sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Reforma geral no meu coração


É sério. Eu estou cansada. Não aguento mais esses caras que aparecem na minha vida. São todos um bando de pedreiros que não tem a menor sensibilidade e estão, apenas, à procura de um corpo pra satisfazê-los. Vou fechar meu coração para uma reforma geral.

Preciso de um mestre de obras para construir um coração nesse terreno vago que trago no peito. Alguém que chegue e bote ordem na peãozada. Que saiba olhar o esqueleto do meu edifício e identificar onde ainda falta reboco, onde precisa de mais argamassa. Um cara que consiga endireitar a viga mestra da minha vida. Que ladrilhe cada lugar com esmero. E um engenheiro que estruture tudo isso.

Eu preciso do arquiteto que vá dizer que podemos quebrar uma parede aqui, abrir uma janela ali e assim deixar minha vida mais arejada, com o sol da manhã batendo pra me aquecer. Que escolha a cor da parede. E que seja uma cor viva, quente. Um paisagista que plante um jardim na minha porta e traga flores para o meu dia.

Mas de pedreiro que assovia e dá cantada barata, chega. Desculpe o transtorno, mas estamos em obras para melhor atendê-lo.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Arriscado ensaio sobre las mujeres


Sou um apreciador da linhagem feminina. De suas cores, aromas, gestos e desejos. Há sempre algo de surpreendente nas mulheres. Das bruacas às modelos, todas têm um não-sei-quê de amor, beleza e um punhado de chatice. As mulheres são amáveis e detestáveis. Instáveis. Umas desequilibradas e outras equilibradas demais. Cada qual com seu charme. E que chame.

Por essas e outras, mais quentes, um homem deve sempre respeitá-las. Mesmo aquelas que descem a mais rasteira das sem-vergonhices, que têm lá suas razões, claro, devem ser tratadas como mulheres. Essas, aliás, são originais como uma antártica do velho e bom Marujo. Autênticas como um código de barra de uma barra de chokito. Coisita fina. Ainda assim, com peripécias e tudo, elas merecem ser respeitadas. Merecem consideração e perdão (voto de confiança é outra coisa, people).

O mancebo, para sintonizar no dion feminino sem ruídos ou perda de sinal, deve obedecer regras básicas. Corrijam-me se eu estiver enganado, moças. Mas mulher detesta marmanjo ignorante. Muitas nem gostam do excesso de musculatura, sempre avermelhada na volta da academia. Carinho é sempre bom. Mas sem muita frescura.

Mulher não gosta de homem assustador. Nem frouxo demais. O cabra deve, acima de tudo, ter foco. Não podem ser como Rambo no Vietnã, de cabeça avermelhada e metralhadora na mão. Temos de ser atiradores de elite. Mirar, concentrar e atirar.

Foco é tudo.

Necessário na conquista e também para manter um bom relacionamento. Os modernos garantem uma fêmea e ponto. E descobrem a dita cuja por inteiro. Conversam, brincam, transam, brigam e se separam - não necessariamente nesta ordem - e depois partem para outra. Isso me lembra conselhos da mamãe na minha velha infância: "Come devagar, menino. Uma de cada vez". Só pra registrar: falo do biscoito de chocolate. Boníssimo!

Enfim, vocês, mujeres, não gostam de nhén-nhén-nhén. De homem indeciso. Discutir a relação? A iniciativa deve ser delas. A gente escuta, faz um carinho, dá uma enrolada, diz que vai mudar e pronto. Ou, simplesmente, dá de ombros (mas tem de ser numa quarta, dia de clássico) e conversa depois, quando tiver tudo numa relax, numa tranquila, numa boa.

Mas, atenção, gloriosas. Não sou professor de nada. Apenas aprendiz de tudo. Corrijam-me se eu estiver - total ou parcialmente – errado nesta arriscada missão de decifrá-las. Pra mim vai ser ótimo aprender mais um pouquito más.

Fui!

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Aprendendo com o não

No rádio o Herbert Vianna cantou “se eu nunca quisesse quem nunca me quis” e aquilo me bateu como uma marreta na cabeça. Se eu nunca quisesse quem nunca me quis, certamente a vida teria sido bem mais fácil. Mas teria valido a pena? Teria sido tão surpreendente? Eu teria todo o aprendizado que tive?

Quem ama e é correspondido vive. Mas quem ama sem ser correspondido sobrevive. E é na sobrevivência que conhecemos a dor. É a dor que nos traz a força.

Porque se eu nunca quisesse quem nunca me quis, não teria ficado debaixo de chuva esperando a Aninha chegar do trabalho pra encontrá-la “acidentalmente”. Não teria inventado um estranho gosto por vitamina de abacate com aveia, mel, tofu e amendoim, só para acompanhar a Márcia naquela lanchonete natureba.

Se eu nunca quisesse quem nunca me quis, não teria chorado ao ver a Helena beijando o Leco na festa de formatura. O álcool ajudou, é claro. Mas eu amava aquela menina. E ela nunca me quis. Nem como amigo. Essas experiências e algumas outras me ensinaram muito. Ensinaram a perceber que nem tudo o que queremos podemos ter, mas também que se nos esforçarmos, conquistamos pontos.

Aprendi que ouvir não faz mal para o ego, mas faz bem pra ter persistência. E aprendi que abacate, tofu, mel, aveia e amendoim dão diarreia.

Por isso, Herbert, se eu nunca quisesse quem nunca me quis, não seria o homem que sou hoje. Não teria ouvido os nãos que me fizeram aprender e crescer. Aliás, acho que se eu (e todos os outros homens do mundo) nunca quisesse quem nunca me quis, nem a Gisele Bündchen seria tão famosa. Afinal, ela só é quem é por ser desejada. E por não desejar nenhum de nós, mortais. Se bem que ela ainda não me conhece, né? Será?

sexta-feira, 29 de julho de 2011

O valor do "vale naite"


Se você pretende saber como são os seres viventes humanos, dê-lhes um "vale naite". Aportuguesado mesmo. Bem ralé e cheio de energia. De uns quatro dias. Mas cuidado com as consequências.

- Amor, vou viajar na quinta.

- Viajar? Cê tá doida? Que história é essa?

- É. Vou com meus pais. É aniversário do meu avô e terei que ir.

- iiii, gata. É mermo? Programão, hein? E cê volta quando?

- Volto no domingo. Vai ter a festa no sábado, mas meus pais querem ir antes.

- Pô. Tudo isso? (carinha de triste)

- Pois é. Tudo isso. (beijinho na carinha de triste)

- Então, tá, né? Vou ficar por aqui, te aguardando.

- Te comporta, viu? Nada de ficar na farra.

- Que farra nada, amor. Só vou na bola quinta, que você já sabe, e de lá um chope com a galera. Uma da manhã, no máximo, eu tô em casa.

- Uma da manhã?!!! Mas cê sempre volta meia-noite.

- É, amor, mas cê não tá aqui, né? Então posso dar uma atrasadinha.

- Ummmmm. Já vai começar.

- Relaxa, xuxu. Na sexta vou ter que ir para casa dos meus primos, viu?

- Primos?! Pô, mas você nunca vai na casa dos seus primos. Nunca sai com eles.

- Por isso mesmo, linda. Quero marcar uma presença. Eles me ligaram no começo da semana. Vai rolar um poker lá e me chamaram. Só homem mesmo. Se você estivesse aqui eu não iria. Mas como cê vai tá fora - e eu não vou ter o que fazer sem você aqui - vou lá.

- Tá, mas me liga de lá pra eu saber que você tá lá mesmo.

- Me respeita. Cê acha que eu vou pra onde? E outra coisa. Lá na casa do Márcio sabe como é. O celular pega mal. Mas vou ligar pra você quando tiver indo.

- E no sábado?

- No sábado vou na praia com a galera, como sempre. Dessa vez sem você.

- E domingo?

- A ressaca vai tá braba. Não vou querer saber de rua.

- Tá. Rum. Vou ficar de olho.

- Relaxa, lindona. Confia no papai...

A sexta chega livre leve e solta. Tudo armado. O poker vai virar sertanejo na Toca do Urubu com a rapaziada toda na ilegalidade. Banho tomado, perfuminho e base na casa da primalhada. Urru! A noite promete.

Não fosse o telefone tocar. O número é o do celular da sogra.

- Alô?

- Aloou! Oi, dona Marlene. Como tá, tudo bem?

- Tudo. Tentei ligar no telefone da Julinha, mas tá desligado. E como tá a viagem?

- Viagem? Eu que pergunto, dona Marlene. Vai ter festão?

- Que festão, meu filho. Tô em casa, preocupado com minha filha que viajou e não me ligou ainda.

- Viajou? Ela não está viajando com vocês? Me falou que iria no aniversário do avô com os pais.

- Aniversário? Não. Ela me disse que viajaria com você pra fazenda de uns amigos seus. Ai meus Jesus...!

- Jesus, dona Marlene? Puta que pariu...

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Te amo. E pronto.


Eu sei que teu sonho era um namorado daqueles bem sensíveis e românticos. Que tu desejavas mesmo era ter um cara que te desse beijo de cinema na fila do cinema, que adentrasse o apartamento te carregando no colo, te jogasse na cama e te despisse com delicadeza. E depois, com uma bela bandeja de frutas na cama, te dissesse as palavras mais bonitas e poéticas que você adoraria ouvir.

Mas fazer o quê? Calhou de eu me apaixonar por você e, amém, você se apaixonar por mim. E acontece que eu não sou assim. Tenho esse meu jeito mais tímido, mais grosseirão. Não tenho muita leitura nem tendências a surtos de romantismo. Minha ganância na hora de tirar sua roupa é tal qual a de menino atacando o brigadeiro depois do “Parabéns pra Você”. Mas é que é assim mesmo que me sinto: menino frente ao seu doce preferido com o qual ele quer se deliciar e lambuzar.

Tenho consciência de que não digo as coisas certas nas horas certas. Que perco o momento ideal pra te fazer um elogio e dizer que teu cabelo está lindo ou qualquer outra dessas coisas que você gosta de ouvir. Eu não abro a porta do carro, não mando mensagem de bom dia e, se deixar, passo o dia inteiro sem ligar. Não te dou meu agasalho quando você está com frio, não desenho coraçõezinhos com nossas iniciais no vapor do espelho depois do banho quente. Mas sei lá, acho que o melhor que te digo, sem dúvida nenhuma e sem medo de errar é: Te amo. E pronto.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Quando?

Às vezes eu me pego pensando em quando será que vou te encontrar de novo. Você foi embora tão repentinamente. Não deu tchau, não deixou bilhete de despedida. E eu fiquei aqui sozinha, sem entender

Eu sei que não sou santa. Que, como você sempre disse, “tenho gênio difícil e não sei perdoar os outros”. Meu coração é mesmo estranho. Capaz de detestar alguns por tão pouco e amar outros – você – também por quase nada. Mas ainda assim fico sem saber se foi por isso que você me deixou.

A verdade mesmo é que eu queria entender. Saber o porquê. E, decididamente, saber quando iria te encontrar para você me dar todas essas respostas. Por que não é possível que você não se lembre de mim. Não acredito que você tenha me apagado das suas memórias.

E mais do que isso, não acredito que você simplesmente se esqueceu que me amava. Que eu era sua. Com todos os defeitos, crises, loucuras e manias, mas sua. Inteira. Corpo, alma, pele, cheiro. Lembra disso? Era a nossa “santíssima trindade, mas com quatro itens”. Cadê você pra eu poder te relembrar disso tudo?

Você não me apagou das suas memórias. Você não esqueceu de mim. Mas se tiver esquecido, por favor, lembre-se. Preciso de você de volta.

*Livremente inspirado daqui

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Na primeira noite. Por que não?


Quanto mais eu cresço, amadureço, mais dúvidas sobre as mulheres tenho. É como um exercício de, digamos, enxugar gelo, lavar carro com palha de aço ou simplesmente discutir indignado (já experimentou bater boca sem sentir raiva? É quase poético). Pois bem. Matutar sobre as razões feminianas me lembra o velho ditado: quanto mais mexe, mais fede.

Eu, por exemplo, sempre tive tenebrosas dúvidas da relação entre as mulheres e a primeira noite. Ou melhor, a entrega na primeira noite. Por que umas dão de prima e outras não? Com qual intenção uma jovem atraente pra lá de vinte e tantos anos, suada de tanto dançar e beijar, lhe diz: "Rum. Danadinho. Vamos devagar. Na primeira noite, não. Ainda é cedo."?

Simples mais seria, como diria o sábio Yoda, mestre dos Jedis e da gramática alternativa, se a nobre e precavida dama dissesse: "Olha, menino tarado, eu vou te dar. Mas na primeira noite, não. Primeiro você precisa ficar com mais vontade. Eu vou fazer umas carinhas sexy aqui e te deixar pegar ali. Mas só isso. Amanhã você me liga, me chama pra jantar, a gente bebe um vinho e depois eu lhe dou, okay?".

"Tem piriiiigo", diria o velho baitola da terra de Didi Mocó. Sinceridade tem limite, né não?

Até tem. Mas existem relações mais sinceramente prazerosas que outras. Eu, por exemplo, tenho uma amiga que mais parece a "Deusa Práxis" de tão prática para as coisas do coração que a moça é. Aprendeu com a mãe.

Desde a época em que ainda chamavam bullying de "brincadeira besta", a mãe desse achado humano, experiente e segura representante do comportamento feminístico, dizia: "Minha filha, se você gostar dele, não dê na primeira noite!". Ou seja, dê se não houver significado, se não der "liga", dê por esporte ou por puro impulso. Por amor, não dê.

Paradoxalmente genial. Besta somos nós. Homens fantasiados de onipotentes. Quando pensamos que a joia da noite está no papo, ela já foi embora antes de chegar.

Digo eu por isso: nunca subestime as mulheres. Nem tente desvendá-las. Ser enigmática é a principal característica. E no fundo no fundo, é disso que os homens gostam.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Promessas

Nós passamos cinco anos juntos. Fiz várias promessas a você: parar de comer bacon, ir ao teatro na próxima peça bacana, começar a malhar, beber menos, ler Paulo Coelho, ligar mais para a minha mãe, levar teu sobrinho comigo ao estádio...

Confesso que fiz muitas promessas impossíveis de cumprir, como aquela viagem às Ilhas Gregas de navio. Só eu e você, com tudo por minha conta. Ir todo ano pra São Paulo passar o réveillon na casa do teu tio rico e esnobe. Coisas que eu sabia que não cumpriria, mas que te fariam bem se eu prometesse. E me faria melhor ainda, por não te ver triste.

E agora faço nova promessa: vou te esquecer! Prometo que não te amarei mais, que não terei saudade dos teus pés gelados se esquentando nos meus ao deitar. Prometo que não sentirei falta das tuas inúmeras ligações ao longo do dia e nem dos teus chiliques quando eu me atrasava pras festas da tua mãe.

Prometo encontrar outro café tão bom quanto o teu. Prometo achar uma nova cobaia para os drinks que eu invento. Prometo guardar todas as fotos, cartas e recordações em caixas e queimá-las na fogueira de junho. Prometo apagar teus e-mails.Prometo até iniciar a dieta na segunda feira.

Prometo, inclusive, não cumprir nada disso só pra continuar sendo o cara por quem você se apaixonou.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Dois Sentidos

Você sabe. Você me conhece bem. De todas as variantes mais loucas dessa nossa língua portuguesa, o que sempre me deixou mais encantado é a forma como uma palavra tem sempre mais de um sentido dependendo do contexto em que for utilizada.

Já brincamos muito com isso fazendo jogos de palavras. Não esqueço nunca do dia em que você roubou um manequim da loja do seu pai só pra me jogar um braço quando te pedi “uma mãozinha” pra terminar o arroz. Ou o dia que você me ligou no meio da tarde, dizendo que estava em casa e que tinha perdido a cabeça. Eu larguei tudo no escritório e te encontrei às gargalhadas na cama, com o manequim decapitado ao seu lado. “Perdi!”, você disse entre uma e outra risada.

Macaco, que pode ser o animal ou a ferramenta que ajuda a trocar pneu. Carta, que você – paulista – usa para carteira de motorista e eu uso para o texto que enviamos a alguém via correio. Fogo, aquele que queima ou aquele que você não me nega nunca. Pau, que pode ser um pedaço de madeira ou... Enfim, você sabe. Você me conhece bem.

O triste de tudo isso é que até agora eu pensava que amor só podia ter um significado. Esse entre nós. Esse que esteve aí durante os últimos anos. O significado de querer estar junto, de compartilhar, de fazer amor, de contar as novidades.

Mas sabe? Eu descobri que não. Tem outro significado. Não sei explicar qual é. Mas, me parece que eu não quero mais tudo aquilo do outro significado, aquele das coisas boas. Parece que não quero mais você. Mesmo assim, eu sei que te amo. Não sei se de uma nova maneira, com um novo significado... Explica essa? Tem como ter esse duplo sentido?

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Indiferença dói

Não me importo que hoje você esteja com outros caras. Não me interesso se você está comendo bem ou manteve seu péssimo hábito de almoçar no Mc’Donalds. Não sinto nenhum pesar em saber que você anda se embriagando em diferentes boates na mesma noite. É sério mesmo. Dia desses encontrei a Amanda no banco, ela me contou que você tinha caído e estava toda ralada. Minha vontade foi de rir. Não senti nenhuma pena sua.

Mas encontrar com você é que me mata. Estar ao seu lado e você fingir que não me conhece. Que não sabe quem eu sou. Ignorar todos os anos que ficamos juntos, fingir esquecer os lugares que visitamos, as situações que vivemos e os planos que traçamos. Isso me dói. Sua indiferença me dói.

Pior ainda é quando você me chama pra bater papo no MSN. Como se não tivesse me visto na rua. E cita coisas que fez com outros, como se nunca tivesse feito aquilo comigo. Quando cito fatos da minha (nossa) vida e você diz não se lembrar. Isso é o que me mata por dentro. É o que me consome e faz enlouquecer. Só queria teu respeito. Só queria que levasse em consideração o homem que fui para você.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Ensaio sobre a frescura masculina


Um brinde à frieza humana. Craseada mesmo! Viva o “tô-nem-ai-pra-você-meu-rapaz”. E o melhor: salve o “deixa-de-frescura-moleque”! Por aqui, “onde-os-fracos-não-tem-vez”, mais vale o silêncio do que a publicidade espontânea do nosso frágil coraçãozinho de homem. Eis o momento fúnebre da humilhação humana: quando o macho chora e pergunta: “Por quê? Por quê? Por que?”.

Você, homenzarrão de coração frouxo, jamais repita isso. Por quê? Uma vez basta. Lá nos tempos do colegial. E chega. Ensino médio, como se diz hoje, ainda vale. Época de aprendizado, de criar casca, de chorar o leite derramado. Depois disso, sinta-se graduado. Beba-o do chão mesmo! E poupe as danadas das ceninhas chorosas.

Alguém ai já levou um inesquecível pé-na-bunda? Eu já. Façamos, então, bom proveito.

Porque nada muda uma decisão feminina. Elas são como aroeiras-do-sertão, árvores belas, de pés no chão. Balançam, envergam, choram, emudecem, brigam, gritam, escurecem, desaparecem. Mas nada por completo. Elas sempre voltam. Mais fortes, mais lindas, mais sorridentes, mais bundudas, mais saradas, mais charmosas, mais tesudas, mais amigas... enfim! Mais mulheres.

E nós? Poupemo-nos da derrota. Mantenhamos o jeitão de homem. Macho mesmo. Tradicionalismo com aquela modernidade intelectual ainda funciona. Saber decidir é fundamental. Diga sim e diga não. "Você-é-que-sabe" é para os fracos. Para elas, entreguemos o mistério. Mistério é alimento para o amor. Daremos a elas o combustível da dúvida. Sobre tudo, se possível.

Mas, em tempo: homem que é homem respeita sua dama. Protege-a como um King-Kong cabrêro. Lança olhares vermelhos aos gaviões ameaçadores. E pula em seus pescoços quando necessário. Homem que é homem ama. E declama também. Acaricia e pega. Pega com jeito. Marca pele e coração.

No fim, homem também aprende a ser largado e se respeita. Os verdadeiros não são frescos, nem fracos. Homem sofre. Mas não esperneia. Silencia, cala. E espera. Afinal, homem que é homem admite a derrota. E a deixa partir.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Cotidiano de amor

Senta aqui ao meu lado e me conta teus planos para o dia de hoje, amanhã, depois de amanhã, o próximo mês e os próximos cinco anos – que é o máximo que eu consigo me planejar. Enquanto você fala, te ajudo a terminar essa cruzadinha do jornal e a gente vê se aprende algo novo juntos.

Eu leio teu horóscopo juntando as melhores coisas de todos os signos que é pra você ficar tranquila. O bom momento no trabalho de Libra, a oportunidade de viagens de Leão, a capacidade de reflexão para a família de Sagitário – devido ao alinhamento da lua em Áries. Tudo isso vai lhe cair bem porque, afinal, você é geminiana. Então, é muitas em uma só. E também porque você diz que acredita em astrologia, mas no fundo sabe que isso é tudo baboseira de jornal. Teu número da sorte vai ser o tempo exato dos dias que estamos juntos. Mas a tua cor do dia vai ser vermelha, sempre. Porque é assim que gosto de ti. Radiante escarlate.

Senta aqui e toma teu café com calma, enquanto eu canto uma musica da Adele no teu ouvido e finjo rebolar feito um Elvis Presley. Minha voz rouca não se compara a dela, mas sou eu quem sabe te fazer arrepiar logo cedo, ainda na primeira xícara. Mas é fato que minha fraca imitação é mais digna de risadas que de arrepios. Mas e daí? Você sempre foi mais bonita sorrindo mesmo.

Vem, senta aqui que eu te mostro quem é que te ama e que sabe fazer os melhores ovos cozidos com a gema mole que você já comeu. Vem que nosso dia a dia pode parecer bobo às vistas dos outros, mas só a gente sabe a alegria de dividir as pequenezas e não dar tanta bola às grandiosidades. Vem, porque você é a minha pequena favorita e se tu demorar eu acabo comendo o miolo do teu pão.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

A sobrevivência


Nem a mais perfeita das cronicidades poderia descrever tamanha complicação. Só quem vive a mercê das oscilações do corpo, da alma e da mente de uma mulher sabe o quanto paciência é raridade diante deste detestado e necessário ciclo mensal. É ela: a danada da TPM. Chegou, chegando! Com direito a enxaqueca e tudo.

Nessa hora, muita calma. Ou nessa calma, muita hora. Você vai precisar. Como dizem umas filósofas amigas: não seja mirim. Seja juvenil. Respire, conte até três. E trate de iniciar seu ciclo salvador.

De tanto ver minha paz surrada feito camisa de mendigo, desenvolvi a habilidade de estabelecer meu ciclo paralelo. Em busca da sobrevivência, da tranquilidade masculina. Quando a hora vai chegando, protejo meus afazeres, investigo e começo a estratégia de libertação. É a blindagem da reputação de macho.

Cineminha na segunda, amor? Bora fazer uma comidinha na terça pra relaxar? Um jantarzinho na quarta, depois do trabalho?

Isso não é só presença de espírito masculina. Repito: é questão de sobrevivência.

Pense: na quinta é dia de futebol. Depois da pelada, a resenha com os camaradas. Todos guerreiros da resistência. Vai querer perder? Nunquinha. Programação indispensável para o retilíneo andar da carruagem masculina. Serve como bisca na testa. Reaviva a memória e a macheza. Coloca nós, homens, criatura em extinção, de novo nos eixos. Re-no-va-ção do espírito.

A essa altura, a dona já cansou de se irritar com os outros e vai querer um momento de paz, descansar vendo Travel & Living ou A Grande Família. Nessa hora que você entra:

- Amor, tô indo pro futebol, tá? Se precisar de algo me liga que vou ai, ok?

E vá, com toda glória do espírito macho, rezando para seu celular não tocar. Para felicidade geral da nação, ele nunca toca.

E tome chope e papo furado!

A exceção é quando o tempo passa, você não vê e a uma da manhã a fera acorda do primeiro sono da noite.

- Estou pagando a conta, gata. Não se preocupe. Beijo! Tchau!

De manhã, noutro dia, matamos no peito a ressaca e mandamos a TPM pra escanteio. Missão cumprida. Ciclo fechado. Resistimos à semana da TPM (Tão Perdoadas, Moças). Madame satisfeita e nós inteiros.

No fim do dia, é hora de encher a cara. Agora, só mês que vem.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Antecipação da dor

Olha, eu estou me adiantando nessa conversa porque eu sei como isso funciona. Já passei por isso. Não será a primeira vez e eu sei que também não será a última. Mas estou deixando isso escrito e pronto pra ver se na hora dói menos. Assim evitamos os choros, os xingamentos, as palavras ditas que não voltam atrás e machucam. Também não precisamos ficar relembrando o quanto foi bom. Não tem pra quê.

Estamos bem hoje, eu sei. Mas a vida dá voltas. Amanhã pode ser que uma palavra fora de contexto, um telefonema não atendido, um encontro desmarcado ou, simplesmente, o encanto quebrado acabe com tudo. E aí ficarão estas palavras para evitarmos a chateação do adeus.

Porque o adeus acontece quase sempre da mesma forma. Mas dói mais quando é alongado, quando ficamos remoendo tudo o que aconteceu. Aposto como você iria resgatar o nosso primeiro encontro, o sorvete de tapioca, o banho de guaraná que você me deu, o salto da sandália quebrada, o meu medo de viajar de avião e a força que você segurava minha mão pra tentar me acalmar.

E eu ia relembrar do dia que o salto da sandália quebrou e eu te carreguei no colo por uns três metros, quase morrendo, e evidenciando que força e preparo físico não eram meu forte. Ia lembrar de como você ficou maravilhada quando te levei pela primeira vez ao Louvre. E principalmente, ia sentir no ar seu cheiro de banho tomado que você trazia ao deitar ao meu lado naquele tempo em que você trabalhava até tarde no café.

E eu juro que não precisamos disso. Se chegou a hora, o melhor é você seguir teu rumo. Eu vou ficando por aqui. Mas eu precisava me adiantar com isso e te explicar que te amo. Mesmo que você esteja me deixando. Eu te amo. Te amo como nunca amei nenhuma das outras – e eu não preciso reforçar que foram muitas já que você tratou de descobrir todas.

Te amo mesmo. Cada coisa, cada mania, cada defeito, cada palavra. Tudo seu se encaixa perfeitamente em mim. E eu queria que você soubesse isso agora. Ainda que seja tarde, mas é importante pra mim. Vai seguir tua vida. Mas saiba que aqui eu vou continuar te amando.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Quem diria

Se pudesse te dar um nome, seria “Quem diria...”. Não é tão belo quanto o que teus pais te deram e consta lindamente no RG. Pode até ser que não combine tanto com teu sorriso. Mas eu poderia, diariamente, dizer: Quem diria que você estaria aqui hoje comigo depois de tanta coisa vivida? Quem diria que você, depois de tanta insistência minha, se entregaria? Ah, Quem diria! Quem diria que você seria minha? Nem Deus acreditaria!

Quem, com toda certeza, apostaria na nossa vida a dois? Quem, depois de ouvir seu papo sobre “eu enjoo rápido dos meus namorados”, se empolgaria em investir nessa relação? Quem diria... você acordando ao meu lado, tomando café na cama e ficando de preguiça o resto da manhã entre papos absurdos e orgasmos idem?

A durona que não se entregava. A fodona que não se envolvia. Hoje está aqui ao meu lado e eu te chamando de Quem diria. Ainda bem que tu vieste, amor. Ainda bem que você queria. Ainda bem que eu já sabia. Ainda bem que eu te amo, Maria.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Como Fantasia

A vida de todo mundo daria um livro. Esse é meu trabalho. Conhecer tua história e transformá-la num épico, num grande exemplo de vida. Ou mesmo numa grande tragédia, vai da tua escolha.

Transformo teus medos em virtudes, tuas dores em vitórias, tuas lágrimas em sangue e tuas derrotas em força. As baratas que matou na cozinha viram leões mortos a golpes de espada de prata na savana. Os impropérios que disse numa briga de trânsito soarão como ensinamentos de um mestre calmo e sábio.

Transformo tuas letras em palavras, palavras em frases, frases em períodos, períodos em parágrafos e parágrafos em lendas. Meu trabalho é este. Fantasiar tua vida. Dar a ela o sentido que você não conseguiu na realidade. Realizar teus sonhos, bater tuas metas.

Tuas conquistas serão heróicas, tua vida será rica, tuas idéias serão brilhantes e teus amores serão eternos. A admiração virá desde as primeiras páginas e todos, ao findar a leitura, dirão: quero ser como você.

Mas, sinceramente, ao te verem com estes olhos marejados, não haverá palavra que disfarce a saudades que sentes dela.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Na memória dos bons sentimentos

Lembra do dia em que te conheci? Às vezes me pego lembrando disso, com um sorriso meio bobo na cara. Aquele que você nunca entendeu quando me via te observando durante suas atividades rotineiras de casa. E quando me pego pensando em você, não sei bem o que sinto. São tantas coisas. Meio confuso, sabe?

Não que eu ache isso ruim, pelo contrário, acho interessante o fato de pensar que foi tudo tão esquisito e ao mesmo tempo ver que foi da melhor maneira que poderia acontecer. Lembrar que você não me dava muita bola, seu jeito durona de ser típico de leonina. E eu todo interessado, fazendo de tudo pra você me querer, sendo eu mesmo, mas dando ênfase nas qualidades, que eu não sou bobo de apontar meus próprios defeitos. Apesar de menino, já tinha lido “Arte da Guerra”. Sun Tzu tinha que servir para alguma coisa.

Mas valeu porque consegui te conquistar, eu acho. Nem que tenha sido por pouco tempo. Na verdade, às vezes penso que, talvez, você tenha me aceitado mais pelo esforço que fiz do que pelas qualidades propriamente ditas. Mesmo assim, me senti muito feliz. Era um reconhecimento.

Àquela época eu pensava ser você a coisa certa, quem me faltava. Ver seu sorriso era tudo que eu poderia querer. Pensava, imaginava, criava, inventava todas as possibilidades de uma vida eterna entre nós dois. E de repente o encanto se desfez.

Por um bom tempo fiquei sem saber como viver sem você. Sofri, chorei. Mas passou e hoje entendo que você era, sim, o melhor na minha vida naquele momento. Aprendi, cresci, amadureci. Foi bom pra mim e guardarei pra sempre este sentimento. Espero que você também tenha tirado boas lições de tudo aquilo. Te amei. Muito obrigado por isso.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

AA

Meu nome é Pedro, tenho 27 anos. Sou viciado.


No começo, confesso que entrei por diversão. Tava ali de bobeira, fazendo nada e fui apresentado a ela por alguns amigos. Gostei de cara. E passei a querê-la diariamente. E ela estava sempre por perto quando a procurava, então não tive dificuldade nenhuma em me viciar mais.

E a onda foi crescendo. No começo eram festas no final de semana, contatos rápidos, mas ela estava com meus amigos sempre. Aí passou a ser festa todo dia e, desde então, ela estava comigo e não mais com os outros. Eu a tinha pra mim. Só pra mim. De manha, de tarde, de noite. Eu não conseguia mais ficar sem ela.

Gastei dinheiro, me meti em encrencas, briguei por ela e com ela. Me diverti muito, passei pelas mais maravilhosas sensações, fiz viagens eternas e inesquecíveis. Ganhei novos amigos, me afastei de outros. Conheci uma nova família, um novo caminho.

Depois de tudo isso, cheguei aqui. E hoje digo feliz que o meu vício continua comigo. E continua a me proporcionar as melhores coisas da vida.

Meu nome é Pedro Saldres, tenho 27 anos e estou há 2 anos e 10 meses apaixonado pela minha mulher.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Primeiro e Melhor

Eu ainda me recordo perfeitamente da cena. Só faz uma semana, mas nesses tempos de velocidade em tudo, parece que já se passaram anos.

Você vestida naquele meu moleton cinza-surrado, cabelos completamente desgrenhados, parada no meio da cozinha lá de casa lendo a receita de bolo de cenoura da minha avó. “Queria te preparar um café legal, mas não sei onde encontrar os ingredientes”, você me disse quando percebeu que eu te observava. Depois me beijou. Teu beijo, àquela hora da manhã, era doce como a calda de chocolate que depois fizemos para o bolo.

Foi a primeira vez que você dormiu comigo e acho que por isso nunca esquecerei. Podia ter na memória outros detalhes daquele dia. O jantar que te preparei na noite anterior, o vinho que bebemos, as músicas que dançamos, mas sei lá... acho que aquele momento foi marcante. A intimidade de te ver como parte integrante da minha casa – mesmo que perdida entre os armários – me fez sentir que era você mesma. Tua completa falta de vaidade em me deixar te ver daquele jeito, maquiagem borrada, descabelada me fez sentir que você era minha.

Tua preocupação em me agradar com o bolo de cenoura quentinho logo cedo me cativou ainda mais. A tua cara de “não sei bater massa de bolo” foi que me mostrou o quanto você precisava de mim. E eu de você. Mas foi nosso diálogo após o primeiro pedaço de bolo que me fez ter certeza de que não podia te deixar mais sair da minha vida. “Foi o melhor bolo de cenoura que já fiz”, você disse. “E quantos você já fez?”, perguntei. “É o primeiro. Logo... hahaha!”

Ah, bom humor logo cedo. Como não te amar? Como não querer ter mais despertares como esse? E por isso te digo: aquele também foi o primeiro dia em que você acordou aqui. E sem dúvida, foi o melhor. Mas eu quero mais.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Amor e morte

Só você ainda não percebeu que não falo contigo por medo de você me achar burro. De não dizer algo inteligente que vá te marcar ou de fazer alguma piada imbecil e você me odiar. Só você ainda não entendeu que não chego perto de ti por temor de não estar suficientemente perfumado, ou estar perfumado demais e te causar alergia. Aliás, só você não se deu conta de que passou a receber lírios, e não mais rosas, quando contou – e eu ouvi – que as achava lindas, mas não podia levá-las pra casa, pois te causavam espirros.


Você ainda não percebeu que sou eu quem deixo água geladinha na sua mesa. Sou eu quem levo o café quente na caneca. Os biscoitos, também sou eu quem levo e faço, diariamente, em casa pensando no seu sorriso ao comê-los. E na sua expectativa por tentar descobrir quem é seu admirador secreto. Tal qual uma colegial querendo saber quem enviou o correio elegante na festa junina.

Aliás, só você ainda não se tocou de que não é coincidência que subimos juntos, diariamente, no elevador. E muito menos que eu passo os oito andares prendendo a respiração com medo de estar com bafo. Mas é tão bom estar ali ao seu lado. Nem sei o que faria se um dia ficássemos só nós dois lá dentro. Provavelmente teria um ataque de pânico.

Você também ainda não se deu conta de que nas aulas de ginástica laboral eu sou o único que não forma par com você. Medo de te quebrar em algum daqueles movimentos. De perder o controle ao massagear seu pescoço. Medo de sentir sua pele e surtar de vez, sabe?

Uma pena você não ter percebido nada disso até hoje. Uma pena você não descobrir e não me convidar para sentar à sua mesa. Fico triste. Aliás, de triste passei a ter raiva. Tenho me sentido muito enfurecido com isso. Sua falta de gratidão me machuca.

Mas ela não vai mais acontecer. Uma pena que hoje você vai comer meu último biscoito. Uma pena que você morrerá comendo. Espero que o sorriso pela surpresa ainda esteja em seu rosto quando te encontrarem morta. Eu amo o seu sorriso.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Sorte ou Azar

Tudo que tentei foi infrutífero. Todos os lances que dei resultaram em nada. Para os que me entreguei demais, virei utensílio de luxo descartável. Para os que me mantive sóbria, fui taxada de frígida. Quando tentei o equilíbrio, acabei como a desequilibrada que não sabe o que quer. Bipolar.

Tentei médicos ricos, motoboys pobres. Até professores que não são nada além de chatos. Os engraçados que me divertiam, mas não davam prazer. Os gostosos que me davam prazer, mas não sabiam rir. Altos, baixos, gordos e magros. Preto, branco, mulato, índio, cafuzo, mameluco, caboclo. Cearenses, amazonenses, goianos, paranaenses, cariocas e até os chatos dos paulistas. Aliás, já pensou em um professor paulista? Tédio.

Tentei de tudo e nada de certo. Uns dizem que não tive sorte. Outros dizem que tive azar. Mas se azar no jogo quer dizer sorte no amor, chegou minha hora de apostar, ganhar dinheiro, quebrar a banca do cassino. Quem quer girar a roleta?

sexta-feira, 25 de março de 2011

Nossas manias

Ai, você me liga em plena madrugada achando que vou te atender. Esqueci de te dizer. Não deixei só você. Deixei também todas as manias que adquiri contigo. Era isso ou a tua lembrança a cada ato corriqueiro do dia.

Não tomo mais sorvete de menta. Não peço mais café com leite vaporizado. Voltei a comer pizza com borda de catupiri. Agora começo a leitura do jornal pelo “caderno 2”, que é pra programar o cinema, o teatro, o show ou qualquer outra coisa que eu queira fazer mais tarde. Sem essa de ficar em casa vendo novela.

Deixei de beber vodca com schweppes citrus. Voltei a tomar minha cerveja estupidamente gelada. Voltei a fazer a barba diariamente em vez de manter aquele ar desleixado. Voltei a ouvir o Roberto Carlos e não mais aquele tumtumtum seco que você gosta. E, veja você, deixei de dormir com o celular ligado. Precisava conter meu desejo de te ligar.

Só não perdi aquela mania boba de te desejar. Ainda bem que não te atendi. Ainda bem que você bateu à minha porta. Ainda bem que te recebi.

Agora levanta que teu café com leite vaporizado está pronto. E o caderno de economia está debaixo da bandeja pra tu ler. Bom dia e até mais tarde. Prometo que te trago sorvete de menta pra sobremesa do jantar. Te amo.

sábado, 19 de março de 2011

Inacreditável

“Você está, sem dúvida, na lista das pessoas mais interessantes e insanas que já conheci.” Foi assim que ela se dirigiu a mim depois de uma semana de convivência. Confesso que por alguns minutos não soube dizer se a frase, misturada ao seu constante tom ameaçador, era um elogio ou uma ofensa. Mas o longo beijo que me deu ao se aproximar, sem dúvida, deixou claro que era um elogio. Ou uma ofensa. E um beijo de piedade. Não sei. Até porque, ela me beijou e foi embora.

Era um beijo de despedida e um agradecimento pelos sete dias passados? Ou era um beijo de dó e uma certa pena pela pessoa que ela viu em mim? Capaz de nem ela saber me explicar. Mas o tempo foi todo calculado para a frase, aproximação, beijo e a entrada no táxi que a esperava. Meu “tchau, volte sempre que puder” só foi ouvido pelo gari que varria a rua naquela hora.

Depois de uma semana intensa vivida lado a lado ela simplesmente saiu de mim, assim como entrou. Num acontecimento fortuito. Numa passagem da vida que poderia passar despercebida por qualquer um. Assim como nos conhecemos na tentativa de embarcar em um táxi no aeroporto de Brasília, ela se despediu de mim antes de entrar em outro e voltar ao aeroporto. Voltar ao seu frio e solidão (imagino eu) seja lá onde ele for.

Porque não acredito que lá ela vá entrar em outro táxi já ocupado, meio sem querer. Não acredito que esse táxi terá outro passageiro tão “interessante e insano” quanto eu. Não acredito que ela vá estar sem um hotel reservado. Não acredito que a cidade não terá quartos disponíveis. Não acredito que ele vá sugerir que ela fique na casa dele. Não acredito que eles vão descobrir tantas afinidades. Não acredito que ele vá pedir uma semana de licença no trabalho para ficar com ela.

Não acredito que ela vá passar outra semana recheada de sexo, de paixão, de histórias. Não acredito que ela viverá outra semana de bons restaurantes, bons filmes, boas músicas, bom vinho. Não acredito que ela terá outra semana de bons sonhos, bons despertares e bons bate-papos no escuro do quarto.

E, principalmente, não acredito que ela tenha coragem de arrumar suas coisas, chamar um táxi e esperá-lo do lado de fora enquanto ele foi à rua buscar mais daquilo tudo de bom de antes. Não acredito que ela... eu não acredito nela. Eu não acredito. Não acredito que sou tão interessante.

Mas acredito que sou um insano por ter feito tudo isso. E acredito em amor à primeira vista.

sábado, 12 de março de 2011

Antes de dormir

De tudo o que a gente vive ao longo do dia minha parte preferida é a do escuro do quarto. Não to falando de sexo. Nem de dormir. Muito menos de silêncio.


To falando daqueles minutos que antecedem o adormecer, quando ficamos ali, deitados lado a lado, conversando. Não é que o sexo seja ruim, pelo contrário. Você sabe que, pra mim, sexo é fundamental e não estaríamos juntos há tanto tempo se não fosse bom. Meu sono também é ótimo e você, mais do que ninguém pode atestar isso. E o silêncio, bom... o silêncio tem seus momentos de valor.

Mas é que te ouvir contar sobre seu dia, entrar no teu mundo, ouvir teus lamentos sobre o trabalho, tua preocupação com a saúde do teu pai e as bobagens das tuas amigas me faz bem. Me sinto mais integrado. Sabe aquela coisa matemática de primário, dos grupos, do que pertence e não pertence; está contido e não contido? Pois é, me sinto assim, feito menino no primário descobrindo o mundo. Contido nas tuas histórias, pertencente aos teus planos.

E é ali que eu também sinto você comigo, partilhando minhas dúvidas, meus medos, minhas idéias mirabolantes de fazer 300 coisas ao mesmo tempo. E em seguida caindo na real de que não farei nem duas. É ali que me pego fazendo planos para nós dois. Aquela viagem, o restaurante que ainda não conhecemos, o espumante que está na geladeira e ainda não tomamos.

Você bem sabe: o sexo, um dia, vai acabar. Não há azulzinha que aguente. Pelo menos não pelo tempo que quero estar ao seu lado. O sono vai rarear, ou você já viu velho que durma mais que 5 horas por noite? O silêncio vai permanecer tendo seu valor nas horas certas. Mas essa conversa, seus contos, suas preocupações. Essas tenho certeza que ainda persistirão a me embalar os sonhos.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Na quarta-feira virei cinza

Eu já te observava bem antes da sexta-feira, mas só naquela noite, embriagado, com os sinos do lança-perfume tocando na cabeça, foi que tive coragem pra chegar perto de você. Você já sabia, eu era um grande covarde. Fama de franguinho que foge quando outro galo canta no terreiro. Mas ainda acredito que foi justamente por isso que te surpreendi. Entre todas as passistas daquele baile, você era a que mais chamava atenção. Teu colorido exalava. Sabia que tinha todos os olhares, do rei, do arlequim, do pierrô, do pirata, do marinheiro, do capitão, até do Clóvis Bornay. Mas não esperava a aproximação do bobo da corte. E de gracinha em gracinha eu ganhei o branco do teu sorriso.

No sábado, segui teu ritmo. Teu gingado me levou à diferentes blocos. Teu passo me fez percorrer toda a avenida. Tua ginga me fez sambar de trás pra frente. E no fim da noite teu rebolado me levou ao prazer infinito. Eu já me sentia seu. E te sentia minha. Mesmo com o rei do pandeiro a te paquerar. Mesmo com a bateria parando pra você passar. Mesmo com o mestre-sala a te fazer reverências. Eu sabia que o vermelho dos teus lábios me pertenciam.

Veio o domingo e continuei na tua cadência. Meu coração já fazia feito tamborim toc toc tum toc tum toc tum no seu ritmo. E no meio do pagode você me puxou pro canto da quadra e me transformou em reco-reco, em cuíca gemendo alto. O preto da tua pele me extasiava.

Na segunda e na terça, a gorda terça-feira de carnaval, me senti feito Rei Momo. Satisfeito com teus beijos e carícias. Mas querendo provar mais do doce que você me dava. Seria o Rei Momo mais obeso e estenderia meu reinado por infinitos carnavais pra poder comer do seu prato. Beber do teu gole. Me colorir com todas os brilhos da tua purpurina, com todas as cores dos teus paetês.

Na quarta-feira teu bloco não saiu. No meio da rua vazia, no meio da ressaca contida, entre restos de latas e cheiro de urina não ouvi teu apito a comandar a batucada do meu peito. Na quarta-feira eu virei cinza sem você.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Mais um tchau

Definitivamente, eu acho uma pena. É uma pena, depois de tantas idas e vindas, de encontros e desencontros, de amores e desamores, eu ainda sofrer por perder você. É mesmo uma grande pena depois de tantos anos eu ainda não ter aprendido a lidar com meus erros – sempre os mesmos – e com as consequências deles.

Sabe, eu fico triste mesmo. Nem é por você ter ido. Isso aconteceria uma hora ou outra. Afinal, quem acredita em “viveram felizes para sempre”, além das crianças que dormem ao som da leitura de uma Cinderela ou Rapunzel? Só naqueles embalados sonhos o para sempre é real. Depois que crescem, vivem a realidade. Aliás, não era Cinderela sua história favorita quando pequena?

Eu fico triste é por mim. Por não perceber que estou numa eterna volta: conquista, namoro, erros e o fim. Triste por não me dar conta que meus erros não feriram só você, mas também a Marisa, a Fernanda, a Tatiana, a Maria Clara... e por não ver que o problema não foi você, nem elas. O problema sou eu.

Muitos usam desse papo de “não é você, sou eu” para terminar um relacionamento. Só que comigo é sempre o contrário. Foi você (e todas as outras) que me disse, ou deixou a entender que o problema não era você, mas eu.

Eu fico triste por não ver que eu sempre caminho para o mesmo buraco. Para a mesma vidinha simples e sem aventuras, para a mesma rotina medíocre que acredito ser o suprassumo da existência humana.

Psicologia, psiquiatria, hipnose, acupuntura, terapia holística, exercícios físicos, menos álcool, voto de solidão. Sei lá o que pode me fazer mudar. Qual a sua sugestão? Quer dizer, você nem tem que me dar nenhuma sugestão. A essa altura já deve estar bem longe. De volta àquele apartamento que você dividia com as amigas. Me deixe mesmo aqui. É melhor pra você.

Quanto a mim? Bom, o ciclo recomeça. Vejamos quanto tempo dura o próximo. Bom que estes escritos já ficam aqui, à mão para o próximo cartão de despedida.

Boa sorte pra você. Espero que goste das flores.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Fórmula Dove

Eu até estava indo bem, sabe? Já tinha saído daquela fase de madrugadas chorosas e bêbadas, já tinha passado aquela impressão de ver seus olhos em cada espelho, de ver teu carro em cada estacionamento. Já tinha conseguido até passar o aspirador de pó em casa, pra ver se não sobrava nenhum fio de cabelo teu escondido por aí. Também já não tinha mais aquela vontade de te ligar a todo momento, implorando pra você voltar pra mim e que eu vou mudar e que nós ainda podemos ser felizes. Tudo isso já tinha passado.

Já tava de volta a rotina do trabalho. Reconquistei a confiança do chefe. Retomei projetos que tinha deixado parado. Até mesmo o futebol no domingo. Voltei a fazer gols! O primeiro foi lindo, até cheguei a levar o anelar esquerdo à boca para dar um beijo, quando senti que não tinha mais aliança. Mas foi rápido, passageiro, logo recebi outra bola e esqueci disso.

Até umas paqueras novas já estavam rolando. Trocas de mensagens aqui. Uns olhares ali. Beijos acolá. Percebi que não tinha me esquecido como ser conquistador. Mas todas garotas de uma noite só. Boas noites, inclusive.

Mas aí veio a primeira viagem a trabalho. Lembra? Daquelas que eu ia num dia pela manhã, fazia reuniões o dia inteiro, passava a noite e voltava no outro dia pela manhã. Pois é, retomei isso também. E já em arrependo.

O dia tinha sido bom. Reuniões produtivas, projetos encaminhados. Happy hour divertido. Uma garota passou a noite me dando bola. Até me permiti trocar olhares e por fim, alguns beijos no estacionamento. Voltei ao hotel e entrei no banho. Ao abrir a saboneteira, você me invadiu novamente. Em vez do meu tradicional sabonete glicerinado, encontrei aquele teu dove. Você dizia que eu tinha que usar dele, pra poder hidratar minha pele. Mal sabia você que todos são iguais, meros detergentes da pele.

Teu cheiro estava guardado nele. Aquele cheiro doce, de pele macia – não por conta do sabonete, mas por conta da natureza que te fez assim mesmo –, de saudade. Aquele teu cheiro de aconchego, aquele teu cheiro de me deixar com tesão. Aquele teu cheiro de me fazer cafuné, aquele teu cheiro de me fazer dormir.

Debaixo do chuveiro eu chorei. Lá fiquei até o sabonete derreter por completo entre meus dedos. E depois adormeci sentindo teu cheiro em minha mão. Como se você estivesse ali. E foi assim que descobri a fórmula perfeita pra te ter sempre comigo.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Faxina Geral

Nada como um bom pedaço de pano e uma garrafa de álcool para fazer uma limpeza. Não, não. Não to falando da mesinha de centro da sala que você limpa com um paninho perfex e um litro de álcool Guarany.

To falando do pano, do linho do lenço Presidente que você me comprou para eu usar no casamento daquela sua amiga. Eu achei brega. Lembra que você bebeu além da conta, vomitou e acabou usando meu lenço para se limpar? Pelo menos a breguice teve bom uso. E foi pro lixo. Mas no dia seguinte você fez questão de me dizer que tinha comprado uma caixinha. Ainda sobravam dois. Ficaram guardados na gaveta das cuecas.

To falando do álcool que se bebe, da cana ardente da cachaça ruim que você comprou para fazer quentão em fevereiro, já que você estava com desejo. Onde já se viu desejo de não grávida? Mas você disse que não tava encontrando gengibre. Sem gengibre não tinha graça. Tomou a garrafa do malbec argentino - que eu guardava pra uma ocasião especial - com sua amiga que três meses após o casamento pegou o marido com uma sirigaita no clube. Esqueceu do quentão e a garrafa ficou lá no canto do armário, tomando poeira.

Pois é esse mesmo lenço brega e essa mesma garrafa de cachaça ruim que fazem minha faxina hoje. O linho que eu esfrego no meu rosto, secando as lágrimas, arrancando essa pele velha e desgastada. A aguardente que desce rasgando a garganta, queima o esôfago, faz eco no estômago e estremece o fígado.

Mas eu to me limpando de você. Me desinfetando do seu cheiro que ainda ficou no lençol. Arrancando todos os micróbios da sua boca que ainda possam estar espalhados pelos copos, pela caneca de cappucino, e até na taça de vinho. Me desfazendo das suas lembranças, das suas manias, dos seus pedidos. É faxina geral, livre de você.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Teoria da Relatividade

“Tudo é relativo”, dizem por aí. Não tenho certeza, mas deve ter sido Einstein, com sua teoria da relatividade, que criou essa blasfêmia e a transformou em conhecimento público. Acredito mesmo que o que ele queria dizer era que até essa frase – “tudo é relativo” – é relativa. Porque não dá para tudo, realmente, ser relativo.

O meu amor por você, por exemplo, não é relativo. Mesmo tendo na etimologia da palavra relativo o significado de relação, o termo tornou-se algo como “pode ser que sim, pode ser que não”. E é aí que falo que não. Não há nenhuma relatividade na excitação dos nossos corpos ao se encontrarem, no suor de nossas mãos, segurando umas as outras, sabendo que ali haverá sempre um porto seguro, não há relatividade nos seus olhos que me encaram e me dão a certeza de um futuro.

Não há “pode ser que sim, pode ser que não” nos nossos planos, nossas viagens, nossos desenhos, nossas provas e marcas de amor. Não há relativismo nas tuas mãos percorrendo meu corpo, muito menos na tua boca dizendo um baixinho e suave “eu te amo” na minha orelha.

Pois então, te digo que nosso amor, não. Ele não é relativo. Não cabe qualquer hipótese relativista, pois no nosso amor só há concretismo, só há realismo, só há futurismo.

sexta-feira, 19 de março de 2010

É impossível ser feliz sozinho?

Sexta-feira, 23h, chuva torrencial lá fora e ele já se sentia mal. Banho tomado, roupa vestida, perfume no cangote e a notícia, via twitter – direto no seu blackberry, de que a festa estava cancelada por conta da chuva. Afinal, onde já se viu luau na praia com aquela tempestade?

Mas sexta é dia de balada. Dia de pegação. Ficar em casa e ver TV estava fora dos planos. Nem uma das garotas da lista se dispôs à ir a casa dele. E não rolou nenhum convite a ir à casa de ninguém. A fome bateu. Nem o hot dog da barraquinha na praia ia rola hoje. E agora?

Agora que ele se deu conta de que podia ficar sozinho. Podia cozinhar pra ele mesmo e beber aquele vinho guardado pra um momento especial com a ex-namorada que nunca chegou e agora não ia mais chegar.

Colocou uma música no som, foi pra cozinha ver o que tinha na geladeira. Massa era uma boa pedida para acompanhar o vinho. Mas não tinha. “E daí? Vou comer o que eu tiver vontade.” E um mexido de ovo, arroz, feijão, cenoura e queijo nunca harmonizou tão bem com um malbec argentino.

Som rolando, comida na mesa, vinho na taça. Ele até dançou sozinho. E relembrou que é, sim, - desculpa Tom Jobim - possível ser feliz sozinho. Nem que seja só por alguns instantes. Afinal, amanhã é sábado e tem mais balada à vista.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Quando dois se bastam

- Por quê? Por que tanta alegria, tanta risada? Você consegue me explicar?

Foi o que me disse a vizinha assim que abri a porta. Era domingo e nós terminávamos um almoço tardio – como sempre são os almoços de domingo – regado a muito vinho e um delicioso risoto de funghi preparado pela Clarinha.

Não sei se foi o vinho, mas não me recordo de estarmos rindo tanto assim, a ponto de incomodar a vizinha. Aliás, desde quando alegria incomoda alguém?

- Como?

Foi a única reação que tive.

- Eu quero saber, Sr. Tiago, a razão de toda essa euforia, toda essa alegria, todas essas gargalhadas. Por quê? O que traz a vocês dois tanta felicidade? Vocês são sozinhos! Não tem amigos, não tem filhos, não tem família. Estão aí, só os dois, e parecem que estão na maior festa do mundo. Dá para explicar? Nem um cachorro vocês têm!

Eu e Clara havíamos nos mudado a pouco tempo para aquela casa. Assim que nos estabelecemos, a vizinha – Neide é o nome dela – veio bater à nossa porta. Trouxe um cartão de boas-vindas feito pelos seus dois filhos. Os meninos deviam ter entre 5, o mais novo, e 10 anos, o mais velho. Eles desenharam em uma folha de papel um casal, que presumi sermos nós, e uma família com pai, mãe e dois pequenos meninos de cabelos arrepiados, que imaginei como sendo eles. No alto da folha, em letras de forma estava escrito: BEM VINDOS VISINHOS VIZINHOS.

Ela foi simpática e disse que estaria à disposição para tudo que precisássemos. Perguntou sobre nossos filhos – os quais ainda não estamos pensando em ter –, convidou Clara a conhecer o grupo de ginástica do bairro, indicou uma diarista para ajudar com os serviços domésticos. E prometeu um filhote de Pastor Alemão da próxima ninhada de seu casal de cães. São premiados os bichinhos.

Mas o que mais me assustou foi a relação que ela criou entre sermos sozinhos X sermos felizes.

- Como assim, sozinhos?

Foi tudo o que consegui retrucar. A essa altura, o gênio cricri da Clara já estava atrás de mim na porta, bufando e querendo saber o que estava acontecendo.

Tá certo que a casa era muito grande para só nós dois. Mas isso não tem nada a ver com nossa família e amigos. A mãe da Clara – sogras! – passava sempre por lá. Minha mãe – sogras, de novo! – não deixava passar uma semana sequer sem dar o ar de sua graça. Meus irmãos e uma amiga-irmã da Clara – ela não tem irmãos de sangue – já dormiram várias vezes no quarto de hóspedes. E nossos amigos também sempre aparecem para um jantar, ou almoço, ou só mesmo pra jogar conversa fora. Não tinha essa de sozinhos.

- Sozinhos! S-O-Z-I-N-H-O-S. Sem ninguém para fazer companhia. Sem crianças correndo e gritando para preencher o vazio dessa casa. Sem um cachorro para fazer guarda. Sem uma empregada para varrer e lavar suas roupas. Sós. Vocês não são uma família normal. E ainda assim estão aí nessa algazarra, rindo, ouvindo música, cozinhando e bebendo vinho. Como vocês fazem isso sem ter alguém pra partilhar?

- Acho que a gente se basta, dona Neide. É só isso. Um faz companhia pro outro e não precisamos de muito mais que isso. Crianças serão benvindas, quando for o momento certo. Cães serão ótimas companhias, quando quisermos ter outra companhia. E nossas famílias, bem... nossas famílias estão sempre por aqui. Mas acho que a resposta mais direta para a senhora é só mesmo essa: a gente se basta, se completa e assim tá muito bom. Não precisamos de uma vida tão cheia e tão completa. Pelo menos não no sentido que a senhora diz. Não com essas coisas que a senhora considera importantes.

Ela murchou e começou a chorar. Chorava como há muito tempo não via ninguém chorando. Soluços doloridos, um choro raivoso. Clarinha ofereceu sua taça de vinho. Ela recusou, virou as costas e saiu andando. Um pouco mais à frente virou-se, balançou a cabeça e pediu desculpas.

Uma semana depois, também já no fim de um almoço – com amigos, registre-se – veio nova batida na porta.

- Boa tarde. Vim buscar a mudança da dona Neide.

- Dona Neide? É a casa amarela. Aquela ali do outro lado da rua.

- Desculpa! A dona ligou tão aperreada que nem anotei o endereço direito. Pensei que fosse casa 12.

- Tudo bem.

- Boa tarde pro senhor. Muito obrigado.

- Por nada. Bom trabalho pra você.

Neide tinha descoberto que o marido a traía. Viu ruir toda a estrutura de boa família que ela vinha construindo. E surtou. Parece que agora está morando lá do outro lado da cidade e se consultando com um psicólogo para poder entender que é possível ser feliz sozinha. Ou com alguém que se ama.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Com o tempo passa

“Como pode ser gostar de alguém e esse tal alguém não ser seu? Fico desejando nós gastando o mar. Pôr-do-sol, postal, mais ninguém...” A Vanessa da Mata tocava no som do carro enquanto ela dirigia e, chorando, lembrava que lhe disseram que com o tempo passaria. Na primeira semana – recheada de dor, desespero, solidão e intermináveis lágrimas – ela acreditou piamente naquilo.

No mês que se sucedeu – trinta dias cobertos de indagações como “será que eu volto atrás?”, “será que ele ainda me quer?”, “será que se eu enfiar o dedo na tomada morro eletrocutada?” – ela ainda tentou acreditar naquilo. Pensou que seria questão de dias para esquecer tudo.

“Peço tanto a Deus para lhe esquecer, mas só de pedir me lembro...”, continuava a cantarolar o rádio. E o tempo passou e o sentimento permaneceu. Batia ali aquela dúvida, aquele medo, o receio de quem fica só. Soprava em seu ouvido a melodia da tristeza, o uivo do lobo solitário. Ressoava em seu peito o eco do isolamento.

Dois meses, três. Algumas tentativas de recomeçar de outro jeito. Viagens para esquecer, tentativas de novos affairs, novos amigos, nova vida. Mas tudo voltava a ele. “Sinto que você é ligado a mim. Sempre que estou indo, volto atrás. Estou entregue a ponto de estar sempre só esperando um sim ou nunca mais...”.

Mas ali, em meio ao trânsito e às lágrimas, ela percebeu que não, não passaria com o tempo. Que não sumiria o desejo, o respeito, a parceria e muito menos o seu sentimento. O seu amor. De supetão entrou no primeiro retorno e tomou o caminho que há muito não fazia. O caminho dele. Ela precisava voltar. “É tanta graça lá fora passa o tempo sem você. Mas pode sim, ser sim amado e tudo acontecer. Quero dançar com você. Dançar com você. Quero dançar com você.Dançar com você êêêê”.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Cíclico

Ela não sabia ao certo quando, nem como, nem por que, mas tinha certeza que já não sentia da mesma forma. As piadas não tinham mais a mesma graça. O beijo não tinha mais o mesmo gosto. O abraço já não era tão apertado.

Ela não sabia quando, nem como, nem por que, mas sabia que algo estava diferente. E era o sentimento. Aquilo que ela já não sentia mais. Algo que ela precisava voltar a sentir e, com certeza, não era mais com ele.

Ela sabia que precisava dizer tchau. Só que também não sabia como, nem quando. Sabia por que. E acabou por fazer da forma mais simples e direta: “Não te amo mais. Pra mim já acabou.”

O peito doeu. Os olhos choraram. A cabeça girou. O sentimento de perda foi inevitável. E a cada lembrança o coração palpitou. Mas depois de um tempo a leveza voltou a tomar conta dela. Aquela leveza de quem anda nas nuvens, de quem canta sozinho, de quem ri de tudo.

Não sabia como, não sabia quando, não sabia por que. Mas sabia que era uma nova paixão.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

CLIPPING

Pois então, tem uma rádio bem bacana na Internet chamada Elo FM. Lá, o Alexandre Lanna Lins tem um programa chamado Blog da Vez, que nas palavras do próprio é um "espaço para quem produz conteúdo de qualidade na internet." O programa apresenta, diariamente, um blog legal.

E nós, aqui do Historias de um Momento, fomos protagonistas de um programa na semana passada. Pode entrar lá e ouvir o que ele diz. Bom proveito!

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Arco-Íris dos relacionamentos

É difícil relacionar-se com outras pessoas. Fica ainda mais difícil quando você gosta de alguém que não gosta de você. E por que ela não gost de você? Por que gosta de outra? Dizem que é a diversidade. Que gosto cada um tem o seu. "O que seria do vermelho se todos gostassem do azul?" é o que dizem alguns.
Bobagem. Bom mesmo seria se todos gostassem do azul. Assim não haveria tantos traumas, tantas dores, tantas desilusões. É azul? Gosto! Não é? Não gosto. Fácil e simples. Mas a vida não é assim. Há, claro, os que gostam do azul. Mas também há os que preferem o verde, o vermelho, o amarelo, o preto com listras rosas, o lilás com bolinhas douradas...
E para sobreviver nessa brincadeira de caixinha de lápis de cor o mais importante é descobrir a variedade de tons. Porque pode acontecer de você gostar do vermelho sangue, vivo, forte, aquele que chama muita atenção e ele não gostar do seu azul-céu (por mais sentimentos de paz e infinitude que ele possa trazer).
E é aí que vale buscar por outro tom: um vermelho mais claro, mais escuro, com bolinhas, xadrez, mais puxado para o rosa, puxado para o salmão. Enfim, a aquarela é enorme e há uma imensidão de tonalidades possíveis para se criar no mundo das cores. Com certeza uma vai te agradar. E você também agradará alguém. Mesmo que esteja em um daqueles seus dias desbotados.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

porra! tô puto!

vou contar uma história. outro dia fui a casa de amigo. rolava lá um samba, pagode, quebradeira... sei lá! sei que tinha banda. com tan tan, cavaco, pandeiro, microfone... essas coisas. o som estava legal. minha galera do colégio, como sempre, gente boa e animada. tocavam todo tipo de samba e pagode. ai, o vocal puxou um... "Deus está aqui nesse momento..."

ao som do do cavaco ficou interessante. gosto dessa música há pelo menos uns quatro anos. achei estranho, inadequado (os chicleteiros que me perdoem) para aquele momento, mas... "beleza, é festa, uuh!!". Ele prosseguiu na "pregação": "Deus te trouxe aqui/ Para aliviar os seus sofrimentos ô ô ô". eu até cantava junto. chegou o refrão, cantei de novo (é a parte mais bonita da música).

mas o foda começa agora: o bicho esqueceu o resto da letra e começou a solfejar e inventar uns trechos lá: "fulano de tal, me traz um cervejaaaaa ô ô ô". ah! não.. perai! ai eu fiquei puto. pô, tudo bem que o cara toque uma música religiosa num antro de cachaça, pagode e, acidentalmente, onde a putaria comportamental pode rolar solta (leia-se pegação). mas zombar da palavra de Deus já é sacanagem.

explico. não sou um exemplo de conduta. mas costumo ir a igreja quando posso. não sei explicar por que. mas gosto de estar lá. essa música é um símbolo. mas, bonita e triste, teve a infelicidade de ser alçada pela galera do chiclete com banana (acho que foram os caras que gravaram). ai, banalizaram a coitada e reverteram totalmente a função social que ela se propunha.

no meu carnaval, por exemplo, fui comprar uma cerveja numa conveniência e lá tinha um carro parado, com a mala aberta, escutando essa música. ao redor dele, um monte de bêbados, cantando e dançando. o motorista dava tavas na bunda da namorada enquanto entoava "ô ô ô". minha silenciosa indignação começou ai.

e ela se traduz num lado quase-religioso-social e noutro pessoal. mais uma vez, explico: a primeira vez que escutei essa música ao som do violão, eu acompanha o cortejo que levava o corpo da jovem maria clara (cês lembram dela) até o local onde seria enterrado. naquele momento, mesmo lá como repórter, não tive como não me comover, sobretudo, com essa parte: "e ainda se vier noites traiçoeiras/ se a cruz pesada for/ cristo estará contigo/ e o mundo pode até fazer você chorar/ mas Deus lhe quer sorrindo".

por isso adquiri um carinho especial por ela. de lá pra cá, a escuto sempre com muito respeito. ai vem o chiclete com banana (demolidor que me perdoe) e esculhamba com tudo. agora, a música virou um hit para animar as cachaçadas. repito: não sou um poço de religiosidade, muito menos sei interpretar a palavra de Deus como se deve, como meu amigo dieguito amorim. mas acho um desrespeito. e tô puto!

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Tudo azul

Conheci uma dama que nunca aprendia. Saia, se exibia e, todo dia, encontrava aquele que lhe queria. Não era bem um gatão. Nem lhe servia muito bem. Mas, pra uma noitada na cama, àquela hora tudo caia bem. Foi-se um dia, depois outro. Alegria, alegria, não era bem o que a moça sentia. Mas a satisfação do momento lhe dava forças pra levantar e ir trabalhar. O máximo que conseguia, era pensar, sempre com nostalgia.

Foi quando, num belo dia, a noite, que já era escura, ficou confusa. E ela pegou-se olhando uma blusa azul, no meio de uma festa toda vermelha e preta. Baile de tradição. Coisa de gente que gosta das mesmas coisas e das mesma gente. Não era bem o caso dela. O que será aquele ponto azul no meio daqueles espantalhos? Não sabia. Aproximou-se. Não devia. O azul sumiu. Ela ficou sem saber aonde ia.

Esperou e nada! Resolveu embrenhar-se por pensamentos vermelhos ou pretos. Era bem mais fácil se dar bem. Parou, bebeu, sorriu, dançou, sentou e... sentiu um braço forte por trás a abraçá-la. Beijaram sua nuca. Ela avistou o braço, a camisa azul. Sorriu, cerrou os olhos, passou o queixo naquela pele delicada, mas forte. Entregou-se, de olhos fechados. Sentiu uma força a virar-lhe o rosto. Entregou-se mais ainda. Sentiu lábios. Primeiro no rosto, depois na boca. Beijou. Beijo demorado. Isso é coisa de homem apaixonado, imaginou.

Olhos ainda fechados, estendeu o beijo a um abraço. Resolveu acordar. Viu, apertou os olhos. Pra que? Não era o que imaginava. Aquilo era uma mulher. Não tinha nada com nada. Asfastou-se. Recebeu um sorriso malandro de uma mulher sem muito a perder. Viu o azul desaparecer. Estava chocada, revoltada, evergonhada. Mas encantada. Nunca receberá um abraço daqueles. Bebeu pra esquecer. Dormiu e acordou. Tudo estava azul.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Não deu valor

Doía como costumam doer as grandes perdas, mas aquela tinha algo de diferente. Não sabia se pelo fato dele nunca ter sido realmente dela, ou se pelo fato dela nunca ter sido realmente dele. Mas é certo que doía ainda mais pensar que ele queria ser dela e ela não quis. Brincou, usou, deixou em stand by, desprezou e acabou perdendo. Talvez doesse também por conta da triste melodia que tocava no rádio do carro. E mais ainda pela letra da música que dizia tudo que ela deveria ter dito.

E agora, o que eu vou fazer?
Se os seus lábios ainda estão molhando os lábios meus?
E as lágrimas não secaram com o sol que fez?

Doía como costumam doer as grandes decepções, mas aquela tinha algo de diferente. Porque ela é quem havia se decepcionado. Ela tinha jogado contra ela própria, achando que o teria no momento em que quisesse. “É um guri bobo. É só chamar que vem correndo”, pensava. E assim fez por várias vezes. Chamado atendido, ela recebia o afago que queria, divertia-se com o rabo abanando do seu cachorrinho e depois o botava para dormir do lado de fora. E a música ainda trepidava as caixas de som do seu veículo.

E agora como posso te esquecer?
Se o seu cheiro ainda está no travesseiro?
E o seu cabelo está enrolado no meu peito?

Doía como costumam doer os choros silenciosos, mas aquele tinha algo diferente. Porque o silêncio de suas lágrimas era rompido por um leve soluçar e pelo eco de seu próprio pensamento que gritava “Burra! Burra! Burra!” a cada lembrança de um bom momento vivido ao lado dele. Momentos que não se repetiriam mais. Porque agora ele havia achado um lar. Alguém que o queria de verdade. Alguém que não o via como um brinquedo para horas de monotonia.

Espero que o tempo passe
Espero que a semana acabe
Pra que eu possa te ver de novo

Doía como costumam doer as despedidas inesperadas, mas aquela tinha algo diferente. Porque ela poderia tê-la evitado, mas não o fez. E agora sabia que não o veria de novo, mesmo após acabar a semana. E no carro, foi-se embora. Sem saber como não percebeu que ali estaria sua alegria, que ali poderia repousar seu futuro.

E agora como posso te perder?
Se o teu corpo ainda guarda o meu prazer?
E o meu corpo está moldado com o teu?


(Música: N, de Nando Reis)

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Ficou pra trás

Continuo te acompanhando, sabe? Mesmo à distância eu sigo teus passos. Sei de cada movimento seu, cada lugar que freqüentas, enfim. Mesmo que pelos outros, eu ainda consigo ter alguma noção de como anda teu desenvolvimento.

Ontem, por exemplo, te vi entrando naquele café e pedindo o mesmo chocolate quente acompanhado de biscoitos. Outro dia te vi na porta da banca de jornais, com o dedo a enrolar o cabelo – o maior indício de sua dúvida – analisando duas capas de revistas daquelas que prometem dar dicas de como enlouquecer o homem na cama, ou alguma dieta mágica que te faça perder 10 quilos em dois dias.

Sei também das festas que você vai. Sei dos porres que toma. Das surras que leva da vida e até das alegrias que tem tido. Teu gato novo, aquele angorá, é bem bonito, por sinal.

Vejo tudo. Acompanho cada etapa do seu dia. De o seu espreguiçar nas primeiras horas da manhã, ao seu adormecer nos últimos minutos do dia. Vejo tudo do meu retrovisor, como quem enxerga o caminho que ficou para trás numa longa viagem.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Obrigado

- Obrigado por te esquecer.

- O que? Como assim?

- É. Obrigado por te esquecer. Foi melhor assim mesmo.

- Que mesmo? Que assim?

- Obrigado por não pegar na minha mão quando precisei, por calar quando queria te ouvir, por dançar quando te queria ao meu lado e por parar quando eu queria dançar. Obrigado por fugir, por só ficar, por não estar. Obrigado por nunca me agradecer, nem sorrir e me chamar para sair. Valeu mesmo por me atender e me despistar com aquela desculpa sorridente. Obrigado por me levar a sério só quando lhe foi conveniente. Por gostar de mim apenas nas tuas noites vazias e saber fazer só o que pra mim você não devia. Obrigado por ser assim. Agradeço-te pela falta de carinho, de consideração. Ter-te é um espinho. Obrigado por não teres flores na mão. Com você, aprendi qual o meu caminho. Falta agora ensinar a meu coração.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Parceria

A amizade entre os dois era evidente. Impossível não notar. Bastava passar em frente ao prédio em que moravam para vê-los, diariamente, sentados no banquinho. De manhã cedo, na hora do almoço, no fim da tarde. Sempre que possível lá estavam os dois. Inseparáveis.

Mesmo em silêncio era possível notar a cumplicidade entre eles. Sentados, um ao lado do outro, trocando carinhos. O papo devia variar entre o clima, a vida, as notícias do jornal que ele carregava debaixo do braço. Enfim, aquilo não interessava. O importante para os dois era estar lado a lado.

Vez ou outra levantavam-se do banco e davam um passeio. Esticar as pernas era importante para os dois. Não estavam mais em idade de muitas aventuras e uma breve volta pelos arredores já devia cansá-los. Por isso a brevidade das caminhadas

Mesmo com todo esse ambiente de alegria e cumplicidade, ao vê-los, meu maior pensamento era sobre a morte. Sobre qual dos dois ela visitaria primeiro. Qual dos dois ficaria sozinho. Qual deles tentaria levantar e sentar no velho banco sem a companhia do companheiro.

Cumplicidade, amizade, parceria, companheirismo, amor. Tudo isso faz parte de um relacionamento. Ainda que seja como a dos dois. A bela relaçãao entre um velho homem e um velho cachorro.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Argolas

Olhava para o par de brincos e lembrava-se daquela música do cara que achou o fio de cabelo da mulher no paletó. Sentia-se como o cantor, sofrendo ao olhar o cabelo da amada: pensava no amor dos dois, nas noites apaixonadas, no cheiro do perfume, na pele macia que ele tanto gostava de acariciar. E o que lhe restara eram apenas duas argolas prateadas.

Ele as encontrou uns dois dias depois que ela foi embora. Estavam debaixo da cama, caprichosamente caídas, como se tivessem sido postas ali por alguém. Uma ao lado da outra. Ela gostava tanto daqueles brincos que ele não podia imaginar como ela os tinha esquecido ali, justamente naquele dia em que fizeram amor pela última vez. Feito meio que como uma despedida, ou uma forma de reconciliação. Ele não sabia ao certo. Tudo agora era incerteza entre eles.

Mas ele sabia que ela não iria embora sem suas argolas. Se elas ficaram ali, tão bem posicionadas é porque queriam dizer algo. Às vezes, ela mesma poderia tê-las deixado ali como um sinal de que voltaria para buscar seus tão queridos brincos. Talvez, pudesse ser apenas um presente de recordação para ele. E o seu “fio de cabelo no paletó”, naquele momento, era sua única esperança em revê-la.

Um par de argolas prateadas. Tão bonitas em suas orelhas, que tantos beijos deu. Ele só esperava que ela quisesse usá-los de novo. E que não os encontrando, lembrasse de onde estavam e fossem ao seu – dele e não dos brincos – encontro.