estar com ela, sentir seu abraço, seus beijos era como rasgar o papel de presente do embrulho e ver a embalagem do carrinho de controle remoto.
E era mesmo assim, como uma criança, que ele se sentia ao lado dela. A alegre criança que pela primeira vez senta no colo do Papai Noel, ganha uma bala e revela o presente esperado pelo bom comportamento durante o ano.
Natal todo dia. Um presente em forma de amor.
quarta-feira, 23 de julho de 2008
Passado x Futuro
- Ah, mãe! Como que você me viu se estava de costas?
- Eu tenho olhos na nuca, Duda. Olhos na nuca.
Ainda que tivesse - como tinha sua mãe - olhos na nuca, os de Eduardo permaneceriam para sempre fechados. Para que olhos na nuca se tudo o que eles veriam seria o que foi deixado para trás?
Eduardo não queria se preocupar com nada do que era passado. A única coisa boa que tinha dos tempos idos era sua mãe. Essa, infelizmente, também já tinha ido e lembrar de momentos com ela eram sempre dolorosos. Por isso, Eduardo não queria que sua nuca tivesse olhos. Muito menos olhos abertos.
Olhos que veriam a dor da morte da mãe. A tristeza de uma adolescência solitária em um orfanato. As loucuras de anos em meio às drogas. As lágrimas pelo primeiro amor que nunca lhe deu atenção e, mais recentemente, o último que lhe deixou com o coração em pedaços.
Olhos na nuca não poderiam ajudá-lo a buscar a felicidade pela qual ele sempre esperou. Olhos na nuca não poderiam fazê-lo enxergar o caminho do sucesso que ele almejava. Olhos na nuca seriam sempre a vitrine do passado, do fracasso e da decepção.
Olhos na nuca sempre fechados. Aberto, apenas seu peito pronto para enfrentar os desafios da nova vida. Olhos para o futuro são os do rosto, que enxergam à frente. Atrás, só virando o pescoço e isso Eduardo não pretendia fazer.
segunda-feira, 26 de maio de 2008
O 1% que mantêm um par equilibrado
Outro dia ouvi falar de uma célebre e interessantíssima frase de um tio de consideração muito querido por mim e por minha família. Ele travou um animado e breve diálogo com um de nossos amigos, durante uma festa e sua casa. Foi assim:
- Você gosta dela - perguntou ele ao rapaz, sentado ao lado da namorada.
- Gosto, tio.
- Mas você gosta muito dela? - insistiu.
- Gosto. Gosto muito - afirmou o jovem, curioso com a pergunta.
A resposta que se seguiu é um ensinamento que só pode passar quem está há três décadas casado como se fosse há três dias.
- Pois, meu filho, não goste cem por cento não. Goste noventa e nove por cento. Mas cem por cento, não.
Gargalhada geral, claro. A frase é de fato engraçada. Mas muito proveitosa para uma reflexão.
Se fosse eu o autor dela, não teria peso algum. Mas um homem com a experiência, equilíbrio e respeito dele autentica um novo sentido. Um exemplo de vida.
Passei semanas pensando nessa frase. Comentei com amigos para ver se a impressão que eles têm ao escutá-la é a mesma da minha. Percebi que sim. Mas a tese sobre ela ganhou novas impressões, portanto.
Quando ouvi o comentário pensei logo que esse 1% que falta para completar o amor incondicional é o amor próprio. E aquilo que reservamos para nós, que nos mantém equilibrados.
2 - Numa visão menos experiente de uma relação, acho que esse 1% é a saudável insegurança que um relacionamento merece para manter duas pessoas conectadas. É como se esse ponto percentual fosse a descoberta que ainda falta, que incita curiosidade e move a engrenagem de um namoro ou casamento por muitos anos.
Ou seja, esse um ponto é o equilíbrio. Há quem goste de ser muito amado. Mas ser amado incondicionalmente não tem graça. Precisamos, no mínimo, de momentos de insegurança. Sentir, as vezes, que nada é o que parece.
Mas só quem já tem muitos anos de estrada consegue amar plenamente e deixar o 1% agir sem ser percebido, sem causar transtorno. Nós, jovens, quando nos relacionamos, proporcionamos insegurança demais ou insegurança de menos. Portanto, erramos na dose.
Isto é: amar 99% é pra poucos. Poucos e raros como meu querido tio. Aliás, não perguntei a ele, o dono da reflexão, qual o real significado dela. Talvez um dia pergunte. E ai vou contar pra vocês...
domingo, 23 de março de 2008
Ela
Mesmo tanto tempo depois ele ainda tinha, claro como um raio de sol, a lembrança de seu cheiro. Do perfume, do xampu, do hálito, do sono. Cada qual com seus tons diferentes, mas sempre doces.
Mesmo tão distante ele ainda tinha o tom de sua voz nos ouvidos. Nas broncas, nas brigas, nas palavras doces, nos gemidos, ao telefone, ao pé do ouvido e, principalmente, nas risadas. Cada qual com seu timbre que deixavam claro suas intenções.
Mesmo depois dos anos idos, ele ainda tinha seus gestos. O toque na mão, o abraço, o arrumar o cabelo, a forma de tirar a roupa e depois colocar de novo. Cada qual com sua velocidade. Cada um com seu desejo.
Mesmo depois de passados os dias ele ainda lembrava de tudo aquilo e sabia que jamais esqueceria. Seriam aqueles - corpo, cheiro, voz, gestos - os modelos para sua vida. Seria ela a sua eterna musa. Seria aquela menina seu eterno querer.
quinta-feira, 6 de março de 2008
- Tá difícil de agüentar...
- O quê?
- Ficar assim por muito tempo. É duro, sabe? Distância, saudade... Esses telefonemas sempre duram menos do que devem. Sempre que desligo fico mais assim... triste e feliz, sorrindo e chorando.
- Eu também. Mas é assim, meu amor. Não deve durar muito. Nessas horas, imagina que eu viajei, ficarei fora durante algum tempo. O tempo necessário pra comprovar que tudo isso é pra valer. No final tudo vai dar certo.
- Mas será que é pra valer mesmo?
- Não sei se é pra valer. Ninguém nunca vai saber. Nem quando a gente estiver realmente junto. Mas, agora, é isso que eu sinto. Amo com profundidade. Amo tanto que tudo fica pequeno. Amo tanto que a tristeza da distância é bem menor que isso tudo. Sinto que vivo pra um dia isso dar certo.
- Eu também. Te amo muito e sempre. Vou sempre esperar isso acontecer. Estou aqui rezando pra que esse amor aumente. Depois de você, minha vida tornou-se nova. Tudo que eu tinha antes ficou velho. É como se nada do que passou serviu, entende? Queria ter o passado de novo pra ter você logo e certo. Porque eu...
- Só um minuto, linda. Tenho que desligar. Ligo de volta em um minuto. Te amo.
....
- Oi! Voltei.
- Pois é. Porque eu não gosto da vida que levo. Não gosto de ter você só assim, de vez em quando. Não gosto de querer te ver sem ter ou te ver sem te tocar. É muito ruim. Meu amor não permite tanta renúncia. Nunca fui acostumada a isso. Às vezes me sinto envergonhada. Vivo um amor que é, na prática, sem sentido. Nosso mundo é nosso. Isso é bom. Mas queria expandi-lo.
- Eu sei como é. Por vezes sinto isso também. Mas sei que é tudo uma questão de tempo. Tudo só precisa dar certo por algum tempo. Depois, as coisas mudarão pra melhor. Te prometo. Sempre pra melhor. Nada disso aqui ocorre por acaso. Nunca merecemos isso. Mas acontece. Quero apenas pensar que agora é o melhor momento. Você é o melhor momento.
- Que bom. É bom saber que a gente continua forte. É difícil não imaginar que isso pode acabar por quase nada. Mas já estamos assim há algum tempo. E acho que falta pouco. Vou esperar. Não quero outra coisa na vida, senão que isso aconteça.
- E vai acontecer. Pode ter certeza. Eu farei tudo como a gente combinou. Te amo muito. Você é ideal. E isso não é paixão. É amor. Não é distância que me deixa assim. Fico porque amo. Nem sei o que é isso direito, mas é a definição mais próxima pra traduzir a dimensão do que sinto.
-Ai. Não fala assim! Já fico morrendo de saudade. Quando vou poder te encontrar de novo, hein?
- Meu amor, ela chegou. Tenho que desligar. Amanhã a gente combina direitinho. Não pode demorar muito. Te amo sempre. Pensa em mim.
- Tá. Também. Beijos...
- Beijos
segunda-feira, 3 de março de 2008
Fogo
Toda a sala tinha o olhar preso naqueles cabelos, menos ele. Ele percorria todo o rosto. Os traços finos do nariz, a boca que desfazia a “sem-graceza” e voltava a sua forma perfeita. Os olhos fortes, contornados de preto.
Sentada à frente dele, prendeu o cabelo em um coque e deixou a nuca à mostra. A pele clara era convidativa a um beijo. As pequenas orelhas recheadas de brincos mostravam um pouco de sua rebeldia e vaidade.
O cheiro de xampu exalava de seu cabelo e o embriagou completamente quando ela puxou a lapiseira que prendia o coque e deixou o cabelo cair novamente sobre os ombros. Pareciam fagulhas de uma fogueira.
A paixão súbita. Aquele era o mal dele. Apaixonava-se de repente e pelas menores coisas. Dessa maneira, em um mesmo dia era capar de apaixonar-se inúmeras vezes. E aquela paixão era, sem dúvida, a mais intensa que acontecera naquele dia. Forte, avassaladora e quente.
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
A Placa
A grande diferença era que aquilo não poderia ser considerado um amuleto. Muito menos da sorte. Afinal, sorte seria se ela encontrasse e não mais precisasse carregar aquela placa. Não que ela achasse ruim. Aquilo era como um estímulo a ela. Para não desistir enquanto não encontrasse.
Mas muita gente nem lia sua placa. Muitos sequer notavam que havia aquela placa ali. Mesmo grande, com letras garrafais e em cores berrantes, não era todo mundo que conseguia vê-la. Alguns percebiam que havia algo, mas não conseguiam dizer o quê. Outros sabiam que era uma placa, mas não davam conta de ler o que vinha escrito. Alguns, com muita dificuldade até liam, mas cansavam por demais a vista e desistiam.
Às vezes, ela até ajudava na leitura, mas via que estava esforçando-se em vão e deixava para lá. Mas a busca não terminava. Ela continuava empunhando sua placa com certeza de que um dia encontraria. Por que carregar uma placa, pesada e trabalhosa em seu pescoço? O que ela procurava?
O amor. Era ele que ela buscava. E era por ele que ela fazia aquele esforço. Até o dia em que deixará de carregar a placa e vai ser carregada por ele.
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008
Todo carnaval tem seu fim
A pergunta
Oi, tudo bem? Como foi de carnaval? Comigo foi mais ou menos. Fiquei em casa mesmo, sem clima para festa. E olha que antes estava animado pra viajar. Achei que estivesse muito certo ao tomar aquela decisão. Me enganei. Desabei antes de começar a festa e me arrependi de tudo aquilo. Não devia ter acabado com você. Fui influenciado por meus amigos. Achei que me divertiria sem você. Me enganei. E pior: eles todos, os meus amigos, viajaram. Fiquei só. Pensando em você.
Sei que é muito egoísmo da minha parte fazer o que faço agora. Você sofreu, chorou e disse que não queria acabar. Ficou com raiva e mesmo assim não percebi que estava fazendo a coisa errada. Errei feio. Ainda te amo. Amo muito. E estou completamente arrependido de tudo que fiz e queria, na profundidade da minha vergonha, te pedir desculpa e se puder considerar meus erros e voltar pra mim. Pelo que te conheço, sei que não vai ser fácil. Mas, se ainda me quiser, estarei aqui, te esperando... Beijos. Te amo...
Três dias depois...
A resposta
Olha, posso imaginar o que você está sentindo. Eu acho até que já sabia que isso poderia acontecer. Sua decisão foi muito precipitada. Você estava visivelmente influenciado por seus amigos e por essa viagem de carnaval. Mas esqueceu que não pode fugir dos seus sentimentos. Eu sofri muito. Chorei dois dias, mas, ao contrário de você, tive muito apoio das minhas amigas. E viajei com elas. Me diverti muito. Vi suas ligações, mas não quis atender. Feliz ou infelizmente, pensei muito pouco em você.
Hoje, por mais rápido que pareça, não sofro tanto e cheguei a conclusão que não quero mais namorar. Sobretudo depois que senti tudo que você me causou. Senti-me chutada, descartável, trocada pelo carnaval e por seus amigos. Senti-me um nada. Eu gosto de você. Tenho um carinho imenso e lembro de cada momento bom que vivemos juntos. Mas não quero mais. Acho que poderemos ser bom amigos...
E é o fim. É fiiiiim!
quarta-feira, 30 de janeiro de 2008
Viagem
- Oi! Tudo bem?
- Que horas são?
- São 3h...
- E você me pergunta se tá tudo bem? São três da manhã! Eu estava dormindo e você me acordou. Não está tudo bem!
- Desculpa, é que me deu saudades...
- E isso lá é hora de ter saudade?
- E tem hora certa pra ter saudade?
- Não, mas tem hora errada. Três da madrugada não é hora de ter saudade.
- Ah, é que eu estava pensando em você. Aí deu vontade de ligar. Nem pensei que você pudesse estar dormindo... Ei, ta me ouvindo?
- To, to ouvindo. Vamos fazer o seguinte: quando eu acordar eu ligo para você. Pode ser?
- Ah, é que eu precisava te dizer uma coisa.
- O quê?
- Te adoro!
- Eu também te adoro! Faz um favor?
- Qual?
- Vem pra cá?
- Agora?
- É!
- Não sei. Ta meio tarde, não?
- Tarde? Você me liga três da manhã e agora acha que está tarde?
- Bom, não to falando de tarde da hora. To falando de tarde de tempo.
- Como assim?
- É que acho que nosso lance acabou.
- O quê?
- É, acabou.
- Mas você disse no começo que me ligou porque estava com saudade...
- Pois é. Pensei que a gente devia terminar. Aí fiquei pensando, pensando... Como seria ficar sem você, não falar com você, não te ver. E aí me deu saudade.
- E você disse que me adora!
- Pois é, descobri que te adoro quando imaginei que você não seria mais minha.
- E ainda assim nosso namoro acabou?
- Não sei. O que você acha?
- Eu acho que você está ficando louco. Liga a essa hora, começa falando uma coisa e de repente já ta falando outra totalmente diferente. Você bebeu?
- Não. Tava só aqui de bobeira mesmo. Imaginando as coisas. Mas acho que viajei, né?
- É! Acho que você viajou bastante.
- Então ta. Liguei mesmo porque estava com saudade. Amanhã a gente se vê e mata ela.
- Então, nós não terminamos?
- Não. Você quer terminar?
- Eu não.
- Foi só um pensamento meio doido mesmo. Acho que ando pensando muito. Tenho que arrumar outra coisa para usar meu tempo livre.
- Que tal dormir? Já são quase 4h...
- É, dormir pode ser bom. Tenho dormido pouco.
- Você é louco...
- Louco por você!
- Hahaha! Boa noite...
- Boa noite. Sonha comigo!
terça-feira, 1 de janeiro de 2008
Virada
Desatolou cada dor, cada mágoa, cada ressentimento que sobrara em seu peito, estômago, cabeça e pulmões. Tirou de sua memória todo o cansaço das noites insones e toda a preguiça das manhãs de domingo.
A meia noite estava limpo. Novo para o novo ano que estava prestes a começar. E começou com aquele doce beijo que poderia ser, ao final dos doze próximos meses, uma nova alegria ou algo que cuspiria no próximo trinta e um de dezembro.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
Temporal
Mas é certo que a chuva o fazia lembrar dela. Talvez porque ela veio como um temporal que lhe lavou todas as tristezas. Talvez porque a chuva é purificante. Ou talvez, porque ele gostava do cheiro da chuva e também do cheiro dela, ainda que fossem bem diferentes. Talvez também porque gostava de ver a chuva caindo, assim como gostava quando ela caía em seus braços. Ou até mesmo porque por mais que a chuva tornasse um belo dia em um dia feio, com ela o dia se alegrava.
Enfim, ele podia ter vários, mas não precisava de muitos motivos. Só sabia que a chuva sempre o fazia pensar nela. Nela e naquelas tardes chuvosas de sábado, quando se abraçavam e passavam o resto do dia juntos ouvindo a água cair lá fora. Enquanto lá dentro, parecia que um sol brilhava só para os dois.
O problema dele é que sabia que a temporada de chuvas não duraria muito mais. Logo as águas iriam embora e a seca viria. Ele precisava fazer um reservatório, criar um sistema de irrigação, ou até, quem sabe, aprender a dança da chuva com algum velho índio. Tudo para não deixar aquelas tardes se acabarem com a seca.
Ou então que a seca viesse, afinal. Ele sabia que não podia lutar contra as forças da natureza. Viriam o calor, as tardes quentes, meses e meses sem que uma gota de água caísse do céu. Mas também sabia que, mais dia, menos dia, a chuva voltaria. Talvez vinda de uma frente fria européia. Daquelas que encobre a torre Eiffel de neve. Que fecha as portas do museu do Louvre. Que deixa o Big Ben com seus ponteiros congelados.
Mas uma hora, as correntes de ar a trariam de volta ao Brasil. De volta para os braços dele. Para chover sobre ele. E aí ele não deixaria de guardar na lembrança se caíssem canivetes, meteoros, fogos de artifício, flores, dinheiro e até mesmo água. Água que levaria toda a seca embora.
terça-feira, 4 de dezembro de 2007
O lago
Passou por uma ponte, olhou para o lago e lembrou. Há três meses, naquela mesma hora, saia de uma cachoeira, também bêbado, e parava na beira do lago. Ele e ela. Ela e ele. Os dois, juntos, amados, apaixonados. Tirou-lhe a roupa e cravou a mão direita acima da cintura daquela pele lisa, branca e vermelha ao mesmo tempo. Apertava e pensava: amo, amo, amo. Mil! Vezes! Amo!
Estavam ali porque namoravam e viajavam só pra viver esse amor. Com perfeição. Naquela manhã, só os dois, expulsaram a roupa do corpo e fizeram amor enlouquecedor na terra úmida. Um amor ardente. Tão intenso que ambos tremiam, lágrimas caiam dos olhos. Tudo era pura felicidade e paixão.
Voltou a si. Já ultrapassara a ponte e mal conseguia segurar a última cerveja. Só pensava nela. Pegou o telefone. Discou, mas errou o número. Pensou em desistir. Jogou o telefone no banco do passageiro e continuou o caminho. Dali a dez minutos estaria em casa.
Não era a primeira vez que fazia aquilo. Já ligara outras vezes. Todas de madrugada. Mas lhe faltavam palavras para falar qualquer coisa. Quando ouvia a voz dela, tudo parava. As mãos, os pés, a mente, a boca. Tudo. Nada saia de lugar algum. Então, ouvia um alô prosseguido de um timbre impaciente, que reclamava com curiosidade raivosa:
- Alô? Alô? O que é que você quer, hein? Por que não me deixa em paz? Não te devo nada! Devo nada a ninguém. Você por acaso é algum psicopata? Está tendo prazer com isso seu desgraçado? Larga esse telefone! Vira gente! Fala alguma coisa!
Aquele discurso era gozado. Ele entendia muito bem a reação. Era raiva, propositalmente, para não ser amor. Estavam separados há meses. Ele nunca a esquecera e ela... não se sabe. Mas aquela impaciência, para ele, soava como ansiedade. Ela também sofria, pensava ele, bem lá no fundo.
Continuou a dirigir após um sorriso no canto da boca. Ele adora aquele jeito impaciente, impulsivo e objetivo. Pegou o telefone outra vez. Decidiu que agora seria diferente. Jogou a garrafa de cerveja fora. Discou. O telefone deu a primeira chamada. A segunda. A terceira. Ela atendeu:
- Alô?
Silêncio...
- Olha aqui. A partir de amanhã meu telefone estará cortado. Vou mudar de número e colocar um bina aqui. Quero ver você continuar ligando! Seu louco! Maldito! Me deixa em paz! Ou então se mostra logo... covarde!
Ele sorriu de novo. Mas decidiu que daquela vez falaria. E falou.
- Desculpa. Eu te amo!
Foi tudo que conseguiu. Desligou. Sentiu uma leveza no peito. Tanta, que ele fez o retorno com o carro, parou num posto, comprou outra cerveja e tomou toda, escutando rádio e lembrando da beira do lago.
*Inspirado no post “Telefonema”, logo aqui embaixo.
quarta-feira, 28 de novembro de 2007
Telefonema
O silêncio do outro lado da linha era angustiante. Ela se perguntava quem poderia estar ligando àquela hora e não dizia uma palavra sequer. Não compreendia. Por que ligava se não queria falar nada?
- Alô? Alô?
A voz dela do outro lado da linha era reconfortante. Ele sentia um certo saudosismo ao ouvir seu timbre de voz. Uma mistura entre o rouco e o agudo, mas com uma entonação totalmente particular. Não queria dizer nada para não estragar aquele momento. Ouvi-la era o único prazer que tinha desde o dia em que ele acordou e resolveu partir.
- Olha aqui! Isso não é hora de ligar para os outros. Muito menos para passar trote. Se quer encher o saco, ligue pros seus amigos. Ou procure ajuda no CVV!
Decidira que precisava reagir. Não dava para agüentar aquilo. Já era a terceira noite seguida que acontecia a mesma coisa. E o pior: não conseguia dormir depois imaginando mil possibilidades para a ligação. Seria alguém precisando de socorro e desesperado discou números a esmo e caiu no dela? Seria alguém conhecido só querendo fazer alguma brincadeira? Seria ele?
- Olha aqui! Isso não é hora de ligar para os outros. Muito menos para passar trote. Se quer encher o saco, ligue pros seus amigos. Ou procure ajuda no CVV!
Ah, sim. O tom bravo, mandão, completamente imperativo. Que saudades sentia disso. Quanto não daria agora para ouvir uma de suas ordens. “Senta aqui!” “Dorme!” “Presta atenção no que eu estou falando!” Qualquer coisa valia. Até mesmo um “procure ajuda no CVV!”. Quase respondeu com um “Sim, paixão! Vou procurar agora...”, mas segurou-se. Afinal, ele tinha ido embora para não ter mais que obedecer a seus caprichos bobos. Desligou.
- Alô? Alô?O que é que você quer, hein? Por que não me deixa em paz? Não te devo nada! Devo nada a ninguém. Você por acaso é algum psicopata? Está tendo prazer com isso seu desgraçado? Larga esse telefone! Vira gente! Fala alguma coisa!
Ela já não agüentava mais. Uma semana de ligações e ela não tinha sequer uma pista que desse certeza de quem fosse o misterioso do telefone. Nem mesmo sabia se era um homem. Ela já estava para morrer de curiosidade. Era certo que essa era uma de suas maiores marcas. Não conseguia agüentar de um dia para o outro para saber alguma novidade. Surpresas nunca funcionavam com ela, sempre eram descobertas antes. E agora com essas ligações de madrugada, nem dormir conseguia mais. Antes, era depois do telefonema. Agora, antes. Ficava esperando, olhando os minutos passarem no relógio para ver que horas tocaria.
- Alô? Alô?O que é que você quer, hein? Por que não me deixa em paz? Não te devo nada! Devo nada a ninguém. Você por acaso é algum psicopata? Está tendo prazer com isso seu desgraçado? Larga esse telefone! Vira gente! Fala alguma coisa!
Cada noite que passava ele parecia estar mais perto dela. Relembrava vários momentos dos seus anos de amor. O primeiro beijo, a primeira transa, os presentes, as viagens, os passeios, as festas, as flores, as brigas, as reconciliações. Agora era tudo o que ele queria, uma reconciliação. Pensou em dizer alguma coisa. Segurou-se. Afinal, tinha ido embora porque não agüentava mais brigar no domingo, voltar na segunda. Brigar na terça, voltar na quarta. Desligou.
- Olha aqui. A partir de amanhã meu telefone estará cortado. Vou mudar de número e colocar um bina aqui. Quero ver você continuar ligando! Seu louco! Maldito! Me deixa em paz! Ou então se mostra logo... covarde!
Ela nunca faria aquilo que estava dizendo. Era só uma ameaça para ver se alguma voz vinha do outro lado. Cortar o telefone sem saber quem ligava não fazia parte dos seus planos. Ela precisava saber.
- Olha aqui. A partir de amanhã meu telefone estará cortado. Vou mudar de número e colocar um bina aqui. Quero ver você continuar ligando! Seu louco! Maldito! Me deixa em paz! Ou então se mostra logo... covarde!
Ele não podia perder aquele contato. Era tudo o que ele tinha. Era tudo o que o motivava a passar o dia correndo para chegar logo a madrugada e poder telefonar para ela. Ele precisava reagir, mesmo sabendo que ela nunca cortaria a linha sem saber quem estava falando. Mas ele também precisava falar o que vinha ensaiando.
- Desculpa. Eu te amo!
E desligou. Nem se lembrava mais porque tinha ido embora.
domingo, 18 de novembro de 2007
A carta
Há algum tempo não o vejo. Queria poder te tocar. Fazê-lo sorrir e sujá-lo de sorvete como naquela época. Outro dia preparei um mousse de limão, que você adora. Lembrei de você. O pessoal todo estava aqui em casa. Percebi que minha mãe lembrava também. Perguntei a ela. Ela disse que sim, que pensava em você.
Viu como nos faz falta? Até hoje não entendo por que nos abandonou. Achei que tivesse memória curta, mas não tenho. Lembro de cada segundo ao seu lado. Ultimamente tenho ido muito a orla. Ainda não caminhei de mãos dadas com ninguém por lá. Não tenho coragem, embora guarde uma pontada de mágoa pelo que você fez. Se não tivesse feito isso, nada tinha acontecido.
Queria seu corpo aqui. Queria apertá-lo. Poder dar um nó que não desate jamais nós dois. Ah! seu corpo. Seus braços. Seu beijo. Sua boca. Nossa, que saudade! Nunca escrevi uma carta assim, pra ninguém. Seja em qualquer condição que estivéssemos hoje, não teria coragem de entregá-la. Se entregasse, com certeza não teria esse conteúdo.
Sabe, meu amor, esses meses sem você me foram de pouca valia, muito sofrimento e uma porção boa de maturidade. Cresci porque sofrer é o ensinamento dos ensinamentos. É nele que nos encontramos. É nele, por incrível que pareça, que buscamos forças pra recomeçar o que insistimos em afirmar que estava perdido. Aprendi que nada está perdido. Quem se perde somos nós.
Uni duas coisas: amor e sofrimento. Aliado a lembranças, vivia a oscilar entre sorrir e chorar. Até que da fome passei a fruta e da fruta a carne. Hoje me alimento bem. Sofro bem, também. Mas meu sofrimento não me ataca mais o corpo. Só a alma. Estou com as bochechas mais coradas. Até tomei banho de mar outro dia.
Sem mais delongas, meu amor. Quero que saiba, onde estiver, que tudo que senti permanece intacto. Que meu amor é um bálsamo inseparável. Você, que me foi tirado de forma tão cruel em dia tão simbólico como era seu aniversário, é o mais importante membro amputado do meu corpo.
E não penses que me revolto com aquela noite. Você me enganou, mas estava certo. Fazia o que mais gostava de fazer na vida: viver. E, se eu pudesse, aliás, me jogava na frente daquele carro para desviá-lo da sua rota natural. Você não se meteria em tão cruel acidente.
Eu não te esqueço. Sua falta está mais presente do que a batida do meu coração. Sua morte é mais viva do que o canto de um pássaro. E meu amor é tão forte como uma onda. Te amo como não sei o que, até não sei quando.
sexta-feira, 9 de novembro de 2007
O amor-homem
Mas é certo também que isso é, em 99% dos casos, apenas fantasia, atração física, paixão repentina. Amor, amor mesmo, é bem diferente quando pega o homem. Porque o cara quando gosta, aquele gostar de verdade, de amor mesmo, se entrega. E a entrega do sexo masculino, por mais que muitos insistam em negar, é muito maior que o das mulheres.
E isso acontece porque nós, quando amamos, somos sinceros e verdadeiros. A palavra amor não faz parte do vocabulário masculino, como do feminino. Não dizemos coisas do tipo: "Amei esse sapato!" ou "Amigo, te amo!" tão ao léu quanto as mulheres. O amor quando sai da boca de um homem é verdadeiro. Seja para uma amante, sua mãe, amigos.
Sei que com essa declaração várias pessoas vão vir dizer que eu sou um louco. Como posso dizer uma coisa dessas, se aquele cara que ontem dizia que te amava, hoje já está com outra. Mas acalmem-se. O amor é difícil, traiçoeiro. Todos se enganam com o amor. Afinal, quem consegue explicar o que ele realmente é?
E também não venham me dizer que só os homens falam que amam em um dia, e no outro já não amam mais. Quantos de vocês, amigos, já não foram iludidos por um sonoro "eu te amo" antes de dormir e acordaram no dia seguinte, sozinhos e abandonados? Sim, as palavras também são traiçoeiras, principalmente quando dizem A, enquanto o coração pensa B.
E é por isso que digo, agora às mulheres, que acreditem. Por mais que isso possa parecer um tanto cafajeste (e às vezes é). Mas acreditem quando um homem olha em seus olhos e diz que te ama. É sério. Nós sabemos bem as conseqüências que estas palavras podem trazer caso sejam ditas ao léu.
Também não nego que muitos fazem isso só para tirar proveito. Só para enganar um pobre e carente coraçãozinho feminino. Depois que conseguem sugar o que querem, somem como se tudo aquilo não tivesse existido. E a pobre moça fica lá, largada.
Mas acredite, você. Tenha certeza, pelo menos na palavra do Palavra. Porque se eu te disse, uma única vez que fosse, que te amo, é porque eu realmente amo. Para sempre.
segunda-feira, 22 de outubro de 2007
O mistério da azaração
Por isso, defendo um processo de conquista bem cauteloso. Ou seja, vá, mas vá com jeito. Depois cê pode falar merda, tirar meleca do nariz, fumar "unzinho" ou dar uma de doidão na frente dela. Sei lá. Mas no começo tudo deve ser como manda o figurino: devagar e sempre.
Claro que falo aqui de mulheres sérias. Caso vá para uma micareta (pelo que me falam é sinônimo de mulher e homens fáceis) o procedimento é diferente. Se não souber, sugiro que pegue uma aula com algum bombadinho. Não é difícil encontrar um deses em Brasília. Estão quase sempre sem camisa, andam em grupo, bebem vodka e falam "véi" a cada duas palavras. Mole, mole! Esses ai sabem pegar mulher de micareta.
O problema são as sérias. Ou, pelos menos, as que aparentam seriedade e são do tipo impenetráveis (no sentido retórico e não literal). Pois bem. Existem dois problemas graves, para um homem, na hora da conquista. O primeiro é gostar de quem se quer conquistar. O segundo é não saber paticamente nada sobre a figura em questão.
Gostar só dificulta. Ficamos com medo de falar errado ou coisas desagradáveis e fora de hora. Ou seja, estamos sempre cheios de dedos. Mas elas não podem perceber isso. Então, acabamos com duas preocupações: 1 – receio de falar merda. 2 – receio de, de tanto tentar não falar merda, parecermos muito artificiais.
A situação piora quando nada se sabe sobre a gatinha. Vamos chegar e falar o que? "Oi, como cê tá? Mora onde? Gosta de Strokes?". Pra dois adultos de, sei lá, 26 anos, isso parece patético. No caso dela falar pouco (e você também), desista. Nada vai sair dali. Então, obter algumas informações antes é melhor. Qualquer coisa. A conversar vai engatar a primeira e não demora muito pra conseguir as outras marchas.
Remeto-se a uma frase da banda O Teatro Mágico: "Os opostos se distraem e os dispostos se atraem". Pura verdade. Azarar mulher é realmente um exercício de transpiração, como tudo na vida. É preciso disposição. Mas das duas partes. Agora, como atiçar a vontade dela… ai só Deus sabe. Mas não se engane, existe alguma coisa além do orgânico que faz despertar a vontade (dele ou dela). Não é porque se é bom de papo ou bonitinho. Tem alguma coisa que ainda não se descobriu. Alguém sabe?
domingo, 7 de outubro de 2007
O Trem
Ainda assim, era um ótimo trem. Cada vagão era determinado pra uma atividade específica. O primeiro era o coração. Lá estavam alojados o motor e também o maquinista. Era dali que partiam todas as decisões sobre destinos, partidas e chegadas. Mais as chegadas, nem tanto as partidas.
Tinha ainda um vagão exclusivo para diversão. Jogos, brincadeiras, fantasias, histórias, piadas. Qualquer coisa relacionada ao prazer, tudo estava ali. No seguinte, estava o aconchego, o carinho, o descanso, a amizade, aquele sentimento de bem-estar.
Em outro vagão estava a responsabilidade, o bom senso. Era também o vagão do trabalho, da seriedade. Não era o mais atrativo aos passageiros, mas todos sabiam que era muito importante para compor aquela engrenagem.
Ali, podia-se viajar com calma, tranqüilidade e ao mesmo tempo ter muita diversão e situações inesperadas. Porém, acontecia que o maquinista andava triste, procurando um passageiro para viajar com ele. Já imaginou que triste é um vagão sem passageiro?
Os vagões estavam todos vazios. Ninguém para aproveitar tudo aquilo que a máquina e seu maquinista ofereciam. Sequer um passageiro para viajar pelos lugares mais distantes que o trem e a imaginação do maquinista poderiam levar.
E dessa maneira, o trem perde a força. E pára. E vai ficar ali, emperrado em um trilho qualquer esperando algum novo passageiro. Longe da última parada e sem saber qual a distância para a próxima. E o maquinista esperando o coração da máquina voltar a assobiar aquele alegre “piuííííí”.
domingo, 30 de setembro de 2007
O Cartão
A vida daquele rapaz eram só flores. Não que tudo estivesse sempre bem. Afinal, ele era um jovem comum que, como qualquer outra pessoa, tinha alegrias, tristezas, vitórias e decepções. Mas a vida dele era florida por conta de seu trabalho. Ele era entregador de uma floricultura. Passava o dia daqui pra lá, de lá pra cá entregando vasos, buquês e arranjos.
Mas, além das flores, o que ele gostava mesmo era de ver os rostos emocionados, surpresos e, vez ou outra, até tristes, ao receberem as flores e abrirem os cartões. Sim, os cartões. Essa era sua verdadeira paixão. Tão apaixonado era, que sempre lia os escritos antes de entregá-los, só para saber o que de tão bom havia ali. E ficava imaginando qual seria a reação de quem o recebesse. Afinal, ele nunca tinha mandado, tampouco recebido flores e, por isso, não fazia idéia do que vinha escrito naqueles pequenos pedaços de papel.
E, a partir disso, descobriu um novo mundo. Cheio de paixões, de palavras bonitas, de histórias de amor, poemas e promessas de uma vida cheia de aventuras e romances eternos. Vez ou outra alguns cartões vinham mais apimentados, com frases sobre noites de amor e corpos em chamas. Mas nada que o deixasse sem graça. Só não gostava de ler os cartões de pêsames. Esses eram demasiadamente tristes e sem graça.
Mas os de amor! Ah, como eram belos. E lendo, ele fantasiava como seria o dia em que mandaria seu primeiro buquê a uma linda e amada garota. Rosas vermelhas, copos de leite brancos, flores do campo, girassóis e junto um cartão cheio de palavras apaixonadas.
Guardava frases de um, retirava versos de outro e ia juntando tudo para, quando chegasse a sua vez pudesse escrever as palavras mais bonitas possíveis. Afinal, seu amor também seria o mais bonito possível.
Até o dia em que encontrou o melhor cartão da sua vida. Aquele em que não seria preciso retirar nenhuma palavra, letra, linha, ou qualquer coisa. Nem mesmo se houvesse qualquer tipo de erro ali. Fosse gramatical ou conceitual. Nada deveria ser mudado. O que ali estava escrito era, simplesmente, tudo o que ele gostaria de dizer para alguém. Mesmo que de forma tão inusitada.
De início ele estranhou bastante aquele presente. Um vaso com um cacto. Coisa mais feia era o tal do cacto. Pequeno, verde, espinhento, sem vida, sem alegria. Só aquela coisa minúscula, meio retorcida dentro do vasinho. Quem era o apaixonado que mandaria um cacto à apaixonada? Não poderiam ser flores de um casal, aquelas. Já estava pressentindo que ao abrir o cartão se decepcionaria com frases do tipo: “Felicidades pela nova casa”, “Parabéns pela promoção”, ou “Você é seco e sem vida como essa planta”.
Porém, naquele envelope ele descobriu uma das coisas mais impressionantes que tinha aprendido depois de tanto tempo trabalhando com as flores. O cartão dizia assim:
“Meu Deus, onde fui amarrar minha égua? Eu aqui esperando lindas flores em um dia especial. Esperando por um buquê de rosas, ou um arranjo de lírios, quem sabe até uma orquídea, mas não! Eu recebo justamente um cacto. Pequeno, seco, sem-graça. Por que é que eu fui arrumar um namorado tão estranho?, é o que você deve estar pensando nesse momento, não é?
Pois é, mas saiba você que o cacto é uma planta linda, que pode dar as flores mais bonitas que existem. E sabe por que são as mais bonitas?
Porque brotam justamente de onde ninguém espera. E o inesperado é sempre muito mais surpreendente. São mais bonitas porque ninguém acredita que saia, do meio de espinhos, algo tão singelo e delicado.
Porém, elas não brotam assim, de repente, sem mais nem menos. Elas precisam de cuidado, carinho, admiração atenção. Muita atenção para surgirem com toda sua beleza. E o que isso tem a ver com a gente?
Tem a ver porque é exatamente o que espero que aconteça conosco. Atenção, carinho, cuidado, admiração, respeito, amizade. Tudo isso para que nós sejamos como a flor do cacto. De onde todos esperam apenas a aspereza do espinho, surja a beleza da flor. Vem comigo?”
E ele chorou. E entregou as flores para aquela menina chorando. E chorou mais ainda ao ver o seu lindo sorriso. E foi embora ainda com lágrimas escorrendo pelo rosto, sonhando com o dia em que deixaria de ser apenas um cacto seco, para encontrar seu amor e ver brotar muitas e muitas flores.
quarta-feira, 19 de setembro de 2007
A Ordem Natural das Coisas
Ele não dava o braço a torcer. Dizia ser impossível apaixonar-se por alguém sem antes conhecer a pessoa. “Como posso simplesmente olhar para alguém, sem saber nada dela. Nem mesmo seu nome. Não dá!”, pensava. Para ele, a paixão vinha com o conhecimento, a intimidade, a vida vivida dia-a-dia. Não existia amor à primeira vista.
Ela discordava. Jurava de pés juntos e a todos os santos que tinha se apaixonado por ele desde a primeira troca de olhar. “A paixão é assim. Acontece quando a gente menos espera, em um momento quando nem imaginamos que iríamos nos apaixonar”, defende. Era uma romântica inveterada, daquelas que sonhavam com o príncipe que viria a cavalo.
E quem poderia dizer que algum dos dois estava errado? Quem poderia estabelecer a ordem certa para a vida? Apresentação, gosto, paixão, amor. Amor, paixão, gosto, intimidade. Amizade, intimidade, paixão, amor. Alguém pode me definir o certo? Há mesmo uma fórmula para isso? Não dá para dizer que é um ciclo, como o da água que evapora, transforma-se em nuvem, cai em forma de chuva e volta a evaporar.
quarta-feira, 5 de setembro de 2007
Doeu
Nada atraía a doce e romântica-jovem-dos-cabelos-loiros mais que o seu amado. Às 18h, sempre, sentava num banco, ao lado de uma ávore esculhambada pela seca e esperava. Minutos depois, saía de lá. Mãos dadas, passos sincronizados, sorriso no rosto e uma alma leve, como formando em dia de colação.
O coração que agora ardia, ardia pelo tanto que já doeu. Aquela pequena nunca encontrara alguém que prestasse. Que a tratasse com dignidade e lhe desse esperança de que dali sairia um lance que a fizesse bater aos mãos para os pais e dizer que agora cuidaria da sua vida. Via naquele bom homem um ser notadamente ideal. Ele concordava e respondia com mais amor.
O problema é que amor demais por vezes ultrapassa a perigosa linha que separa a razão romântica da obsessão. No começo, tudo era lindo. Do meio pro fim, nem tanto. As crises de ciúmes que ele deflagrava corroíam o sentimento, embora nunca questionassem a validade daquela relação. Amar, para aquela menina loira, de olhos azuis e traços mal feitos, importava, até debaixo de crises.
Mas com um tempo tudo foi mudando. Ele tornou-se agressivo. A fez mudar de banco, porque, onde geralmente o esperava, passavam rapazes da faculdade abanando a mão ou parando pra trocar uma idéia qualquer. Um dia, chegou e a viu ao lado de um amigo. Ambos procuravam um livro dentro da mochila, de pé, em frente ao tal banco. O namorado obcecado não pensou duas vezes. Partiu pra cima do jovem e quebrou-lhe dois dentes com um soco certeiro que rasgou seu punho.
Mostras como essa são até simples perto de todas as maledicências que já cometera com a namorada. Quando completaram dois anos, ela decidiu que não aguentaria viver mais um dia naquele inferno. Agora, ardia no fogo da angústia, do medo e da impotência.
Então chegaram em casa numa noite qualquer e ela chamou o rapaz para sentar e explicou a situação. Ao final, pediu que fosse embora para nunca mais voltar. Ele sequer se ajoelhou para implorar perdão e dizer que mudaria. Afinal, já fizera isso umas três vezes e não moveu uma palha após o perdão. Então, fechou a cara com uma tristeza que surgiu de dentro do peito e foi embora.
Mas voltou no outro dia, para ser mal recebido e outra vez rejeitado. No segundo dia também apareceu e passou a vir todas as tardes. Foi renegado em todas as ocasiões. Desistiu e, no décimo dia, sequestrou a menina na saída da faculdade. Colocou-a dentro de um carro e a levou pra longe.
Parou num terreno qualquer, jogou-a no chão e começou a desfiar xingamentos enquanto tirava o cinto para baixar as calças. Depois do último tapa, que sujou sua mão com o sangue da boca e nariz da ex-namorada, deitou por cima dela, abriu suas pernas e penetrou com uma violência que até então não combinava com a peculiar delicadeza. Ficaram ali, os dois, por uns 10 minutos. Ela desmaiou. Ele foi embora, mas deixou um bilhete: “Para não me ver nunca mais, basta ficar calada”.
Momentos depois, o garoto da mochila encontra a amiga jogada no chão. Ele a havia seguido, porque viu um homem encapuzado, de carro estranho, levá-la de perto da faculdade. Ele se aproxima e pergunta, assustado: “Quem foi? Quem foi?”. Ela amassa o bilhete rapidamente, esconde na palma e responde: “Não sei. Ele não tirou o capuz”. O rapaz insiste em levá-la para o hospital. As sirenes da polícia estão cada vez mais próximas, atendendo ao chamado do colega. “Não! Me leve pra casa. Eu só quer ir pra casa”. E os dois, se escondendo da polícia, partiram em silêncio. Ela, de cabeça baixa, via as lágrimas pingarem o chão e sentia a certeza de que jamais amaria alguém.
quinta-feira, 30 de agosto de 2007
Somos Todos Drogados
Você não vai escapar dessa situação. Não pense que estou falando apenas de paixão, e você como o maior dos insensíveis acha que jamais irá se apaixonar. Não pense como pensam as mães dos jovens que começam fumando maconha e acabam morrendo de overdose de heroína: “Comigo não vai acontecer”. Não pense.
Pois estamos todos sujeitos a ficarmos viciados em alguém. Seja um amor juvenil, um amigo para toda a vida, ou um parente próximo. Você, sem dúvida, ainda não percebeu, mas é viciado em alguém. Um amigo, mãe, pai, irmãos. Qualquer um deles pode ser a sua droga, a sua dor, a sua dependência, o seu medo de perda. E também não vá achando que agora que acordou para o problema, conseguirá se livrar da situação. Não. Não é tão simples.
Sabe aquele amigo que por mais que você se afaste, sempre volta? Você é a droga dele e, muito provavelmente, ele também é a sua. E mesmo com muita tentativa, não vai ser agora que sumirão das vidas um do outro, achando que estarão livres do vício.
E por que não a sua mãe? Mesmo grande, independente, de barba na cara, você acha que conseguiu se desvencilhar dela? Jamais. As mães são drogas eternas e não fazem tanto mal. Assim como a cafeína. Se você largar, terá dor de cabeça.
O PIOR – Como já disse, não existe tratamento para a crise de abstinência, nesse caso, também chamada de saudade. Quando você não tem por perto a sua droga, dá uma dor danada. É uma falta que se sente, como se faltasse parte de você. É uma falta de si mesmo. Uma ausência do outro, que se traduz em uma perda de você.
A droga do amor, companheiro, é como respirar. Não dá para viver sem. Não dá. E se você tenta, é também como tentar ficar sem respirar. Dá para segurar uns segundos; alguns, seguram por minutos. Mas o instinto de sobrevivência fala mais alto e você acaba soltando a respiração. E volta a encher os pulmões de ar.
Pois quando você pensa que pode escapar do vício da paixão, ele vem e te acerta bem no meio do peito com a danada da saudade. E você luta para não ir atrás da droga. Prende a respiração. Consegue por pouco tempo e logo depois, volta a encher o peito de paixão.
Mas você, insensível. Você, intocável. Você, inapaixonável (existe este termo?). Você não saberá o que é o pior do vício. Difícil dizer se isso é bom, ou ruim. Mas é fato, que você não saberá. Você não sentirá o que é perder a droga mais gostosa de se usar. Aquela que “te dá onda” só de pensar. Ou ouvir, cheirar, tomar, sentir, possuir.
Essa abstinência-saudade, caro amigo, você nunca sentirá. E insisto em dizer que não sei se te digo isso com um sorriso, ou com uma lágrima no rosto. Mas dessa crise, que te faz chorar, te faz enlouquecer e te faz até pensar em usar outras drogas, você não provará. Porque só um grande amor perdido é capaz de fazer com que alguém sinta a verdadeira dor da saudade. Essa maldita saudade.
domingo, 26 de agosto de 2007
Perto demais
Aguardou mais uns cinco minutos. Julia Roberts encontrar-se com Jude Law. Ele precisava de fotos. E ela precisava ganhar dinheiro as tirando e cobrando por elas. As cenas de Perto Demais pouco importavam. Só incomodava mesmo aquela ausência, sentida na pele e na alma por muitos dias, que agora se fazia latente e chata.
Antes de sair de casa,
ele avisou: minha mulher estará fora, na casa da mãe. Disse que vou ao cinema, já que não faço isso há um tempão. Hoje é um bom dia para nos encontrar-mos. Ela concordou. Avisou que seu marido precisou fazer uma viagem rápida, de um dia, e também iria ao cinema e ao seu encontro.O problema é que são casados, vivem numa cidade pequena e correm sério risco de serem pegos uma ou outra hora. Combinaram então assim: ele chegaria primeiro, sentaria em um assento qualquer e a aguardaria. Ela teria uma chegada mais discreta. Entraria na sala quando as luzes já tivessem apagado e o filme começado. Sentaria despretenciosamente ao seu lado, como se estivesse ali um desconhecido.
Mas não combinaram, entretanto, como um acharia o outro. Ele estava na grande sala, esperando por ela. Mas só as luzes da tela e o brilho dos atores iluminavam as dezenas de poltronas. E isso não bastava. Principalmente em se tratando de um filme que fere a ilusão do amor eterno e banaliza a traição, inserindo-a no cotidiano das pessoas sem tomar conhecimento de que alguém ainda acredita que pode ficar ao lado de outra pela vida toda, sem traições ou novas paixões.
Tudo baboseira. Eles próprios não poderiam acreditar no amor eterno. Por seus respectivos, o amor já diminuira e seria facilmente assassinado. Mas sentiam que com eles era diferente. Faltava apenas tempo e espaço. Não tinham isso. Eis ai a razão do encontro no cinema, local público e perigoso. Queriam eles ter um dia de namorados, andar de mãos dadas. Queriam eles abandonar as suas famílias e se aventurar no novo. Faltava, no entanto, coragem de destruir o que demoraram para construir e de recomeçar. Não conseguiam isso e viviam de aperitivos.
15 minutos de filme. Nada dela. Alguma coisa poderia ter acontecido. Ele resolveu olhar para frente, acreditar que ela não viria e tentar conter a frustração. Começou a enten
der a história. Por um momento, decifrou todo o enredo e não gostou nada do que lhe foi revelado. A confusão amorosa ali descrita é, desesperadamente, parecida com o que ele vivia naquele momento.Misturou-se então um sentimento de culpa, apego, saudade, alegria e tristeza. Sua vida não estava boa. A dela também não. Sem querer, uma lágrima desceu do canto do seu olho, percorrendo a face até parar no seu lábio. No filme, em sua frente, Jude Law chorava a perda de um amor que só complicou sua vida.
Ele fechou os olhos, apertando para conter mais lágrimas que se anunciavam e sentiu uma mão macia tocar-lhe perto da testa e descer pelo rosto, seguindo o rastro de seu choro. Atravessou a face e, molhada, a mesma mão deitou em seu ombro, enxugando-se em sua camisa. Era ela. Estava na poltrona de trás. Ele pegou sua mão e apertou.
Estavam ali, fisicamente distante para namorados em pleno cinema. Mas, envoltos em amor e limitados pela vida, sentiam-se perto demais. E passaram o resto da sessão de mãos atadas, atados a dúvidas, culpa, medo e uma enorme felicidade.
quinta-feira, 16 de agosto de 2007
REC
Veio o batom. Uma cor suave, quase imperceptível. Depois o gloss para dar brilho. O pincel acariciava levemente seus lábios num vai e vem ritmado. Pinçou, então, as sobrancelhas. Os fios mais rebeldes foram embora deixando um fino rastro de pelos. Passou, por último, o rímel nos cílios.
O espelho observava pacientemente cada movimento. E quando digo que observava, é porque até mesmo o reflexo dela ficou paralisado com aquela cena, tamanha beleza e delicadeza contida nos gestos daquela moça.
Tirou a toalha da cabeça e deixou cair sobre os ombros os cabelos, ainda um pouco molhados. Negros, lisos, leves. Parecia uma propaganda de xampu. Penteou-os com cuidado. Fio a fio, cada um recebeu o carinho da escova.
Levantou-se da cadeira. Nua. O espelho quase se despedaçou. Não porque fosse feia, muito pelo contrário. Mas é que se fosse possível a um espelho ter sentimentos, aquele iria, com certeza, ser quebrado. Afinal, como vocês se sentiriam se pudessem, como ele, vê-la e refleti-la, mas não pudessem toca-la? Morreriam, não? Pois é, foi o que quis aquele pobre espelho: virar cacos.
Vestiu-se lentamente. Primeiro a calcinha, depois o sutiã e por último o vestido. Era discreto, na cor preta, daqueles que em dias de ventania ficaria esvoaçante. Ainda realçava, no decote em formato de V, os belos seios daquela moça.
Deu uma última volta para conferir se estava tudo em ordem. Retocou o rímel nos olhos. Ouviu a buzina tocando lá em baixo. Calçou as sandálias, apagou as luzes e saiu.
O espelho passou a refletir apenas a escuridão. E se, mais uma vez, fosse possível a um espelho ter e expressar sentimentos, com certeza veríamos lágrimas de tristeza escorrendo de seus olhos. Pobre espelho. Pode ver, pode refletir, mas não faz nada além disso. Se ninguém estiver em sua frente, não tem vida. Não tem memória, nada.
Essa é a vantagem de ser uma máquina filmadora. Mesmo velha, encostada em um canto da estante no canto do quarto, ainda posso gravar cada belo momento dessa vida. E depois de gravado, repriso por quantas vezes quiser.
terça-feira, 14 de agosto de 2007
Crise de Ciúmes
- E daí que isso é importante para mim. E eu não vou abrir mão disso.
- Pois saiba que, desse jeito, você é quem vai sair perdendo.
- Quem te disse isso? Por que você acha que eu vou perder alguma coisa? Se quer saber, eu penso exatamente o contrário. Acho que estou é ganhando. Perderia se agisse como você quer.
- O que você não percebe é que vai perder a mim.
- Perder você? Por quê?
- Porque já disse que não quero saber dessa sua historinha aí com esse cara.
- “Esse cara”? Presta atenção! Olha só de quem você está falando.
- É “esse cara” mesmo! Você já está toda amiguinha dele e eu não gosto disso.
- Olha, eu não vou nem responder...
- Isso. Não responde mesmo. Ignora. Finge que não tem nada acontecendo. Deixa ele cheio de gracinhas aí com você.
- Você é que não vê o tamanho do absurdo que você está falando.
- Absurdo? Você acha que eu estou falando absurdo? Absurdo é você ficar cheia de graça para esse cara. Ainda ri das coisas que ele fala. Concorda. Faz o que ele diz. Conta novidades, como se ele fosse seu melhor amigo.
- E se ele for o meu melhor amigo? Ou vier a ser? Você é que não consegue entender isso.
- Se ele virar seu melhor amigo eu deixo de ser seu namorado.
- Isso é uma ameaça? Não prometa coisas que você não vai poder cumprir depois, hein? Eu ainda não me esqueci daquela noite em que você prometeu uma viagem de navio e até hoje não ouvi falar nem do bote salva-vidas.
- É uma ameaça sim! Aliás, mais que uma ameaça. É uma certeza.
- E por que você está com tanta raiva dele assim? O que ele fez pra você? Você nunca nem falou com ele. Só o conhece de vista. Ta com medo de quê?
- Eu sei do que um homem é capaz. E é mais do que lógico que ele é apaixonado por você.
- E daí? Não é por isso que eu vou ser apaixonada por ele... você está com medo dele, ou de mim?
- Dele, lógico...
- Certeza?
- Claro!
- Não parece.
- Não tenho razão para ter medo de você.
- E de você?
- Como assim?
- Acho que você está com medo de você mesmo. De não dar mais conta do recado aqui.
- Você está louca? Olha o absurdo que você está falando!
- Absurdo é você ter ciúmes do meu personal trainer. Ainda mais de um personal gay...
- Gay?
- É, gay. Aliás, ele te acha uma loucura... quem tinha que ter ciúmes era eu!
quarta-feira, 8 de agosto de 2007
Sob domínio da bala
Numa das últimas noites que Marcelão, como era chamado, dirigia o carro, foi atacado de lado por um Escorte velho, caindo aos pedaços. A batida parou o Kazinho e fincou suas rodas no chão. Arrebentou a lateral e quebrou o eixo. Uma fatalidade. Parou o veículo, desceu e lamentou o ocorrido. O cara do Escorte fez barberagem, mas se sentia o dono da razão.
- Como é que tu anda no meio da pista, seu louco?, gritou.
- Ando no meio da pista é o caralho! Eu só fiz o balão e tu te meteu no meio, respondeu Marcelo.
O carro atacante quase se despedaça todo. Era velho demais. Marcelo, impaciente, queria resolver logo tudo e seguir pra festa. Estava puto porque, 30 segundos antes de fazer o balão, tinha tomando uma bala pra seguir em frente a noite toda. Ele e o amigo que estava do seu lado. Os dois queriam chegar na boate no clima, exaltados com a droga, novidade na época.
O problema é que “o filho da puta” do Escorte continuava achando que voava na razão e insistiu em chamar a polícia. O amigo do Celão tentou demovê-lo.
- Rapaz, não precisa. Nosso carro nem sai mais do lugar. Vamos embora e depois a gente resolve isso.
- Depois nada. Vamos fazer a perícia e ver quem está certo. Você andava no meio das duas pistas. Não devia fazer isso.
O cara parecia mais louco que os dois componentes do Ford Ka juntos. Lógico que ele estava errado. Mas insistia na tese de que detinha toda e qualquer preferência ao entrar naquele balão. Coisa de maluco que transita na cidade uma hora da matina.
Quando a polícia chegou, uns 10 minutos depois do acontecido, os corpos de Celão e seu amigo já se movimentavam involuntariamente. Os dois pés despisavam o chão com frenesi, pensavam no trance e davam uns pulinhos sem querer. Mas ainda tinham que conversar com a polícia, sob efeito do êxtase.
Enquanto o maluco do Escorte conversava com o guarda, tentando convencê-lo de que ele é que estava certo, os dois amigos pensavam na boate, nas meninas e no que seria daquela lombra, recém chegada em suas respectivas mentes. Estavam no lugar errado, com as pessoas erradas e fazendo as coisas erradas. Só quando escutaram um grito do outro lado da pista é que perceberam que ainda tinham função mais importante do que curtir um trance. “Ei, vocês! Venham aqui, por gentileza!”, gritou um dos canas.
Os amigos ficaram na dúvida. Um jogou para o outro a responsabilidade de falar com o guarda. “Vai tu!”. “Não, vai tu”. “Eu não vou!”. E enfim decidiram: “Então vamos os dois, porra!”.
Chegaram juntos e começaram o discurso. Enquanto um falava, o outro mexia as pernas e começava a rir. Ria baixo, de rosto virado, para que ninguém percebesse. Até que Celão, que falava com o guarda, percebeu a graça provocada pela bala e não se conteve.
- Seu guarda, precisamos ir. Não temos condições de ficar aqui, disse, sorrindo.
- Por quê?
- Porque esse carro é do meu irmão. Eu peguei escondido e agora tenho que ir embora, mentiu.
- E qual é a graça?
- Porque esse palhaço vive fazendo merda, desconversou, apontando para o amigo.
E iniciaram uma sessão de gargalhadas que assustou os três guardas. Pararam uns dois minutos depois, quando os canas iniciaram uma revista profunda no Kazinho, super desconfiados.
Sorte que não encontraram nada. Já tinham fumado o baseado da noite e tomado as balas.
- Oha, a perícia tá feita, mas vocês terão que tirar esse carro daqui.
- Mas ele não anda seu guarda.
- Então empurrem até aquele estacionamento ali e aguardem o guicho, disse um dos canas, louco pra ir embora.
- Tá.
Todo mundo tirou o time. Só ficaram os dois, loucos de bala e a fim de curtir a noite forte. Resolveram então deixar o carro lá, de vidros quebrados e porta entreaberta. Pegaram um taxi e foram pra boate. Curtiram o final do efeito da droga. Lá conseguiram mais. Amanhaceram dançando, depois foram beber na praia e ficaram por lá até o meio do dia. Só então foram pra casa. Dormiram o domingão inteiro. Esqueceram do carro.
Quando lembraram, não havia mais carro. Apenas uma lata, sem banco, sem para-choques, sem som, sem vidros e sem várias partes do motor.
Celão tentava lembrar da noite inteira. Recapitulou os fatos e pôs os pés no chão. Lembrou que a vida é difícil e começou a pensar numa boa desculpa para dar aos pais, que lhe deram o carro de presente, no maior esforço, financiado a perder de vista.
O carro acabou e meus problemas começaram, pensou.
segunda-feira, 6 de agosto de 2007
Matemática
E essa era a única idéia que ela tinha sobre a divisão. Puramente matemático, nada relacionado às emoções. O mais próximo que o ato de dividir tinha chegado ao seu coração foi uma vez em que, ainda pequena, teve de repartir a merenda e o chocolate com a colega de sala que não tinha lanche.
Mas ter o próprio coração dividido era algo que ela não imaginava. Pelo menos não até aquela tarde de domingo. Um dia um tanto esquisito, é verdade. Aliás, um típico dia brasiliense. O frio seco e cortante pela manhã, o sol que maltrata ao meio-dia e a tarde cinzenta, ora quente, ora fria. Sensações estas que pareciam com as do seu coração e barriga ao ver, no mesmo local, o seu atual-ex amor e o seu ex-atual amor.
Confuso? Sim, muito confuso. Na verdade, nem ela mesma entendia quem era o quê. É fato que naquele dia nenhum dos dois era oficialmente o seu namorado. Ambos eram ex. Mas também era certo que ela não tinha deixado de amá-los. E por isso sentia-se dividida. E por isso o coração quente e a barriga gelada.
Não sabia a quem escolher. Não tinha certeza se queria a altura, a pele negra, os cabelos trançados, a voz grossa e os olhos claros que lhe traziam calma, serenidade e muitos sorrisos; ou se preferia a força, a pele branca, os cabelos lisos e dourados, o tom de certeza, confiança e clareza nas palavras, apesar da loucura de garoto rebelde.
É certo que ela não sabia o que queria. Um tinha sido seu companheiro por muito tempo, vivido muitos momentos e passado por muitos problemas. O fim do romance foi calmo, mas, ao mesmo tempo, conturbado. Muitas coisas ditas da boca pra fora. Muitas outras não ditas. Raiva, choro, saudade, boas e más lembranças, abraços, pedidos, sentimentos, desejos, indagações.
O segundo era mais recente. Uma paixão que apareceu do nada e foi ao tudo em pouco tempo. Mas depois retornou ao nada e novamente chegou ao tudo e nesse efeito gangorra acabou se perdendo. Foi menos traumático, se é que se pode dizer que um fim de relacionamento não é trauma. Mas a confiança daquele rapaz e a paz que ele transmitia fizeram com que as coisas fossem menos dolorosas.
E ela, ali, entre um e outro, sentindo-se como um solitário ipê em meio ao gramado da Esplanada dos Ministérios. Sem nenhuma calculadora que pudesse ajudá-la a resolver aquela operação. Por que será que ainda não inventaram uma fórmula para resolver as equações do coração?
Bem, ela não sabia. E ali, perdida entre os dois. Disputada feito cabo de guerra, preferiu relaxar, curtir a música e observar o sol se pondo atrás da Torre de TV. Afinal, na escola, quando ela não conseguia resolver o exercício bastava ir ao fim do livro e encontrar todas as respostas. Ela então, esperaria chegar o fim do seu livro de amor, e com ele a resposta que tanto procurava.
quinta-feira, 2 de agosto de 2007
Último dia
Pessoas o olhavam de lado, com desprezo. Tudo normal para uma terra conservadora. Mas aquilo o incomodava. Batia no fundo da alma, perfurando as idéias. Por isso, tentara se matar duas vezes. A primeira com remédios. A segunda, enforcado. Amarrou um lençol na base do telhado, subiu numa escada e sentiu um leve aperto no pescoço. Mas doeu mesmo a bunda e a cabeça. O telhado cedeu e ele caiu seco. Um pedaço de telha terminou de quebrar bem na sua testa, embaralhando ainda mais as idéias.
A tentativa frustrada o fez largar o trabalho na mercearia. Resolveu faltar e foi pro bar. Decidiu que nada melhor na vida do que beber triste. Foi o que fez, durante sete horas seguidas. Quando não aguentar mais a disolação e a cabeça não conseguia mais martelar pensamentos, parou e começou a perceber o movimento da chave contra o copo de vodka.
Passou uns 15 minutos de cabeça baixa. Tudo rodava. Quando resolveu levantar a cabeça pra pedir mais uma, alguém puxou a cadeira e sentou.
- Oi.
- Como vai?
- Eu? Bem. Mas você parece querer morrer.
- Já tive vontade maior.
- Olha, rapaz, não quero te fazer feliz não, mas você não está sozinho nessa.
O homem via dois jovens de olhos puxados na sua frente. Usava uma camisa quadriculada, com os primeiros botões abertos. Dava pra se ver os pelos ainda tímidos saindo do peito. “Não enche”, respondeu. “Sou veado mas não preciso de consolo”.
Precisava sim. E o rapaz do corpo atlético e camisa quadriculada pegou sua mão, apertou: “Você tá sozinho, sua bicha, não vem bancar o forte que sei que és mais frágil que capim seco. Estou aqui pra ficar junto de você e lutar contra a merda desse lugar”.
Juntos, tomaram mais três doses e saíram do bar. Um não entendia o outro. O suicida pensava pouco. Só admitia que a vida é uma merda porque não é previsível. Sentia naquele momento mais uma oportunidade pra odiar tudo que passou. Tinha em sua frente a surpresa da noite, mas não gostou da forma como tudo aconteceu. Talvez porque estivesse bêbado. Mesmo assim, se sentia atraído pela firmeza daquele garoto. E imaginou que poderia se apaixonar e viver melhor.
Chegaram então numa casa abandonada. Encostaram na parede e a iniciativa veio do mais novo. Levou a mão por entre as coxas do outro e apertou forte. Aquele que era triste agora agarrava o pescoço do estranho para dar-lhe com a língua em seus dentes, apertar-lhe a bunda para, em seguida, baixar as calças.
O jovem tirou a camisa, deu uma volta em seu pescoço e perguntou: “Lembra-se do Jonas?”. Repetiu a pergunta pela segunda vez e não houve resposta. “Lembra-se do Jonas?”, repetiu, mais alto e mais agressivo. No alto da excitação, a resposta saiu como um gozo. “Claro, aquele garoto é ótimo. Foi pra você também?”.
O garoto era irmão do jovem José, recém chegado na cidade. “Ele é bom pra mim. Mas eu sou melhor pra ele”. Em poucos segundos aquele que parecia gay e aventureiro tirou uma faca de cozinha da meia e enfiou na barriga do funcionário da mercearia, pressionando e puxando para cima, num movimento vertical e fatal. Tudo foi muito rápido. A parede respingada de sangue só apareceu quando ele caiu aos seus pés, de joelhos, com a camisa quadriculada ainda no pescoço.
Olhou de baixo pra cima e sentiu a faca perfurar suas costas. Estava pronto pra morrer. Entendeu que tudo fora uma armação. Um truque bom, cujo final feliz era a morte. Sorriu e disse as últimas palavras: “Obrigado, obrigado”. Morreu com a lembrança do pobre menino que assediava na saída da escola por vários dias e violentara quando, enfim, perdeu as estribeiras. Caiu aliviado. Entregou-se para morte, como queria. E ainda com o próprio sangue nas mãos.
segunda-feira, 30 de julho de 2007
Na escuridão
Foi acostumada, desde pequena, a dormir sempre acompanhada pelas letras. Quando criança, o pai lia para ela as lindas histórias de princesas, castelos, dragões e fadas que floreavam seus sonhos. Depois, já alfabetizada e, portanto, independente no mundo das palavras passou a dormir, inicialmente, acompanhada dos gibis. Mônica, Cascão e Cebolinha traziam aventuras aparentemente bobas, mas que sempre foram vivenciadas como se ela mesma fizesse parte da turma da rua de baixo.
Mais tarde, na pré-adolescência, os romances de jovens meninas e rapazes a encantavam e faziam sonhar com o seu príncipe encantado. Não aquele do cavalo branco, como nas histórias de criança. Mas sim o mais bonito do colégio, que jogava futebol e tirava boas notas, que lhe levaria para tomar sorvete na praça e ofereceria uma flor roubada do jardim.
Vieram então os dramas adultos e com eles outros romances, aventuras, policiais e por que não – mas só de vez em quando – algumas daquelas belas histórias juvenis que traziam boas recordações. Mas é fato que seu encantamento pelos livros só cresceu. Leituras mais densas, mais carregadas de detalhes, suspense e um pouco de erotismo.
Porém, agora, ela estava ali. Deitada, sozinha na escuridão. A leitura não lhe fazia companhia. Ela sabia o por que de sua solidão literária e, por isso mesmo, não conseguia acreditar que tenha passado tantas noites insones por um detalhe tão bobo: o abajur queimado.
Há mais de mês, a sua fonte de luz noturna tinha estragado. Já era tarde da madrugada, ela já havia adormecido, como de costume, com o livro pousado em seu peito. Acordou com o cheiro forte de queimado. Saía fumaça da base do abajur. Nada que necessitasse de um extintor, mas o suficiente para assustar alguém que já sonhava com viagens pelos mares do sul a bordo de um navio pirata. Bastou tirar o aparelho da tomada e resolveu-se o problema.
Porém, outro problema foi gerado com isso. Surgiu, então, a insônia, a saudade dos livros, das personagens, dos dilemas e dos amores que recheavam as histórias. Um abajur queimado, a razão de tudo. E ela não tomava uma atitude para consertá-lo. Parecia até que tinha deixado de gostar das histórias. Para ela, pior não era perder o sono, mas sim o ritmo dos contos, o fio da meada dos acontecimentos.
Ligar a luz do quarto era algo impensável. Pois, quando sentisse sono, teria que se levantar para apagá-la e a preguiça não permitia isso. Por isso apreciava tanto o abajur, ao alcance de sua mão. Bastava esticar o braço para alcançar o interruptor e criar o breu necessário para seus sonhos literários.
Por isso, enfim, ela foi ao eletricista. Pousou o abajur sobre o balcão e disse: “Moço, meu abajur queimou”. E naquela mesma noite, ela voltou a dormir. Um sono profundo, repleto de fantasias que só os livros podem nos trazer.
quinta-feira, 26 de julho de 2007
O marido e a copiadora
A sorte de Lúcio da Anunciação era que Maria Joaquina, a moça da cintura dura e rebolosa, não estava nem perto do marido. O homem, trabalhador, andava pelo outro lado da cidade. Mexia com corretagem e vivia rondando clientes que, achava ele, tinham dinheiro. Mesmo assim, às 18h10, sempre ao final do expediente, lá estava ele, de olhos esbugalhados, olhando ao redor com semblante de general, pegando os braços da mulher e subindo no ônibus.
Lúcio da Anunciação via sempre aquela cena com sarcasmo. Comentava pelos corredores: “Homem bravo é homem corno!”. Talvez no fundo de seu sentido adivinhava que aquele senhor de quarenta anos – e que ganhava mais 10 com o olhar alheio – desconfiava da mulher dia e noite. Principalmente no final da tarde, quando aquele contínuo atravessava seu caminho na saída da repartição, como se viesse do mesmo canto que sua esposa.
O pior é que de onde surgia ela, surgia ele. Naquele departamento de pouco mais de 20 funcionários, o grupo resolveu acabar o expediente 20 minutos antes do normal. Por isso, às 17h40 todos tomavam o rumo de casa. Exceto Lúcio e Joaquina. Estes fingiam que dobravam a esquina, mas voltavam para as dependências da repartição. Vazio, o lugar provocava-lhes arrepios na espinha. E quando se tocavam, as abotoaduras pareciam ganhar vida e libertavam justo o que deveriam prender.
Passavam, então, os dois, sozinhos, vinte minutos sobre uma mesa a trocar de posição num frenetismo sexual que Joaquina jamais sonhara em ter com seu marido gordo, malvado e trabalhador. Eram momentos sublimes. Ele cada vez mais apaixonado por sua cintura, agarrava-a com força como se quisesse vê-la pelas costas o resto da vida. Ela respirava forte e liberava gemidos de pavor espaçados. Estava assustada e realizada por ser vítima de um domínio tão pleno. Faziam isso todo dia.
Até que o destino trocou de lado e resolveu cutucar a onça do marido, que andava desconfiado com o fogo da mulher nas noites em que brincavam juntos. A culpa foi de Marlene. Ela fazia cópias de documentos e passava o dia inteiro no meio da repartição. Todos a conheciam, porque todos a viam. Ela, faladeira, gostava de investigar a vida de quem ali trabalhava. E achou de tocaiar o casal fogoso que andava se roçando no meio do departamento. Foi quando atrasou na saída e, de dentro do banheiro, viu tudo que a mesa testemunhava há meses e não podia divulgar.
No dia seguinte, saiu mais cedo. Parou o marido de Joaquina na esquina e avisou: “Venha aqui às 17h40. Verás que tua mulher não te merece”. Aquela informação de uma conhecida poderia nascer sem valor. Mas ele andava desconfiado. Armou-se, foi trabalhar e depois rumou em direção ao serviço da mulher. Saiu às cinco horas. Não queria se atrasar.
Naquela tarde, na repartição, houve comemoração no cafezinho. Era aniversário de alguém e os colegas se reuniram para o parabéns. Foi quando Lúcio da Anunciação roçou a mão na cintura de Joaquina. Ela fingiu não sentir, mas todos perceberam. Nesse momento, Marlene percebeu que a morte já se anunciava antes mesmo que ele pudesse levar a mão direita à cintura dela.
A cambada de gente foi embora às 17h40 em ponto. A copiadora também. Lúcio e Joaquina idem. Mas logo voltaram. Estavam bem dispostos nesse dia. Ele ainda conseguiu acariciar sua cintura e levar sua mão para entre as pernas da mulher. Mas logo o marido entra na sala. Ao lado, a futriqueira, com cara de satisfação por delatar os pombos que clamaram por aventuras sexuais.
Ele tira a arma da cintura e embarga a voz. Chorou. Sentia ódio. Cegava de ódio. Com o trabuco em sua direção, a mulher implorava para que não o matassem. Ele gritou apenas “Corram!”. Mas o casal não entendeu. Então, soltou outro berro: “Corram, seus desgraçados!”. Os dois zilaram de mãos dadas, atravessaram a porta e sumiram. Nunca estiveram tão juntos um do outro.
Quando não estavam mais às vistas do marido traído, este vira para a fazedora de cópias, pousa o cano da arma no meio da sua testa e diz: “Se ficares calada, estragarás poucas vidas”. Puxou o gatilho. O tiro certeiro arrebentou-lhe a cabeça e ela se calou para sempre. Mas, antes que Marlene caísse inerte, Joca, o Marido, enfiou a arma na boca e acabou com o serviço. Matou-se. Morreu carregando o peso de saber demais.
domingo, 22 de julho de 2007
Uma lição
Nas noites em que arriscavam uma saída, iam comer uma besteirinha na esquina. E só. Namoravam há quatro anos. Eram jovens, por incrível que pareça. Ele tinha 22 e ela 20. Quase nenhuma diferença de idade. Na verdade, eram iguais na monotonia. E ambos, bem no fundo, não gostavam disso. Preferiam os velhos tempos: noitadas, viagens com amigos pra uma praia bonita, bebida, alegria, pegação. Mas, agora, estavam ali. Um na frente do outro, mergulhados numa mesmice profunda.
O pior é que Lúcio e Ana se acostumaram com essa vida. Nem arriscavam mais sair. Tinham poucos amigos. Ainda assim, a conversa não fluía muito bem. Estavam inócuos pa
ra tudo. Ela até deu uma engordadinha. Mas continuava bonita. Morena, olhos esverdeados, voz aveludada e calma, pernas musculosas. Era baixa, mas nem tanto. Com um salto, conseguia enganar um produtor de moda.E ele, que um dia foi sarado, começou a colecionar uns quilinhos depois que passou a estudar pra concurso. Mas também tinha pinta de modelo. Era branco, cabelos pretos, lisos. E seguia à risca o corte do David Beckham. Por isso, mudava sempre de cabelo. Os amigos achavam a mania um troço pra lá de esquisito, o chamavam de viado a torto e a direito. Mas ele gostava, paciência.
Só não gostou quando Ana ficou estranha demais. Falava pouco. Parecia não ter tanta paciência com ele. Inventava umas dores de cabeça nos dias que ele acenava com as visitas de rotina, nas quais eram engolidos pela grade de programação da Globo. Percebeu que ela passou a esconder sempre o celular. Às vezes, fingia que esquecia.
Ele notou tudo. Até que resolveu lhe fazer uma visita surpresa. Entrou na casa dela, foi para cozinha e ficaram os dois por lá, papeando. Quando chegou uma mensagem no telefone dela, perguntou quem era. Ela disse que era o personal trainer da mãe, que tinha ficado de ligar. Mas ai chega outro recado: “Foi mal. É que as vezes me exagero, mas não consigo para de pensar em você. Beijos, minha paquera”, dizia a mensagem.
Ele enlouqueceu e ela tratou de negar tudo. Disse que o menino estava louco, que era da turma dela, mas tinha confundido tudo. Inventou, mentiu, chorou. Mas admitiu que a primeira mensagem era dele e ela viu e apagou sem que o namorado percebesse. Ele pôs a mão na consciência, mandou ela pra puta que pariu e foi embora. Chorou, pensou, esperou
uns dois dias e resolveu conversar. Lúcio não era o namorado que ela necessitava, mas gostava muito da menina. Isso a comovia. Conversaram e decidiram dar um tempinho básico.O tempo durou duas semanas. Lúcio resolveu ligar pra saber como andavam as coisas. Ana disse que estava muuuuito bem e revelou: tinha ficado com outro e estava gostando. Achava melhor eles acabarem tudo de uma vez. Ele alucinou um pouco e depois desligou o telefone, antes de ser tomado pela sensação de que havia feito tudo errado. E fez mesmo.
Perdeu seu amor porque esqueceu de dar emoção à sua relação. Achou que o tempo segurava tudo e acabou perdendo a gatinha pro primeiro mané que apareceu. Depois, soube que ela e o novo amor viviam em farras, viajavam pra lá e pra cá e abusavam de shows de axé – coisa que ele odeia. Ela estava feliz. O rapaz conseguia fazer o que ele nem pensou em fazer. Percebeu, então, que namoro só é bem firme quando se faz uma coisa diferente a cada dia. Senão, vai sempre dar tudo errado.
quarta-feira, 6 de junho de 2007
Últimos Instantes
Quanto tempo ele ainda teria não era certo. Mas era certo que estava acabando. Não lhe sobrara muita esperança depois de ouvir as palavras que ouvira naquele consultório.
E então, lá foi ele. Saiu dançando pela rua, parou no bar e tomou uma cerveja. Desceu na quadra, dobrou a barra da calça, tirou os sapatos e jogou bola com a criançada. Fez gol e comemorou como se fosse final de copa do mundo. Tomou outra cerveja para matar a sede.
Ligou para os amigos e convidou todos para uma noitada. Paga por ele, é claro. Queria gastar o máximo de tempo possível com seus fiéis companheiros, pois sabia que não teria outras chances para isso.
Comeu como um rei. Carne, massa, salada. Com direito a repetir quantas vezes quisesse. Esbaldou-se de sorvete na sobremesa.
E no fim do dia, deitou na cama e agradeceu. Por nunca ter passado necessidade. Por nunca ter perdido nenhum parente, ou amigo próximo. Por ter tido a oportunidade de estudar, trabalhar e viajar.
Por sempre ter sido respeitado pelos outros. Por ter aprendido a diferenciar o que era bom, do que era ruim. E, até mesmo, por ter nascido bem apessoado – pelo menos em sua própria concepção. E, principalmente, por nunca ter tido nenhuma enfermidade séria.
Enfim, agradeceu pela boa vida que teve, mas pediu desculpas por não poder mantê-la. Não depois do que ouviu dela, naquela manhã.
Depois de tantos anos juntos, ele jamais havia ido ao seu consultório. Afinal, não era preciso consultar-se com uma ginecologista.
E na primeira, e última, vez que esteve lá, ouviu a única coisa que o faria desistir de viver: “É uma pena, mas não te amo mais”.
quarta-feira, 16 de maio de 2007
Parece, mas não é
Ele observava cada movimento dela. Cada pedacinho, cada pintinha. Chegou certa vez a tentar contá-las, mas como ela não parava quieta, acabou desistindo. Seu sorriso era certo ao ver o dela. E o sorriso dela era tudo o que ele esperava ver todos os dias.
Ela não conhecia rapaz mais elegante. Ficava impressionada com seus gestos, sua forma de caminhar, falar e claro. De sorrir. Seu sorriso era o mais belo. Não tinha como não sorrir junto, vendo tão bonita expressão. Ela gostava do seu cabelo, sempre penteado. Da sua roupa, sempre bem passada.
E eles passaram anos assim, felizes, se admirando. Ele, atrás do balcão da lanchonete, entre um hambúrguer com milk-shake de chocolate e outro, que ficava de um lado da rua. Ela, da vitrine da butique do outro lado, enquanto atendia às clientes. Era uma paixão fantástica, que não conhecia limites.
Até o dia em que eles se conheceram. Apesar da elegância do balcão, ele não era nada educado. Apesar do belo sorriso, ela tinha bafo. Apesar da roupa bem passada, ele não usava desodorante. Apesar das várias pintinhas, sua pele tinha uma textura estranha. Não deu, não houve química.
E acabou-se a paixão.